quarta-feira, 31 de maio de 2017

ESTAR SÓ

Porque minto e me apoquento em ter mentido, porque amei mais do que devia, em noites tão de vento, tão de vento, em noites tão de dia, estou agora aqui com a cabeça entre as pernas a meter pomada, e nada, e nada.
Poderia dizer do estoiro com que pela manhã estremunhei em sonhos, não fosse o rap cigano a invadir o ar sombrio do bairro, não fosse o ritual de ano a ano frequentar as mesmas noites e de ano a ano ver os mesmos rostos e de ano a ano encontrar as mesmas palavras para os mesmos rostos nas mesmas noites.
Às vezes sinto-me só, coitadinho de mim, com penas que não tenho espero dos outros uma palavra, com palavras que não tenho isolo-me ainda mais, mas nunca o suficiente para que me deixe de sentir só.
(Esta atmosfera esférica que me usurpa o sol em dias de folga e me extenua de calor em dias de trabalho, tudo contra mim, excepto o mal de ter nascido.)
Estar só não é solidão, estar só é um apenas de solidão, o mínimo dos mínimos, uma tristeza descafeínada, três estrelas em crítica literária, menção honrosa, horrorosa menção honrosa, estar só é estar abaixo das possibilidades.

Diria poderia dizer porque minto às vezes: estar só não é solidão.

4 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

Só se está verdadeiramente só quando se está sozinho com alguém ao lado.

hmbf disse...

diz que sim

maria disse...

"estar só não é solidão"...pode não ser. e ser...e o que é estar verdadeiramente só?

hmbf disse...

é falar uma língua estrangeira