O gosto pela
música brasileira há-de ter vindo dos discos que rodavam lá por casa, de
Roberto Carlos a Rita Lee, de Djavan a Ney Matogrosso, muito provavelmente por
culpa de bandas sonoras para telenovelas e afins. Já na adolescência, trouxeram-me
às mãos, porém, um álbum intitulado Meus Caros Amigos (1976). Chico Buarque
acabou por ser a porta aberta para uma outra música brasileira, a que me transportaria
posteriormente às obras de Tom Jobim e João Gilberto.
Retrato em Preto e Branco
(2005) recupera, em edição de luxo, as primeiras gravações do autor de A Banda,
sobretudo aquelas que serviram para afirmar Chico Buarque como compositor, poeta
e intérprete. Estamos a falar de temas vindos a lume na década de 1960, singles
como Pedro Pedreiro. São canções para festivais, quando os festivais eram um
veículo de divulgação imprescindível, sambas encomendados para musicais, temas
que virão a ser popularizados nas vozes de Caetano ou Gilberto Gil. É a bossa nova
de Com açúcar, com afeto a tomar forma com letras eivadas de preocupações sociais,
incursões por ritmos latinos como o bolero (escute-se Funeral de um lavrador) sem
abrir mão do samba.
A música de Chico Buarque tem um humor pacificador, uma
espécie de alegria descontente, isto é, uma festividade que é em si mesma forma
de resistência aos dissabores da vida. Nos momentos mais melancólicos, como em
Carolina, o ritmo bossa embala-nos dos olhos tristes da protagonista para um
espaço de contentamento. A mensagem é positiva, apesar de Carolina não ter dado
por ela. Damos nós. Ouvir Chico ajuda-nos a guardar a dor. Em dias de tristeza induzida
pela realidade pouco nos restará além deste consolo. O intérprete sorri ao
pronunciar as palavras, embalado pelos ritmos que lhe dão um colorido tropical:
samba, chorinho, bolero, bossa nova.
Tomemos de exemplo a nostalgia convocada no
tema que oferece título à colectânea, como poderíamos fazer com Umas e outras
ou Benvinda. São canções onde o abandono e a tristeza se resolvem com uma noção
simples da tolice que é entregar à melancolia o precioso tempo de uma vida. A
melancolia só servirá para coleccionar sonetos. Não estará também a poesia no
caminhar, na paz e no conforto da lira que distrai?

2 comentários:
um dos meus preferidos da vida.
nesse caso, fazemos parte de um mesmo clube :-)
Enviar um comentário