terça-feira, 20 de junho de 2017

#98


   Não é a primeira vez que Dan Auerbach se aventura a solo. Já em 2009 havia feito uma pausa dos The Black Keys, publicando então o álbum Keep It Hid. O merecido sucesso de El Camino (2011), muito por culpa de uma canção orelhuda intitulada Lonely Boy, gerou espectativas que o álbum seguinte da banda dividida com Patrick Carney não gorou. 
   Os temas a solo enveredam por texturas menos arreigadas ao rock, mesmo quando, ao contrário do que por vezes parece, o rock dos The Black Keys se desvia da tradição e adopta ritmos e nuances melódicas próximas tanto da pop como da soul. Waiting on a Song (2017) é uma belíssima recolha de composições pautadas por uma saudável atitude retro, recuperando métodos de produção que o levaram a rodear-se de músicos experimentadíssimos. 
   Impressiona, logo à partida, a paleta de géneros, com tons provenientes tanto da country music como da folk rock, passando por essa coisa desconforme a que se deu o nome de R&B, com arranjos sofisticados lembrando, a espaços, alguma da melhor soul music produzida na década de 1970. Em termos comparativos, talvez desde o Beck de Odelay (1996) que não ouvia um álbum tão ecuménico (Cherrybomb é o tema que há muito falta a Beck). 
 Mas impressiona também, apesar das inúmeras evocações, a capacidade de Dan Auerbach oferecer ao todo uma coerência que não se reduz apenas às suas particularidades vocais. A boa disposição exibida na maioria dos temas é uma resposta inteligente ao ar dos tempos, sobretudo quando pisca um olho irónico ao mestre nobelizado na mais groovy das canções deste ano: «Guess I'll stay on desolation row / Go get stoned and hang around». 
   É ouvi-lo:



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