quinta-feira, 25 de maio de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #5

 

Que a sofisticação de uma composição não garante boas canções já o sabemos, pelo menos, desde Lou Reed, arquitecto de uma vasta discografia suportada em praticamente três acordes. Discípulo, por assim dizer, do escritor Delmore Schwartz, malogrado poeta de quem conhecemos apenas em língua portuguesa uma colectânea de contos intitulada Nos Sonhos Começam as Responsabilidades, Lou Reed apresenta-se, antes de mais, enquanto escritor para quem a música é um veículo de propagação da palavra: «quero fazer rock and roll que esteja à altura de Os Irmãos Karamazov». Demasiado ambicioso, convenhamos, tal projecto materializou-se ao longo dos anos em inúmeras histórias com a cidade de Nova Iorque a servir de cenário.
Transformer (1972) foi a ponte erigida entre o universo dos The Velvet Underground e uma carreira a solo oscilando entre a popularidade de Walk On The Wild Side ou Dirty Blvd. e um experimentalismo que o aproximou, com resultados desiguais, tanto do jazz, em The Bells (1979), como de um pop rock inofensivo a piscar o olho ao funk, em Mistrial (1986). Se num álbum como Transformer a irrelevância do suporte musical face à lírica ainda não é evidente, muito por culpa dos arranjos belíssimos que Reed ficará a dever aos produtores David Bowie e Mick Ronson, já em New York (1989) essa irrelevância é manifesta, sendo mesmo legítimo sublinhar nesse disco a índole spoken word que caracteriza o gesto de Reed narrar, mais do que cantar, a letra de uma canção.

Anterior a New York, a edição pela Assírio & Alvim do livro Luzes da Cidade alertava, num prefácio assinado por Luís Maio, para essa componente narrativa personalizada nas letras do autor: «Lou é um contador de histórias do quotidiano, e conta-as na linguagem que o protagoniza». Da cena gay ilustrada em Transformer ao underground nova-iorquino, com seus indigentes, prostitutas, chulos, toxicodependentes e traficantes, de uma sexualidade sadomasoquista aos afogos da vida doméstica, do absurdismo numa canção como Andy’s Chest ao naturalismo intervencionista de There Is No Time no ano em que o Muro de Berlim caiu, há toda uma sucessão de temas que se cruzam na discografia de Lou Reed afirmando-o como um dos grandes cronistas do seu tempo, um tempo de transformações radicais na paisagem humana, nos comportamentos, hábitos, tradições e valores que moldam essa paisagem. É isso que o torna essencial. 



Sem comentários: