domingo, 25 de junho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #11


Nick Drake ocupa um lugar especial na galeria dos desafortunados. Nascido em Rangum, a maior cidade de Mianmar, por ser aí que seu pai trabalhava como engenheiro, chegou a Inglaterra com poucos anos de vida. Muitos, se tivermos em conta quão curta foi a sua. Rapaz bonito, inteligente, voz doce, bom gosto, tinha tudo para dar certo. Não deu. Atacado pela depressão, acabou por sucumbir com apenas 26 anos. Nasceu a 19 de Junho de 1948 e suicidou-se no dia 25 de Novembro de 1974. Parecem nada, 26 anos de vida. Foram os suficientes para que Nick Drake deixasse de herança três álbuns magistrais. Five Leaves Left anunciou-o em 1969, fazendo transparecer em letras simples, mas autênticas como poucos julgariam, uma mente desassossegada: «Please stop my world from raining through my head». O tom era melancólico, geralmente folk, enveredando por ambientes jazzy e bluesy coadjuvados pela guitarra de Richard Thompson, dos Fairport Convention, mas arriscando amiúde o dramatismo de orquestrações sofisticadas. Bryter Layter, de 1970, confirmou-o enquanto extraordinário compositor a quem poucos prestavam atenção. O tom divertido do primeiro tema, assim como a auto-ironia ensaiada em Poor Boy (com um fabuloso solo de piano por Chris McGregor), podem tornar-se enganosos. O desamparo paira sobre estes temas. Alguns instrumentais parecem hoje confirmar a escassez de palavras para uma dor que a leitura de Camus e dos poetas franceses não compensou. Lê-se no libreto que acompanha Fruit Tree, a integral de Nick Drake, que a sensibilidade deste tornou-se um escudo na relação com os outros. Alheado do mundo, procurou isolar-se. Nele tudo indica angústia e desespero, um desespero resistente ao outro. Pink Moon (1972), o mais despojado dos seus três discos, é talvez onde melhor se testemunha a desintegração de um ser com uma voz angelical atrás da qual se escondiam demónios inconcebíveis: «Take a look you may see me on the ground / For I am the parasite of this town». Sabemos hoje que a depressão é uma dor muda. Nick Drake deu-lhe voz, fê-la cantar. Estranho é que nos apazigúe ouvi-lo, tanto quanto nos comove. As suas canções são a expressão de uma tristeza e de uma dor que reivindica a nossa cumplicidade, estabelecendo entre o intérprete e os ouvintes pontes apenas concebíveis no domínio da arte. Em vida, tais pontes falham. Em vida, a tristeza permanecerá invariavelmente isolada numa das margens. A mais obscura. Ninguém a convidará para dançar



2 comentários:

maria disse...

muito bom, Henrique, muito bom.

hmbf disse...

Pois é. :-)