quinta-feira, 11 de maio de 2017

LE RADEAU DE LA MÉDUSE


THÉODORE GÉRICAULT
Le Radeau de la Méduse
1819
óleo sobre tela
491 x 716 cm, Musée du Louvre, Paris
(clique na imagem para ver melhor)


   Em Junho de 1816, uma fragata baptizada de Medusa saiu de um porto francês em direcção ao Senegal. Com uma tripulação a rondar as quatro centenas de pessoas, capitaneada por um tal de Hugues du Roy de Chaumareys, a fragata acabou por naufragar algures entre as Canárias e Cabo Verde. Seis salva-vidas foram ocupados pelo capitão, oficiais e o futuro governador do Senegal. Para trás ficaram 150 almas à espera de ajuda. Restaram 15 para contar a história. 
   A luta pela sobrevivência a bordo de uma jangada levou a mortes várias, assassinatos, sendo famosos os relatos de canibalismo então assinados por Henri Savigny: "Aqueles que a morte tinha poupado atiravam-se raivosamente aos cadáveres que cobriam a jangada e cortavam-nos em fatias, que alguns quase instantaneamente devoravam. Um grande número de nós, ao princípio recusaram-se a tocar nessa horrível comida, mas por fim, cedendo a uma vontade mais urgente que a humanidade, vimos nesse terrível repasto o único e deplorável meio de prolongar a existência". 
   Obcecado com a catástrofe, o pintor Théodore Géricault (1791-1824) pintou Le Radeau de la Méduse (1819) e apresentou a obra no Salão de 1831. Géricault serviu-se de cadáveres para representar os corpos mortos sobre os quais resistem as figuras vivas. O elemento mais elevado é um preto acenando uma insígnia de esperança, o que então causou escândalo junto das mentes esclavagistas. Mas a violência do quadro foi o que gerou maior controvérsia, apesar de nada ele acrescentar aos relatos dos sobreviventes que Géricault ouviu. 
   Na Europa de 2017, o problema dos refugiados tem vindo a ser banalizado com a exibição persistente de imagens horrorosas. De corpos dados à costa a barcos de borracha atolados, já vimos um pouco de tudo. Figuras públicas aproveitam tempo de antena para denunciarem os factos como bem entendem, num esforço de consciencialização traído pela espectacularidade. Ouvem-se os discursos, comovem-se os corações, muda-se de canal. 
   O escândalo provocado pelo quadro de Théodore Géricault, representação visual de um facto histórico num tempo em que a imagem ainda não havia hegemonizado o pensamento, parece-nos hoje anacrónico. Lado a lado, a miséria dos refugiados e a miséria televisiva convivem pacificamente. O espectador, ou, se preferirem, o público, assiste a tudo com relativa indiferença, a relação que mantém com a realidade é de distância. A cada vez mais intensa virtualização da nossa relação com o mundo produz este efeito de distância face aos factos, uma distância protectora mas altamente nociva. 
   A foto chocante de um menino sírio morto numa praia da Turquia é o que mais se aproxima hoje da balsa de Medusa, o que leva a pensar na Europa como a tripulação no quadro de Géricault. Em certa medida, somos vítimas de um naufrágio moral e, por consequência, político. Procuramos sobreviver "comendo-nos" uns aos outros, cada vez mais encolhidos numa jangada deixada ao abandono por elites instaladas em porto seguro. Uns mortos, outros semimortos, todos desesperados. Ou como aquela figura absorta que, no lado esquerdo da jangada, ajoelhado entre dois corpos, oferece uma mão ao peso da consciência enquanto impede um cadáver de cair à água. 

Sem comentários: