Confundo Monet com Manet, entre ambos intromete-se amiúde Millet,
e então fico sem saber sob que luz as respigadoras se curvaram. Desacerto
desmentido pelas reproduções, cada qual no seu tom deslavado. Detesto todas. Ter
por uma vez à frente dos olhos as cores naturais é quanto basta, o que me leva
a pensar na rapariga de óculos escuros que ontem perguntou pelo Eckhart Tolle.
Onde está o Eckart Tolle?, questionou-me do fundo de uns olhos invisíveis mas
presumivelmente belos. Algures no Canadá, respondi-lhe. E ela
sorriu e eu pude pressentir debaixo das lentes escuras um brilho de Millet. Ou
seria Manet? Ou seria Monet? Detesto óculos de sol. Evito-os tanto quanto me é
possível. Que entre os meus olhos e o mundo se intrometam apenas as poeiras
levantadas pelo vento, não quero guardar do mundo as cores chulas de uma
reprodução. Quem viu as especiarias expostas em Khan el-Khalili jamais
poderá encontrar graça na exposição de frasquinhos e saquetas com especiarias
num supermercado.

Sem comentários:
Enviar um comentário