sexta-feira, 26 de maio de 2017

ÓCULOS DE SOL


Confundo Monet com Manet, entre ambos intromete-se amiúde Millet, e então fico sem saber sob que luz as respigadoras se curvaram. Desacerto desmentido pelas reproduções, cada qual no seu tom deslavado. Detesto todas. Ter por uma vez à frente dos olhos as cores naturais é quanto basta, o que me leva a pensar na rapariga de óculos escuros que ontem perguntou pelo Eckhart Tolle. Onde está o Eckart Tolle?, questionou-me do fundo de uns olhos invisíveis mas presumivelmente belos. Algures no Canadá, respondi-lhe. E ela sorriu e eu pude pressentir debaixo das lentes escuras um brilho de Millet. Ou seria Manet? Ou seria Monet? Detesto óculos de sol. Evito-os tanto quanto me é possível. Que entre os meus olhos e o mundo se intrometam apenas as poeiras levantadas pelo vento, não quero guardar do mundo as cores chulas de uma reprodução. Quem viu as especiarias expostas em Khan el-Khalili jamais poderá encontrar graça na exposição de frasquinhos e saquetas com especiarias num supermercado. 

Sem comentários: