sábado, 24 de junho de 2017

À CONVERSA COM STEINER

Ao retomar a tese sobre A Morte da Tragédia num ensaio intitulado «”A Tragédia”, Reconsiderada», George Steiner insiste numa noção de tragédia enquanto «ponto de encontro entre o metafísico e o poético». Subjaz a esta tese a ideia de que à tragédia é inerente uma relação entre o divino e o humano anterior à própria noção de Deus, ou seja, antes de se ter posto a questionar Deus o homem sentiu-se por ele abandonado. Como se Deus fosse um dado da razão, um dado claro e evidente da razão, porventura inato, uma espécie de estigma na consciência humana, o ADN dos desprotegidos, dos desamparados, dos desgraçados (a humanidade inteira). Não estará esta ideia viciada por um olhar histórico algo deslumbrado com tempos que somos incapazes de reconstituir sem apelar à imaginação? Terá mesmo havido nesse tempo da “tragédia absoluta” um sentimento de Deus diferente daquele que hoje nos governa? 

A morte de Deus instaurada pela modernidade reduziu a ideia de Deus, no sentido platónico de ideia, a um conceito. Deus passou a ser, como diria Ruy Belo, uma palavra que nos permite dar o nome de sagradas ou divinas a certas coisas. Uma mera palavra já não é uma ideia em sentido platónico, já não é o ser ao qual se chega pela iluminada prática da mente. Uma mera palavra é, de facto, outra coisa. É questionável que na cultura clássica tenha havido um sentimento de Deus, digamos, total, isto é, próximo ao sofrimento e à dor do desamparo. Chegam-nos desse tempo ecos ateístas quase totalmente rasurados pela historiografia oficial. E também podemos questionar até que ponto muitas das tragédias que hoje conhecemos e continuamos a admirar — da Antígona ao Prometeu Agrilhoado — não foram estratégias incipientes de questionar a subjugação dos homens ao abstraccionismo dos deuses. 

Enquanto representações de forças limite, e não podemos pensá-los de outra forma, os deuses da tragédia grega não provocam no homem algo de muito diferente daquilo que depois de Deus ter morrido o homem se tem encarregado de provocar a si mesmo: dor e sofrimento. Steiner afirma que o horror da história depois de 1914 é evidente. Mas já o era antes. Como pensar o Império Romano senão enquadrando-o num cenário de horror e de sofrimento? E a Idade Média, com suas altas fogueiras e pestes e perseguições e missões evangelizadoras? Não são também de horror os ecos que nos chegam dos rituais praticados por civilizações ameríndias praticamente extintas? O horror é o tom por excelência de um mundo colonizado, do comércio de escravos, da conquista das Américas. É o próprio Steiner quem num outro ensaio sintetiza muito bem a nossa história, ao afirmar que «os homens são primatas assassinos». 

Mas estes primatas assassinos, por alguma razão ainda inexplicável, escrevem poemas, arrancam tragédias da sua experiência do horror, concebem obras assombrosas que nos espantam como outrora, presumo, um fenómeno natural tão simples como uma lua cheia terá espantado os nossos antepassados. Talvez a tragédia tenha morrido, como morreu a poesia. Talvez estejamos a viver um longo e lento funeral da humanidade tal como a julgávamos conhecer. Ou talvez estes sejam tempos de alerta, tempos em que se torna claro e evidente, isso sim, que pouco sabemos ainda acerca de nós próprios, conquanto saibamos, e essa certeza ninguém nos tira, que somos primatas assassinos. Quanto a Deus, morto que nem a tragédia ou a poesia, pode por mim repousar lá de onde veio, na cabeça dos homens, desde que repouse na de cada um sem que cada um pretenda impor-se aos outros. 

5 comentários:

Francisco disse...

....os poetas e outros criadores não deixam de ser personagens do mesmo bestiário e é por isso talvez que a "historia das bestas humanas" sejam tão multidisciplinar e repleta de personagens paradoxais. Ainda assim me questiono se a outra historia, aquela da qual não há registo, teria sido muito diferente ou ainda a outra, a hipotética.

Gostei da reflexão, um abraço.


Xico

hmbf disse...

Refiro-me a obras, não a quem as gera. O homem é capaz tanto do horror como do belo.

Francisco disse...

Compreendo perfeitamente mas, deve ser defeito meu, não consigo conceber obra alguma por mais excelsa que seja como algo superior àquele que a concebeu. Vejo-a normalmente como uma subtracção do seu criador. Prefiro um grande Homem a uma grande obra.


;) Abraço

Xico

hmbf disse...

Também prefiro um bom homem a uma grande obra, embora o tema mereça discussão. Uma grande obra pode inspirar inúmeros bons homens como um bom homem não consegue. Adiante.

No meu mundo ideal a figura do autor desapareceria. É por isso que tento, a título de exemplo, não me deixar condicionar na leitura de um livro pela personalidade do seu autor.

Knut Hamsun escreveu grandes livros, que tento ler esquecendo que foi simpatizante dos nazis. Céline é outro exemplo. Picasso devia ser um tipo intragável. Se não soubermos nada da sua vida privada, ficaremos apenas com o mais relevante: os seus quadros...

Francisco disse...

Henrique, partilhamos ideias congéneres apenas este canal não é o melhor para o debate ou partilha destas.
O caso do Hamsun é revelador por exemplo de uma deficiência dos Homens (e volto aos Homens) o de não conseguir esconder-se por detrás das suas obras. É também parte da obra, saber desvanecer-se nesta e se calhar o senhor Hamsun não foi capaz. E há exemplo daqueles que o conseguiram!

Não te quero estar aqui a fustigar com devaneios de Domingo.

Vou passando para te ler.

Um abraço ;)

Xico