quarta-feira, 24 de maio de 2017

TODO TOLDO É TOLO

Condenado a viver, recorri em todas as instâncias. Perdi. Recluso de mim próprio, cá estou a cumprir pena. Não há manhã em que não me reclame enquanto penteio o cabelo, merecia melhor cor, olhos luminosos como nossas senhoras na escuridão. Procuro reinventar-me diariamente. Sem sucesso. Sou um perdedor conformado, um derrotado. Felizmente livre de qualquer frustração que uma laranja suculenta não trate. Onde mediram um metro e setenta e seis deviam ter medido dois palmos de testa, os de um génio em causa própria, sem sombra nem tecto, sem toldo, todo ele tolo a podar unhas em parque público. Ainda o cheiro a cavalos do fim-de-semana passado, um cisne bêbado a morder tranças, as pobres crianças aflitas num bote que apenas não naufragou por estarem tépidas as águas. Iriam dar à Foz, na certa. Acabaram no aconchego das mães com gelado de premeio para diminuir volume às dores. Gosto tanto de não fazer nada, ficar apenas assim sentado a olhar as pernas traçadas das moças, os dedos intrépidos deles enquanto roem desbloqueadores de conversa. A sorte lhes seja farta, necessitamos urgentemente de gente consolada neste mundo, tipos que saibam contar a vida pelos dedos, moças que saibam servir-se dos dedos, enfim deuses que possam servir-se de todos nós com risos desgrenhados no rosto. 

2 comentários:

maria disse...

"olhos luminosos como nossas senhoras na escuridão" hahahaha

hmbf disse...

:-)