sábado, 20 de maio de 2017

COIMBRA, 19 DE MAIO DE 2017

Para o Miguel de Carvalho.
Em memória do Carlos.

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«Onde se lê taberna deve ler-se salvação. / Onde se lê taberna deve ler-se perdição».
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Palavras como salvação e perdição são-me estranhas. Salvação de quê? Perdição de quê? Julgo-as manifestamente exageradas.
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No meu caso a errata poderia incluir um sentimento que nem me é especialmente querido: onde se lê taberna deve ler-se nostalgia.
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A primeira profissão do meu pai, com 11 anos mal contados e o primeiro par de sapatos, convenientemente rotos nas solas, foi a de taberneiro no Cartaxo.
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Em 2009 passaram na televisão uma reportagem sobre o último taberneiro do Cartaxo. Sobre isso, e embalado por um livro de poesia de Vítor Nogueira intitulado “Comércio Tradicional”, escrevi então:

«Preso ao passado, sem esperança no futuro, o último taberneiro do Cartaxo já não serve a quantidade de cartolas de vinho que servia noutros tempos. Vai ficando atrás do balcão, entretendo-se com quem passa, e explica agora para a TV, transformado numa raridade, as três medidas de vinho que ainda hoje serve a quem lhe frequenta a casa. Ao bater com o vidro dos copos no mármore do balcão, gesto insignificante para uma imensa maioria de pessoas habituadas a coca-colas de pressão servidas em copos de papel, o último taberneiro do Cartaxo desperta-nos do sonambulismo provocado por uma contemporaneidade alheia ao serviço afectuoso do chamado comércio tradicional. (…) Perdeu-se o conforto de uma relação marcada pela familiaridade, ganhou-se em agitação, alvoroço, claustrofobia, pressa». 
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Em suma, não se ganhou nada.
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Ocorre-me a taberna da Dona Ilda, no Bairro da Serradinha, em Rio Maior, onde comprei os primeiros definitivos (ou seriam Kentucky?) e bebi as primeiras ginjas, com menos primaveras contadas que as de meu pai quando começou a trabalhar.
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Parece mentira, mas era possível ter-se 10 anos e beber uma ginja ao balcão. Um tipo começava a fingir-se homem desde cedo, enquanto mirava os velhos a jogar o dominó dos dias contados.
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Portanto, para mim taberna começa por querer dizer nostalgia. E a nostalgia, como bem mostrou Andrei Tarkovsky, é altamente poética.
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Já adolescente, dividi-me pelo Escritório, taberna a escassos metros da escola que então frequentava, e pela Taverna da Raposa (com um “v” no lugar do “b”, evolução linguística que não me sinto apto a discutir). Ao vinho a retalho, preferíamos litrosas de cerveja Sagres e aquilo a que os irlandeses chamam “a pint of Guinness”. Para nós eram canudos de preta.
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Canudo de preta é uma expressão que ainda hoje me soa erótica, apesar de a guardar associada ao saudoso Carlos que nos servia tais regalos. Enforcou-se para espanto de todos, precisamente na sala onde tantas vezes nos sentávamos dando corda a intermináveis discussões.
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Suponho que desde então as tabernas tenham perdido qualquer significado na minha vida, substituídas por cafés de passagem com os quais procuro não gerar afinidades. Não-lugares, nada que se compare ao Cheers da deliciosa série televisiva dos anos 80.
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Só mais tarde vim dar com Fernando Pessoa no Martinho da Arcada, com os poetas do Café Gelo, com as deambulações alcoólicas do Al Berto. Houve, de facto, um tempo em que muita poesia saía dos cafés, das tabernas, da pastelaria. Os poetas andavam na rua, frequentavam-se. Agora sai directamente das academias e da sala de estar, com as devidas e muito estimáveis excepções.
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Mantenho-me fiel ao Três Arquinhos, no Rogil, sempre que por lá passo ligeiros dias de Verão. Agrada-me o cheiro a bagaço pela manhã, o medronho que acompanha o café, as conversas de circunstância com que se ocupam os vazios da existência. E passo por lá horas a ler, a escrever, a desenhar. Foi lá que li “As Cantinas e Outros Poemas do Álcool”, de Malcolm Lowry. Suponho que as tabernas do poema de Manuel de Freitas devam qualquer coisa às cantinas de Malcolm Lowry, lugares de desolação e desesperança onde homens destroçados pelo medo e pela solidão afogam as mágoas em tequila. As tabernas surgem aí elevadas ao estatuto de santuários onde esperança alguma se ilude e realiza.
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Igualmente devedoras desta ética do vício são as minhas “Mesas Privadas, e De Vítima”, título, aliás, respigado num poema de Jorge Falllorca justamente intitulado “Café”. Publiquei essa sequência de 30 poemas em prosa em 2006, num livro cujo título contrasta com a assumida face selvagem e espontânea dos textos. O livro chama-se “Estórias Domésticas”.
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Os cafés, as tascas, os bares, as tabernas desses textos são palcos para um ambiente de suspensão da vida doméstica. São lugares de observação do outro, o “eu” neles exposto é absolutamente artificial. Só o outro ali importa, um outro tão concreto que, em certos casos, facilmente identificável, como o senhor Alexandre dos matraquilhos, antigo colega de carteira de Ruy Belo, ou o Noel da “Mesa 7”.
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Mesa 7

Sempre que o Noel entra no café, olham-no como se ele fosse um cancro. Uns chamam-lhe Pai Natal, outros chamam-lhe prémio. Ele senta-se, trauteia uma cantiga francesa, bebe o vinho de um só trago. É um cancro benigno.
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Em suma, acerca de tabernas posso constatar haver muita virtude em certos vícios, saudáveis vícios saudosos. Diria antes, talvez, que nos salvam do desespero na medida em que nos fazem crer não estarmos sós em matéria de perdições.

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