sexta-feira, 30 de junho de 2017

100

Em Janeiro de 2013 iniciei neste espaço uma série de textos com o propósito de revisitar 50 westerns. Dei-lhe o título genérico de 50 Westerns Que Deve Ver Antes de Morrer. Chegado aos 50, não consegui parar. Acrescentei-lhe outros tantos. A lista, que pode ser directamente consultada aqui, com link no título para cada um dos filmes revisitados, chegou hoje aos 100. Percorro-a com raiva e desespero. Faltam títulos obrigatórios —Stagecoach (1939), de John Ford, é a falha mais gritante, conquanto tenha dado atenção ao remake por Gordon Douglas—, outros subjectivamente relevantes —Dances With Wolves (1990), de Kevin Costner, ou The Hunting Party (1971), de Don Medford, foram marcantes na formação deste que vos escreve —, sendo que a paixão pelo género tornaria esta lista interminável. Já não estamos numa selecção restrita com um propósito pedagógico, a qual poderia incluir apenas duas mãos cheias de filmes: Red River (1948), Rancho Notorious (1952), High Noon (1952), Johnny Guitar (1954), Forty Guns (1957), Rio Bravo (1959), The Man Who Shot Liberty Valance (1962), Once Upon a Time in the West (1968), Pat Garrett & Billy the Kid (1973), Unforgiven (1992)…  Assim sendo, como aceitar que deste grupo não façam parte a trilogia da cavalaria de John Ford (Fort Apache, She Wore a Yellow Ribbon, Rio Grande), o The Ranown Cycle que juntou o actor Randolph Scott e o realizador Budd Boetticher em filmes extraordinários tais como Ride Lonesome (1959) e Comanche Station (1960), ou a trilogia dos dólares com Clint Eastwood a ser dirigido por Sergio Leone? Onde meter The Ox-Bow Incident (1943), The Searchers (1956), Cheyenne Autumn (1964), True Grit (1969), The Wild Bunch (1969) ou o mais recente The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford (2007)? Todas estas obras são excepcionais, é impossível esquecê-las, omiti-las numa lista por mais pedagógica ou iniciática que ela procure ser. Resolvi, portanto, criar na barra lateral uma etiqueta específica para estes textos. Estão lá, neste momento, 100 filmes do género western, típicos filmes de cowboys, spaghetti western, neo-western, western revisionista, western moderno, anti-western, western comedy (off-color western?). Sirvam-se à vontade.

O PEIDO

   Calhou a certo músico conhecido encerrar um espectáculo de beneficência. Contra todas as expectativas, começou por interpretar uma belíssima canção de Joni Mitchell, sendo recebido com relativa indiferença, passando depois para o tema que toda a gente esperava. Os aplausos foram estrondosos. A meio do tema, o conhecido músico imitou com a voz o som de um trompete. A plateia delirou. Perante o delírio, o intérprete ensaiou uma piada afirmando que sentia que podia fazer qualquer coisa e as pessoas aplaudiriam. Ia experimentar dar um peido. Continuou o seu número com a canção que todos queriam. Mas o burburinho fez-se sentir na sala, antecipando o que era previsível.
   Vivemos numa sociedade cada vez mais previsível, pelo que é bom ter tipos que façam piadas imprevisíveis em contextos inconvenientes. Esta imprevisibilidade, esta improvisação, vai contra os tempos de condenações em massa, tempos à sua maneira pudicos por fora, boçais por dentro. Uma sociedade que se inquieta tanto com uma simples piada inofensiva pode esperar o quê de si mesma? E tendo-se ofendido, ofendeu-se com o quê? Será que a piada não era assim tão inofensiva?
   Outro não assunto recente tem como protagonista certo jovem jogador da selecção nacional de futebol, o qual apareceu nas redes sociais a exibir um monte de notas. Provavelmente de origens humildes, estrelou recentemente numa das mais caras transferências de sempre envolvendo desportistas portugueses. De um dia para o outro apanhou-se cheio de notas e resolveu exibi-las publicamente, formando um leque sobre o rosto para logo aparecer com um sorriso enorme estampado na cara. Brincava com as notas como uma criança brinca com o brinquedo favorito. Gesto infantil, palerma, pacóvio, mas altamente previsível, vindo de uma personalidade de quem só desprevenidamente poderíamos esperar comportamentos exemplares. Ele é o que é.
   O jovem músico e o jovem jogador de futebol são a tese e a antítese de uma síntese a que chamamos sociedade portuguesa, a qual reagirá sempre pior ao improviso e à imprevisibilidade desafiadora de um artista do que ao exibicionismo de um jogador da bola. Desde logo, porque são mais os pacóvios do que os provocadores nesta nossa querida pátria. Assim sendo, para o jogador da bola haverá sempre a complacência dos desejos materiais. O seu comportamento não pôs em causa nenhum valor, não beliscou sequer a humildade que os portugueses tanto prezam sem que percebam bem o que é. Aquele monte de notas é o símbolo de uma fachada, a mentira por detrás da qual se esconde o rosto. Ninguém vê mal na exibição da mentira, sobretudo deste tipo de mentiras que têm por base o dinheiro, o exibicionismo material, a fortuna.
   Mas o artista pôs algo em causa, inquietou as massas. O valor que ele pôs em causa ao desafiar o seu público foi o valor da autenticidade. Ele soltou num comentário, como quem solta um traque, aquilo que lhe ia na alma. Em suma, foi autêntico, foi verdadeiro. Não sei se alguém reparou, mas o jovem artista não se limitou a ameaçar ou a sugerir. Ele saltou mesmo o peido ao dizer o que disse. Ora, numa sociedade de mentira poucos são os que toleram a verdade de um peido. Mesmo quando envolto na melodia de uma balada em espectáculo de beneficência. Agora imaginem se as notas do jogador da bola fossem para apoiar as vítimas dos incêndios. 

SILVERADO (1985)


  A década de 1980 foi uma quase nulidade para o western. Dois filmes, curiosamente estreados no mesmo ano, justificam o advérbio: Pale Rider, de Clint Eastwood, e Silverado (1985), de Lawrence Kasdan (n. 1949). Argumentista com créditos firmados no domínio da ficção de aventura (Star Wars, Os Salteadores da Arca Perdida…), Kasdan não assinou muitas obras. Mas entre as que levam a sua assinatura encontramos dois westerns rodados com quase uma década a separá-los. Em ambos, Kevin Costner, que viria a estrear-se como realizador com Dances With Wolves (1990), é uma das estrelas da companhia. Encarna um Wyatt Earp problemático no filme homónimo e dá corpo à cómica e irreverente figura do jovem Jake em Silverado.
   Típica figura dos livros de quadradinhos, Jake é o malabarista de circo com coldre duplo, pontaria afinadíssima, atlético e ágil com o cavalo como nenhum outro. De uma sobriedade incomparável, Scott Glenn interpreta Emmett. É o irmão mais velho de Jake, protector a regressar de uma pena injustamente aplicada. Homem de família, fiel aos seus, com um vigoroso sentido de justiça, cruza-se na viagem com as personagens de Kevin Kline e Danny Glover. O primeiro é o fora da lei arrependido, traído tanto pelos antigos companheiros de quadrilha como pela própria consciência. Emmett encontra-o no deserto praticamente desnudado, como se estivesse num retiro espiritual em processo de renovação. Na personagem de Kevin Kline vislumbramos a metamorfose humana que reconhecemos de inúmeros filmes congéneres. Já Mal, encarnação de Danny Glover, é o filho extraviado que regressa a casa. Vem de Chicago, onde andou a trabalhar nos matadouros, e não traz saudades. Regressa com esperança no horizonte, um horizonte rapidamente redesenhado pela força das circunstâncias. É um negro entre racistas.
   Apoiado neste quarteto, Lawrence Kasdan desenhou uma aventura que oscila entre o drama e a pura diversão. Na realidade, acaba por homenagear o western fazendo-o reviver quando ele se encontrava moribundo. E fá-lo pelas principais características de um género que, bem vistas as coisas, desde cedo se afirmou enquanto formato onde o trágico e o dramático conhecem a sua dimensão de entretenimento. Com um elenco luxuoso, ele oferece-nos ainda o xerife corrupto na personagem de Brian Dennehy, o jogador desleal na personagem de Jeff Goldblum, o ávido criador de gado, senhor das terras de Silverado, na personagem de Ray Baker, a colona de fortes convicções e idealista na personagem de Rosanna Arquette, o chefe de gangue na personagem de James Gammon, o xerife cobarde e oportunista na personagem de John Cleese…

   Nas histórias que se cruzam a caminho de Silverado desfila todo um conjunto de personagens tipo fixadas pelos filmes que, ao longo de décadas, retrataram o Velho Oeste, sendo esta a homenagem de que o western necessitava para renascer das cinzas nos idos de 1980. É muito provável que vários jovens da minha geração tenham entrado por esta porta no mais clássico dos géneros cinematográficos, vindo posteriormente a descobrir as raízes que permitiram florescer Paden, Emmett, Jake e Mal. Depois de Silverado, o interesse pelo western fez-nos redescobrir um potencial algo caído no esquecimento. Filmes como o supracitado Dances With Wolves (1990) — 7 óscares, entre os quais o de melhor filme — e Unforgiven (1992) — 4 óscares, entre os quais o de melhor filme —, acabaram por reconfirmar o que já sabíamos desde os tempos de John Ford: estamos perante um dos géneros maiores da sétima arte. Não é pura acção, não é acção pela acção, é acção no interior da qual o romantismo e a crueldade se encontram, a justiça e o livre arbítrio se conhecem, a consciência moral e a emoção se unem, o idealismo e o pragmatismo se justificam um ao outro, a tragédia e a comédia deixam de ter fronteiras a separá-las. É cinema.

terça-feira, 27 de junho de 2017

O CONTRÁRIO DE AZUL


De certa “notícia” e respectivo “rodapé” televisivo que enunciava o «sangue comunista» de um político português, o mais que se pode dizer é que se trata da questão sanguínea de uma Testemunha da Ignorância. É bem verdade que a história não se repete – é uma impossibilidade, teórica e de facto; mas, como escreveu o historiador britânico Eric Hobsbawm, se destituirmos a história do seu sentido pedagógico, isto é, se considerarmos que a história nada nos ensina, é provável que soframos de algum desajustamento psíquico. Todavia, escreveu o mesmo historiador, «infelizmente, se alguma coisa a experiência histórica ensinou aos historiadores é que, aparentemente, com ela, nunca seja quem for aprende seja o que for. Mas temos o dever de continuar a tentar».

Jorge Muchagato, aqui.

"É FÁCIL TORCER O NARIZ DIANTE DO CADÁVER"

Quem escreve e emite juízos como se o mundo pertencesse apenas aos vivos, é um provinciano da História. E são sinal de tacanhez, tanto o seguidismo hipócrita do novo como o apego cego ao velho.

Ulla Hahn

O VERÃO DE ULLA HAHN


ESTE VERÃO

Este Verão ensina-me
a amar as minhas cicatrizes
a enfeitar-me com marcas de estrangulamento no pescoço

Este Verão ensina-me
a fechar à chave a amargura e fico
bem roliça e anafada pareço bem tratada

Este Verão ensina-me
a gritar o bel canto

Este Verão ensina-me
que a solidão descansa
e cresce numa mão

Este Verão ensina-me
a não confundir um corpo disponível
com o desejo de felicidade

Este Verão ensina-me
a ser para cada pedra um espelho de água

Este Verão ensina-me
a amar grandes bolas de sabão e pequenas
antes de rebentarem

Este Verão ensina-me
que tudo sem nós
por si continua

Este Verão ensina-me
um rosto gelado feliz

Este Verão ensina-me
tenho que ser eu a bater no tambor
quando quiser dançar

Este Verão ensina-me
a ser sem felicidade sem tristeza por uns
segundos aliada de Deus

Este Verão ensina-me
a acordar de manhã. Grata. Sozinha

Este Verão ensina-me
que a folha do limoeiro só deita cheiro
quando a desfazemos entre os dedos.


Ulla Hahn (n. 30 de Abril de 1946, Kirchhundem, Alemanha), in A Sede Entre os Limites, trad. João Barrento, Relógio D'Água, 1992, pp. 109-111.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

NÃO TEM EXPLICAÇÃO


A infelicidade deste homem não é um caso isolado. Se fosse, as desculpas estariam aceites. Descuidos, lapsos linguae, afirmações infelizes esporádicas, todos têm. Mas Pedrito Coelho, sem prejuízo para Beatrix Potter, é useiro e vezeiro nestes momentos de triste memória.


Agora vem com esta de algumas vítimas da tragédia em Pedrógão Grande terem posto termo à vida, em desespero. Pela primeira vez sinto pena desta personagem. Há, sem dúvida, algo naquela cabeça que não vai bem. Para mais no pior momento do governo de António Costa, este lunático atrai sobre si as atenções deste modo suicidário.

Pode ter sido mal informado, pode ter sido induzido em erro, mas por que carga de água vem falar de putativos suicídios neste momento de luto? Este homem não tem explicação


Adenda: leiam-se as contas aqui feitas: No quadriénio 2007-2010, suicidaram-se em média, por ano, em Portugal continental, 983 pessoas. No seguinte, 2011-2014, em que Passos Coelho foi primeiro-ministro, esse número subiu para 1031 mortes. O número médio de suicídios por ano no mandato de Passos foi de mais 48 em relação à média dos quatro anos anteriores. Tudo somado, 192 mortes. Terá Rui Ramos estes números em sua posse?

PORTUGAL LOCAL É SENSACIONAL*


José Pacheco Pereira é um homem fascinante. Alia ao semblante de filósofo grego um pragmatismo deveras contemporâneo, tornando assim possível e coerente manter-se num partido cuja governação lhe inspirou as mais acintosas prosas. Não é por acaso que nos gloriosos tempos de Passos & Portas muitos acabaram por atribuir a JPP a mais hábil das oposições, a qual trouxe pelos cabelos certas figurinhas ridículas do PPD/PSD. Aí o temos, mais uma vez, ao lado de uma autarca modelo, presumo, segundo padrões que só a elaborada teoria política do autor do weblog Abrupto poderá explicar. À frente da Câmara Municipal de Rio Maior desde 2009, the woman in red conseguiu governar a três velocidades: parado, paradinho, paradão. Não é para mim um mistério, que naquela terra nasci e daquela terra parti, assistir ali à consagração da inoperância. Mais difícil de entender é a simpatia de Pacheco Pereira por tais atributos. Ao tentar compreendê-lo, ocorreu-me um caso hipotético explanado numa crónica do Público datada de 2012.

«Vejamos um caso hipotético e compósito de um político tornado gestor. Começou por baixo, por um aparelho partidário local cujo controlo assegurou, primeiro pessoalmente, depois através de homens de sua confiança pessoal. Durante toda a sua vida política nunca deixará de manter um controlo rigoroso sobre a sua zona de influência original, colocando lá homens de mão, que mais tarde emprega, distribuindo benesses e lugares sempre em primeira mão para o aparelho onde se iniciou e cresceu. Perder o controlo dessa base original é um grande risco, porque é aí que as pessoas melhor o conhecem, numa altura em que os seus primeiros passos de carreira ainda eram crus e pouco sofisticados e deixaram rastro. 
Iniciou-se a receber "avenças" dos empresários locais que conheceu no processo de obter financiamentos para a actividade partidária. Começa a entrar ou a fazer uma rede de "amigos", a que garante "facilidades" junto do poder central e local, primeiro em coisas simples e baratas e depois vai fazendo o upgrade para negócios mais sérios. Quase toda a sua economia pessoal é feita à margem do fisco e da lei, mas isso há uns anos atrás não era problema nenhum, porque o controlo fiscal dos rendimentos era uma ficção e hoje também não é por que há offshores . Se havia algum escândalo público, a explicação clássica era de que "ganhou na bolsa", e se esse escândalo implicasse problemas com a justiça, o que era raríssimo, pagavam-se de imediato os impostos em falta e esperava-se que a máquina emperrasse nas prescrições ou numa tecnicalidade, como quase sempre acontecia. 
Nesta altura, o nosso político hipotético já dá uma grande atenção à comunicação social e através de fugas de informações, que favorecem uma carreira jornalística, ou através de favores, presentes, ou mesmo falsas avenças ou empregos para familiares dos jornalistas no novo universo empresarial em construção, já tem um círculo de jornalistas no seu bolso. Nenhum, insisto, nenhum dos que fazem esta carreira hipotética o consegue fazer sem relações privilegiadas com a comunicação social, umas vezes pessoais, dominantes no passado, hoje através de agências de comunicação pagas a peso de ouro. Esse ouro é pago por nós através de encomendas de serviços "de comunicação" por uma autarquia ou um ministério "amigo", assegurados, como tudo, pelo acesso ao poder político. Não existe hoje nenhuma destas microrredes de poder que não esteja ligada à comunicação social e que não dê importância decisiva a esse factor. No fundo, são políticos modernos, antes sabiam bem do poder do telefone e dos almoços de negócios, antes de ter medo das escutas, hoje exploram a fundo o spin e as redes sociais. 
Se for esperto, e muitos são mesmo muito espertos, sai a tempo da política e dedica-se "exclusivamente" aos negócios. Os seus negócios têm uma característica comum - fazem-se todos na "área de negócios politizados", todos dependem do acesso ao poder político e da decisão política, seja através de informação privilegiada, seja através de facilidades e escolhas de favor. Mas também por isso fica sempre com um pé, e um grande pé, dentro da política. Emprega nas suas empresas os seus companheiros de partido, e a sua família, cria laços sólidos no Estado e nas autarquias, recomendou e obteve a colocação de muitas pessoas que lhe são fiéis, ajuda a obter créditos e tratar de problemas com o fisco, ameaça quando é preciso e aparece quando é preciso. Nalguns casos institucionaliza a sua microrrede ou em associações e lobbies , ou, sempre deste retrato hipotético e compósito, entra numa maçonaria e usa-a para novas relações e novos recrutamentos em áreas sensíveis de decisão. Nos exemplos mais modernos recruta mesmo nos blogues alguns jovens lobos sedentos de notoriedade, poder e influência e que precisam de patrocinato, e a quem "enreda" para que não lhe venham a criar problemas no futuro. O que vemos hoje in the making é uma nova geração, preparada e escolhida pela anterior, de políticos deste tipo, uns na primeira divisão, mas a maioria na segunda divisão, onde também se ganha muito dinheiro com muito mais discrição


O nosso caso hipotético está longe de ser uma realidade, é apenas hipótese académica surgida na cabeça de um bom professor. Pacheco Pereira sabe como é, sabe como se faz, e é por isso que pensa por hipóteses, e é por isso que, por hipótese, devemos sempre interrogar-nos onde pretenderá ele chegar quando entre o que prega e o que faz achega-se ao poder local como o óleo à aguarrás.


