sábado, 27 de maio de 2017

PLANETA TANGERINA

Detesto poetas que aconselhem, dirigindo-se a terceiros como se fossem mestres marciais. Não sou discípulo de ninguém, muito menos de patetas. Escrevem: abraça os dias pela manhã, lava os olhos na escuridão, ama como a estrada começa, pega fogo às cortinas e canta, dança, cai de borco. Escrevem como se dissessem para orelhas moucas, os patetas. Detesto-os. Falassem antes do que não sabem, preferi-los-ia corda partida de guitarra, a corda na garganta, o nó na bacia deslocada. São filas de pirilampos mágicos, a estática do mundo, a estética, são electricidade estética, estilo desalinhado para corpus hermeticum. Vão pentear macacos. Fico nesta snobeira dialéctica a patinar axiologias, tese, antítese e síntese, mais síntese que tese, mais fotossíntese que antítese, a patinar axiologias no pantanal dos trocadilhos. Nenhum farei com pantanal, palavra indisfarçavelmente homoerótica. Bato os braços, levanto voo, penetro o planeta tangerina transformado em lagarta e folheio gomos. Bebedeira de suco, cuspo o fogo dos açúcares. É tudo, filha, amanhã colherei só para ti um ramo de crisântemos em filigrana. 

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