*Ao cuidado do Malomil.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

NAS NOSSAS ESTRADAS

(...)

Entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers. Durante o dia de amanhã, pela estatística, deverão acontecer pelo menos 87 acidentes, dos quais resultarão pelo menos 112 feridos e pelo menos um morto. Não é decretado luto nacional, não são exigidas cabeças de ministros, não há pronunciamento de comentadores, não há notícias de abertura de telejornais nem pedidos de inquérito

(...)


Xilre, aqui.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

BARRIGA CHEIA

Os especialistas portugueses amam problemas estruturais e adoram fazer comparações com realidades externas, nomeadamente quando têm à mão todo o tipo de números e de estatísticas. Tomemos de exemplo os hábitos de consumo de cultura. Não entendo como pode ser possível falar de hábitos de consumo de cultura sem abordar um problema específico associado ao consumo, seja este de que tipo for. Esse problema é o da tendência portuguesa para fazer do salário mínimo nacional um salário médio. Que esperar dos hábitos de consumo de cultura dos portugueses quando se lhes oferece um salário mínimo de €557? 

Imaginem-se  a terem de pagar casa ou renda, água, gás, electricidade, imaginem-se com um filho para criar, a terem de comprar roupa e sapatos para se apresentarem decentes no trabalho, produtos de higiene básica, medicamentos, dentista, alimentação. Imaginem-se a terem que fazer uma vida básica, normal, decente com €557 por mês. Talvez não seja preciso imaginarem, talvez seja essa a vossa realidade. Que lugar nas vossas prioridades ocupam ou ocupariam livros, cinema, teatro, música, dança, afins? Não seriam relegados rapidamente para o plano dos luxos? E se há coisa que um salário mínimo português nos ensina é que a vida não está para luxos. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

EPIFANIAS #23

23

   Aquilo não é dançar. Desce até àquelas pessoas, jovem rapaz, e mostra-lhes como se dança. Ele esfola-se, sério e ágil, para dançar ante a multidão. Não há música para ele. Começa a dançar lá em baixo no anfiteatro com um lento e flexível movimento dos membros, passando de movimento para movimento, na graça total da juventude e da distância, até parecer um corpo giratório, uma aranha a rodar no meio do espaço, uma estrela. Desejo gritar-lhe palavras de louvor, gritar arrogantemente sobre as cabeças da multidão ‘Vejam! Vejam!’ . . . . . A sua forma de dançar não é como a das rameiras, não é como a dança das filhas de Herodias. Emerge do meio das pessoas, súbita e jovem e masculina, e mergulha de novo na terra em trémulos soluços para morrer triunfalmente.

James Joyce, in Shorter Writings.


Versão de HMBF

QUANDO OS BETOS SÃO O MENOS MAU



O luto terminou, dê-se passagem à caravana circense:
1. repórter da Antena 1 avança em directo para a RTP a notícia da queda de um avião, eventualmente, baseando-se nos testemunhos de uma velhota capaz de ver através de fumo denso, supostamente,
2. jornalista da TVI anuncia um alerta de frio em Portugal com base numa suposta notícia na primeira página de um jornal, supostamente, que, vista mais de perto, era anúncio da próxima temporada de uma série fantástica, alegadamente,
3. as redes sociais andam excitadíssimas com uma bombeira de Pampilhosa da Serra, a qual teve o azar de juntar à fotogenia a prática de uma nobre actividade, possivelmente,
4. Marcelo quer mais leis, Judite quer demissões, o padre Júlio quer mais padres…

As consequências de andar a chafurdar diariamente neste lamaçal noticioso são imprevisíveis, sendo certo, contudo, que o melhor que podemos esperar de uma sociedade assim fica plasmado no discurso da betinha que teve acesso às matérias de um exame de português, por via de uma cunha junto dos comunas do sindicato dos professores. Vai sair “Alberto Cairo”. Se não sair, eu não tive nada “a ver” com isto.

terça-feira, 20 de junho de 2017

A PERGUNTA

Por que é que nunca se ouve falar de incêndios no Inverno?


Adenda: um Micróbio de 2005: aqui.

TRISTE CONCLUSÃO



(...)
De um lado o poder, do outro o saber. Afastados por milhões de hectares queimados, centenas de vítimas e milhões de euros consumidos. Quase incomunicáveis, apesar da cordialidade. Com o poder a mostrar quão insensível é aos apelos do conhecimento.
(…)
Há um problema de fundo com a prevenção. Ela impede os negócios do combate, um pasto fértil que se renova ano após ano. Numa lógica neoliberal o Estado deve ceder o passo aos negócios, ao Mercado, e deve reservar-se  meras funções de coordenação e de regulação. Para que tudo funcione bem deve abster-se de adoptar políticas intervencionistas deixando às empresas a intervenção reparadora e disponibilizando os fundos públicos - pagos com o dinheiro dos contribuintes - de que elas se alimentam. 
Quando o Mercado entender que retirará mais benefício da prevenção do que do combate, a politica pública mudará e o cluster dos incêndios mudará de orientação mantendo no essencial os mesmos protagonistas.

(…)


Que a citação não iniba a leitura integral do texto, assim como de outros acerca do mesmo assunto: aqui. O sublinhado é meu. A imagem é do Pedro Vieira. Excelente, como sempre.

UMA ROSA DE PAUL CELAN


QUIMICAMENTE

Silêncio, fundido como ouro, em
mãos
carbonizadas.

Grande, cinzenta,
forma-irmã
próxima como tudo o que se perdeu:

Todos os nomes, todos aqueles
nomes queimados
juntamente. Tanta
cinza por abençoar. Tanta
terra ganha
sobre
os leves, tão leves
anéis
da alma.

Grande. Cinzenta. Sem
escórias.

Tu, outrora.
Tu com a flor
pálida, mordida.
Tu na torrente de vinho.

(Não é verdade que também a nós
nos despediu este relógio?
Bom,
bom, como a tua palavra passando por aqui morreu.)

Silêncio, fundido como ouro, em
mãos carbonizadas,
carbonizadas.
Dedos, finos como fumo. Como coroas, coroas de ar
ao redor — —

Grande. Cinzenta. Sem
rasto.
Ré-
gia.


Paul Celan (n. 23 de Novembro de 1920, Czernowitz, Bucovina, Roménia - m. 20 de Abril de 1970, Paris), in Sete Rosas Mais Tarde, selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, Edições Cotovia. 2.ª edição, Abril de 1996,  pp. 107-109.

DRONES



Sucedem-se as notícias de aviões sujeitos a manobras para evitar colisões com drones. Dispensam-se consultas ao professor Bambo para se adivinhar que, a breve trecho, os incidentes ascenderão à categoria de acidentes. Depois as televisões farão directos, os jornais dedicar-se-ão a emitir opiniões, o povo chorará as suas vítimas inocentes. Puta que pariu a merda dos drones. Não há quem meta açaimes nesses bichos? Não há quem responsabilize os "dronos"? 

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A CULPA


…a culpa, a culpa, de quem é a culpa, eu quero culpados, exijo culpados, exijo para os culpados a mesma pena das vítimas, quero novas vítimas, quem fez, quem foi, quem não fez, o quê, quem, como, quando, eu sei, eu sabia, eu já tinha dito, eu previ, não me quiseram dar ouvidos, agora olha, aí têm, casa roubada trancas na porta, floresta queimada, lixo no chão, lixo, lixo, lixo, opinião pública, a culpa, o ordenamento, opinião pública, andaram a construir à parva, não há ordenamento do território, a nossa floresta é um caos, medidas, queremos medidas, queremos leis, mais leis, decretos, queremos sobretudo muita burocracia, muitas leis que ninguém cumprirá, tenho pinhais lá para a terra dos meus pais que nem sei onde ficam, nem sei o que tenho, tenho coisas, se calhar queimadas, se calhar as coisas arderam, se calhar não tenho nada, os bombeiros, eu sabia, quando é para festas, onde andam os bombeiros, os aviões, onde anda a protecção civil, a ministra é uma incompetente, isto é tudo negócio, as madeiras, os aviões, às vezes até são os bombeiros que põem os fogos, a ministra não sabe prevenir incêndios nem trovoadas secas nem fúrias, o primeiro-ministro nem sequer foi eleito primeiro-ministro, o presidente da república é só abraços, e que tudo foi feito, bem feito, perguntem aos mortos, culpados, se calhar, se tivessem ficado nos rios, dentro de água, como aquela família num tanque, se não se tivessem metido à estrada, a culpa foi da GNR, a GNR é que os atirou para a estrada da morte, que inferno, este inferno, ai jesus, meu deus, que inferno, a culpa é do tempo, a culpa é das condições adversas, sim, das condições adversas, esta adversidade de sermos como somos, desleixados, desinteressados, esquecidos, depois de amanhã já ninguém se lembrará do ordenamento, da paisagem, que bela paisagem, deixa-me tirar uma fotografia para partilhar no Instagram, ai ter aqui uma casa, ai, não se pode construir, a gente constrói e paga a multa, agora não posso mexer naquilo que é meu, lá para a terra dos meus pais, eu sei lá as coisas que eles para lá tinham, são eles os culpados, os culpados são os outros, a culpa é dos outros, dos outros, dos outros, a culpa…

EPIFANIAS #22

22

                                                 [Dublin: na Biblioteca Nacional]
Skeffington — Fiquei triste ao ouvir da morte do
         seu irmão. . . .lamento não o termos
         sabido a tempo. . . . .de irmos ao
         funeral. . . . .
Joyce — Ó, ele era muito novo. . . .um rapaz. . . .
Skeffington — Ainda assim. . . . .dói. . . .

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

PERDI UM LEITOR


São muitas as pessoas com as quais nos vamos cruzando ao longo da vida, mas poucas as que nos marcam por razões tantas vezes incompreensíveis. Nem elas nem nós saberemos dessas marcas, por serem como que invisíveis e imperscrutáveis. Tantas são as pessoas com quem nos cruzamos ao longo da vida, pessoas anónimas, pessoas de quem não sabemos mais do que um nome, quando sabemos, uma característica, quando as têm especiais, peculiares. Damos por elas quando nos faltam, quando desaparecem do nosso alcance, quando deixamos de as ver. Perguntamo-nos que será feito desta pessoa, deste homem, daquela mulher, que tantas vezes apareciam e deixaram de se ver? Questionamo-nos por que terão desaparecido, por onde andarão, estarão doentes, terão emigrado, zangaram-se com o nosso perfil?
Hoje, ao folhear um jornal local, dei com uma dessas pessoas. Não conheci este homem senão naquela formalidade do trabalho que obriga a distâncias relativas. Lembro-me dele desde um dos meus primeiros dias de trabalho numa livraria, por me ter encomendado um livro do Bruce Chatwin e assim ter ajudado o fustigado livreiro a ganhar o dia. Com o passar dos meses, dos anos, lá ia aparecendo de quando em vez, metendo conversa sobre colecções como A Biblioteca de Babel, da Editorial Presença, ou a Miniatura, da Livros do Brasil, a que dedicava atenção de coleccionador. Sugeri-lhe imensos livros, alguns deles objecto de uma troca de impressões que me parecia sempre benfazeja. Muito discreto, consegui ficar a saber-lhe de um weblog de culto, uma espécie de arquivo, como o próprio escreveu, «em homenagem à minha própria vida de leitor». Mil e Um Livros, aqui. A determinada altura, foi uma honra sabê-lo seguidor da Antologia do Esquecimento. Ainda é, presumo que continue a ser. Pelo menos enquanto a memória da sua passagem perdurar por aqui. Reencontrei-o hoje na página de um jornal, a página onde se coleccionam rostos, passagens, partidas. 

Perdi um leitor. Não de palavras inúteis como estas, mas um leitor a quem sugerir livros, bons livros, aqueles livros de que gostamos e sugerimos na esperança de que alguém possa encontrar neles o que nós vislumbrámos. Foi um desses leitores que eu perdi.

EPIFANIAS #21

21

Duas carpideiras empurram-se através da multidão. A rapariga, com uma mão a puxar a saia da mulher, corre à frente. Tem a cara de um peixe, sem cor e de olhar oblíquo; a mulher tem um rosto pequeno e anguloso, o rosto de um vendedor. A rapariga, com a boca distorcida, olha para a mulher tentando perceber se é o momento certo para chorar; a mulher, ajustando um gorro liso, apressa-se em direcção à capela mortuária.

James Joyce, in Shorter Writings.


Versão de HMBF.

PAISAGEM

domingo, 18 de junho de 2017

EPIFANIAS #20

20

   Estão todos a dormir. Vou subir agora . . . . . Ele está deitado na minha cama, onde ontem à noite descansei: cobriram-no com um lençol a fecharam-lhe os olhos com moedas. . . . Pobre companheirinho! Rimos juntos amiúde – ele furou o seu corpo muito levianamente. . . . Lamento muito que tenha morrido. Não posso rezar por ele como os outros rezam . . . . . . Pobre companheirinho! Tudo o mais é tão incerto!



James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

LUTO EM CHAMAS


1. Acordar assim, com a cabeça redemoinhando imagens e notícias. Um parque de merendas coberto de lixo, entulho espalhado pelas matas, matagais que são acendalhas a céu aberto. Trovoada, calor, vento, a tempestade perfeita. A mãe Natureza reivindicará o atentado, o nosso desleixo será seu cúmplice. 



2. Demorou quatro linhas até que o número aumentasse de 39 para 43. Contam-se os mortos. 

3. Os portugueses das caixas de comentários eximem-se de responsabilidades insultando a ministra da Administração Interna. Chamam-lhe incompetente. Os portugueses das caixas de comentários são gente perfeita, inteligente, competente, são nobre povo. Dizem que este é um governo de assassinos. Exigem cabeças sem demoras, querem culpados, pretendem o gozo público da expiação. Estes portugueses medievos também passeiam em dias de folga, não largam lixo apenas nas caixas de comentários. Ontem, num simples passeio pelo Bacalhôa Buddha Eden, deu para perceber o civismo das nossas gentes no lixo que se ia encontrando abandonado pelas bermas. 




4. Na televisão contam-se 57 mortos e 59 feridos. O cenário é difícil de imaginar. A origem criminosa está afastada, pelo que não vale a pena especular sobre negócio das madeiras, pirómanos e outros maníacos que a raiva e a fúria dos incautos gostava de atirar às chamas. 

5. O tema dos próximos dias será o ordenamento florestal. De quando em vez, estes temas vêm à baila. Depois ficam na penumbra. Temos neste momento 57 razões para dar definitivamente mais voz a quem se preocupa com estas matérias. 


6. A contagem continua. Não tenho memória de uma tragédia destas no meu país. A ideia dos corpos carbonizados, presos entre chamas, confere-lhe um horror impronunciável. Leio no Jardim de Luz: «É tão frágil o que nos sustém».

sábado, 17 de junho de 2017

EPIFANIAS #19

19

                                         [Dublin: na casa de
                                         Glengariff Parade: tarde]
Mrs Joyce — (enrubescida, tremendo, surge à
        porta da sala de estar)… Jim!
Joyce — (ao piano)… Sim?
Mrs Joyce — Percebe alguma coisa do
       corpo? … Que deverei fazer? … Está
       qualquer coisa a sair do
       buraco no estômago do pequeno George…
       Alguma vez ouviu algo sobre isto?
Joyce — (surpreso)… Não sei….
Mrs Joyce — Deverei mandá-lo ao médico? O que
       pensa?
Joyce — Não sei…… Que buraco?
Mrs Joyce — (impaciente)… O buraco que todos temos
       ….. aqui (aponta).
Joyce – (levanta-se)

James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

NOVELA DE XADREZ

A história de Stefan Zweig (n. 1881 – m. 1942) é conhecida, embora nunca seja pleonástico relembrar alguns pormenores que acabaram por condicionar a obra publicada. Nascido no seio de uma abastada família vienense de origem judaica, estudou nas melhores escolas. Os primeiros poemas apareceram publicados quando tinha apenas dezasseis anos de idade. Estudou Filosofia e Ciências Literárias, tendo vindo a afirmar-se como um dos maiores intelectuais do seu tempo. A vastíssima obra inclui poesia, contos, teatro, ensaios, biografias, praticamente todos os géneros que possamos imaginar. O interesse pelos autores modernos levou-o à tradução de Baudelaire e a monografias sobre Verlaine e Rimbaud, demarcando-se assim de formas literárias mais tradicionais. Apesar de ter viajado muito, mantendo uma intensa actividade criativa no decorrer das digressões, será em 1933, na sequência das fogueiras nazis onde os seus livros serão desfeitos em cinza, que resolverá abandonar definitivamente a Viena Natal, deslocando-se de França até Itália e fixando-se, posteriormente, em Inglaterra. Viagens ao Brasil e a Portugal levaram-no a interessar-se pela figura de Fernão de Magalhães, a quem dedicará uma das suas famosas obras biográficas. Em 1940 adquiriu cidadania britânica, mas no ano seguinte exilou-se no Brasil. No dia 22 de Fevereiro de 1942 acabou por se suicidar, deixando para a posteridade uma declaração de despedida onde agradece a hospitalidade brasileira. Não obstante, a depressão, a saturação e a desesperança levaram a melhor: «Depois dos meus sessenta anos seriam necessárias forças especiais para começar novamente tudo de novo». 
Sobre esta Novela de Xadrez (Livros do Brasil/Porto Editora, Março de 2017) recai a curiosidade de haver sido um dos seus escritos derradeiros, pressentindo-se nas personagens algumas das características que terão levado ao colapso de Zweig. Trata-se de uma pequena novela (cerca de 70 páginas nesta edição de bolso da muito recomendável Colecção Miniatura), aqui enriquecida por um prefácio de Álvaro Gonçalves e por uma cronologia biográfica. Narrada na primeira pessoa, Novela de Xadrez relata o inesperado encontro, numa viagem de navio entre Nova Iorque e Buenos Aires, com escala no Rio de Janeiro, entre um campeão mundial de xadrez e uma misteriosa criatura. A determinada altura, o narrador desloca o protagonismo para um monólogo desta estranha criatura. Temos, deste modo, dois narradores no interior de uma mesma narrativa, como teremos dois adversários à volta de um tabuleiro de xadrez. 
O primeiro, de origens muito humildes, provém da Eslávia do Sul (antiga Jugoslávia) e tornou-se campeão de xadrez acidentalmente. Passivo, lento, algo imbecil e fleumático, pouco inteligente, descobre, porém, um talento inigualável e inato para o xadrez. Esta descoberta torná-lo-á um rapaz-prodígio, daquelas personalidades em quem a natureza parece comandar todo o destino e o instinto todas as acções. Completamente diferente, a estranha criatura que se irá opor a este campeão é um indivíduo absolutamente cerebral. Saberemos da voz do próprio a sua história, enquanto a relata ao narrador que nos guia pelas particularidades de um jogo capaz de produzir as estrelas mais singulares. Capturado pelos nazis, experienciou a pior das torturas: «Não nos faziam nada – éramos colocados simplesmente no mais absoluto nada, pois, como se sabe, não há nada no mundo que produza uma semelhante pressão sobre a psique humana como o próprio nada» (p. 64). Esta pressão do nada, o vazio , a espera e a solidão, esta rotina do nada absoluto, a «maldosa tortura desta solidão», ele conseguirá superar decorando as jogadas de xadrez fixadas num livro que lhe virá parar às mãos. Do nada absoluto à obsessão total, a mente da estranha criatura transportá-la-á para o limiar da loucura, para uma «intoxicação de xadrez» alienante, doentia. 
O interesse desta partida está mais nas características dos adversários do que no jogo em si. Stefan Zweig coloca frente a frente, com o tabuleiro axadrezado da vida a separá-los, o talento inato e a obsessão intelectual, ambas características que facilmente reconhecemos na sua biografia. O nervosismo, a impaciência, a saturação pontuam as jogadas. Cada um destes jogadores pode ser interpretado como o “eu-brancas” e o “eu-pretas” de um mesmo intelecto, num desgastante desafio disputado no interior da alma de um homem. Profundamente psicológica, esta novela reflecte também uma leitura da Europa então destroçada por uma estapafúrdica doutrina política incapaz de entender como num mesmo ser humano se articulam de um modo conflituoso o inato e o adquirido. A maior derrota será ter de conviver com quem não o entenda, com quem se convença de uma natureza maquinal do ser. Independentemente da sua previsibilidade, o ser de um homem será invariavelmente tão fruto dos acasos e dos acidentes como da herança que carrega no sangue sem que o determine. Poucos meses antes de se ter suicidado, Stefan Zweig escreveu esta Schachnovelle e iniciou um estudo sobre Montaigne. E foi algures no meio destes dois projectos que terminou a sua autobiografia, literária e literalmente. 

sexta-feira, 16 de junho de 2017

EPIFANIAS #18

18

                                    [Dublin, na North Circular
                                    Road: Natal]
Miss O’Callaghan — (cicia) — Disse-te o título,
        The Escaped Nun.
Dick Sheehy — (alto) — Ó, Jamais leria
        um livro desses… Tenho de
        questionar Joyce. Joyce, alguma
        vez leu The Escaped
        Nun?
Joyce — Reparo que certo
        fenómeno acontece por
        esta hora.
Dick Sheehy — Qual fenómeno?
Joyce — Ó… as estrelas aparecem.
Dick Sheehy (para Miss O’Callaghan) Alguma
        vez reparou como… as
        estrelas aparecem na ponta
        do nariz de Joyce por esta
        hora?... (ela sorri). . Porque
        eu reparo nesse fenómeno.


James Joyce, in Shorter Writings.

Versão de HMBF.

UM POEMA DE TOMAS TRANSTRÖMER


PANFLETO

A fúria silenciosa garatuja no lado interior das paredes.
Árvores de fruto em flor, o cuco canta.
É a anestesia primaveril. Mas a fúria silenciosa
pinta slogans na garagem do fim para o princípio.

Vemos tudo e nada, bem direitos como periscópios
manobrados pela tímida tripulação dos infernos.
É a guerra dos minutos. O sol abrasador
cai sobre o hospital, silo de estacionamento da dor.

Nós, pregos vivos pregados na sociedade!
Um dia libertar-nos-emos de tudo.
Sentiremos a aragem da morte nas nossas asas
e seremos mais condescendentes e mais selvagens do que até aqui.


Tomas Transtömer (n. 15 de Abril de 1931, Estocolmo, Suécia - m. 26 de Março de 2015, idem), in 50 Poemas, tradução de Alexandre Pastor, Relógio D'Água, Julho de 2012,  p. 103.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

DOIS POETAS DE ESPANHA

Tem tradição entre nós o interesse pela poesia vinda de Espanha, patenteado desde há muito tanto no incansável trabalho de divulgação levado a cabo por José Bento (n. 1932) como nas traduções de Joaquim Manuel Magalhães (n. 1945). Pequenas editoras como a Averno, a extinta Ovni, a Língua Morta, a Douda Correria, a Medula e a do lado esquerdo, para citar umas poucas entre outras que por certo estarei a esquecer, deram e vão dando continuidade, conforme os casos e na medida das suas possibilidades, a esse esforço de publicação de poetas herdeiros da língua de Cervantes. Dois livros recentes são exemplo desse mesmo esforço, assim como de uma pluralidade que mantém viva a poesia produzida por nuestros hermanos.  
Comecemos por Carne de Leviatã (Douda Correria, Junho de 2016), de Chus Pato (n. 1955), poeta galega estreada em 1991 com um livro intitulado Urania. Uma nota final informa-nos de que a obra traduzida por João Paulo Esteves da Silva encerra a pentalogia Decrúa, iniciada com a publicação de m-Tala (2000) e continuada com os livros Charenton (2004), Hordas de escritura (2008) e Secesión (2009). É igualmente da autora um apontamento explicativo do título Carne de Leviatã, o qual foi respigado em Giorgio Agamben numa passagem onde se alude à tradição judaica. Leviatã é um dos três animais da origem que servirá de banquete aos justos nos dias do Messias. A poesia de Chus Pato tinge-se de inúmeras alusões congéneres, provenientes tanto da mitologia greco-romana como da tradição judaico-cristã. 
Transgredindo as convenções do lirismo focado no sujeito, assume uma tendência reflexiva que aproxima amiúde o discurso poético do pensamento filosófico. Neste contexto, o problema da linguagem, da relação entre as palavras e os corpos nomeados, é uma das temáticas mais em evidência, ainda que reflectindo simbolicamente, por meio de uma linguagem que privilegia o sentido metafórico das palavras, certa dimensão ética de que o poema não abdica. Sirva de exemplo esta 

Clareza de Juízo

Entendo que a vida é o que vivemos: esta a tua a
   minha a nossa vida
entendo que um poema é pobreza comparado com a vida
entendo que é pausa
que por um instante separa a vida de si
que pesa e faz balanço
aguça os sentidos
Entendo que é acesso ao intelecto
um vértice corpóreo
impróprio
Assim o entendo
que o poema indica a desconexão entre melodia e
   sentido
Entendo que um poema só se escreve com versos finais

Desfunda o idioma
desfunda a vida

Esta ideia de poema enquanto acesso ao intelecto é o que mais sobressai na poesia de Chus Pato, jogando aqui com alegorias, acolá com símbolos, por vezes aforística, outras vezes elíptica, no encalço de um idioma capaz de traduzir a intensidade dos ritmos que pautam o andamento do mundo. À imaterialidade da linguagem, a poesia responde com a ambiguidade do verso: «escrevo a voz como um país estrangeiro». É este o seu poder alquímico, o seu assombro, a sua estimulante e desafiante proposta.
Bem diferente é a poética de Jesús Jiménez Domínguez (n. 1970), natural de Saragoça. Ensinar o eco a falar (do lado esquerdo, Abril de 2017) é uma antologia com poemas provenientes de três livros do autor: Fundido en Negro (2007), Frecuencias (2012) e Contra las cosas redondas (2016). A confiar na informação disponibilizada online, pois, infelizmente, nenhuma nota explicativa acompanha esta edição, ficou de fora o poemário de estreia Diario de la anemia / Fermentaciones (2000). 
Inscrita nas tendências dominantes do seu tempo, poder-se-ia dizer desta poesia o mesmo que se diz de tanta outra arreigada aos pormenores do quotidiano. Nos primeiros poemas sobressai o tom elegíaco proveniente de uma paisagem urbana com bares e cemitérios em pano de fundo. A solidão, a melancolia, o tédio, são constantes que atravessam poemas devedores de uma narratividade que o poema de Billy Collins incluído no segundo conjunto bem sintetiza em cinco singelos versos da segunda estrofe: «Sirvo-me dos detalhes mais simples / — um cão adormecido no chão, / um pássaro que escapa por uma janela — / para me revoltar contra a tradição literária / mais grandiloquente» (p. 27). Não enjeitamos, porém, a possibilidade de no futuro ser esta a tradição contra a qual alguém escreverá, por antever no prosaísmo discursivo, eivado aqui e acolá de referências multiculturais e de uma ligeira ironia, a pose repetida do flâneur baudelairiano: «A cidade por onde caminhamos é um sapato demasiado apertado» (p. 13). 
O existencialismo previsível que matiza grande parte destes poemas resulta em cenas quotidianas e rotineiras, descontinuadas apenas pela capacidade que o poeta demonstra em, a espaços, arriscar olhar para o mundo sem por ele ser absorvido. É o caso do poema que deu título ao último dos livros contemplados nesta breve antologia traduzida por Maria Sousa:

CONTRA AS COISAS REDONDAS

Amamos as coisas redondas e pensamos
que vão ser eternas [e] amáveis e perfeitas:
a toranja debaixo do rotundo sol de agosto,
a pulseira que orbita em volta do pulso,
a moeda com duas caras e nenhuma cruz,
a bola de praia em cujo interior ainda se respira
um ar paciente [de] mil novecentos e oitenta e dois.

Há dias redondos em que tudo se encaixa
e a vida parece andar sobre rodas:
alguém, de lixa na mão, encarregou-se
de subtrair ao mundo todas as esquinas,
todas as arestas, todas as bordas.

Mas basta que atravesses um declive
ou que tudo se volte, de repente, para cima,
para verificar que são as coisas redondas
as primeiras a sair e a começar a correr:
a toranja, a pulseira, a moeda e a bola.

Eu recuso-me redondamente a aceitar tais desplantes.
Às formas esféricas eu oponho as coisas informes.
Escolho as imperfeitas, as imprecisas, as irregulares.
Aquelas cheias de defeitos, amolgadelas ou dobras.
Bonitas e originais, sem se sujeitarem a nenhum centro,
só elas permanecem e nos acompanham sempre.



Nota: tomei a liberdade de corrigir, entre parêntesis rectos, o que me parecem ter sido lapsos na transcrição portuguesa do poema, os quais são mais frequentes ao longo do livro do que seria desejável. Tratando-se de uma edição bilingue, poderá o leitor confrontar ambas as versões.


Adenda: Alertaram-me por e-mail e na caixa de comentários para um facto que importa aqui sublinhar, sem prejuízo do que acima se refere. A poeta Chus Pato escreve em galego, pelo que não está correcto dizer-se que escreva na língua de Cervantes. Ainda assim, a despeito das particularidades que caracterizam o território de Espanha, não me parece incorrecto dizer-se que é uma poeta de Espanha, admitindo que seja mais correcto dizer-se que é uma poeta galega.