Nick Drake ocupa um lugar especial na galeria dos
desafortunados. Nascido em Rangum, a maior cidade de Mianmar, por ser aí que
seu pai trabalhava como engenheiro, chegou a Inglaterra com poucos anos de
vida. Muitos, se tivermos em conta quão curta foi a sua. Rapaz bonito,
inteligente, voz doce, bom gosto, tinha tudo para dar certo. Não deu. Atacado
pela depressão, acabou por sucumbir com apenas 26 anos. Nasceu a 19 de Junho de
1948 e suicidou-se no dia 25 de Novembro de 1974. Parecem nada, 26 anos de
vida. Foram os suficientes para que Nick Drake deixasse de herança três álbuns
magistrais. Five Leaves Left anunciou-o em 1969, fazendo transparecer em letras
simples, mas autênticas como poucos julgariam, uma mente desassossegada: «Please
stop my world from raining through my head». O tom era melancólico, geralmente
folk, enveredando por ambientes jazzy e bluesy coadjuvados pela guitarra de
Richard Thompson, dos Fairport Convention, mas arriscando amiúde o dramatismo
de orquestrações sofisticadas. Bryter Layter, de 1970, confirmou-o enquanto
extraordinário compositor a quem poucos prestavam atenção. O tom divertido do primeiro tema, assim como a
auto-ironia ensaiada em Poor Boy (com um fabuloso solo de piano por Chris
McGregor), podem tornar-se enganosos. O desamparo paira sobre estes temas. Alguns
instrumentais parecem hoje confirmar a escassez de palavras para uma dor que a
leitura de Camus e dos poetas franceses não compensou. Lê-se no libreto que
acompanha Fruit Tree, a integral de Nick Drake, que a sensibilidade deste
tornou-se um escudo na relação com os outros. Alheado do mundo, procurou
isolar-se. Nele tudo indica angústia e desespero, um desespero resistente ao
outro. Pink Moon (1972), o mais despojado dos seus três discos, é talvez onde
melhor se testemunha a desintegração de um ser com uma voz angelical atrás da
qual se escondiam demónios inconcebíveis: «Take a look you may see me on the
ground / For I am the parasite of this town». Sabemos hoje que a depressão é
uma dor muda. Nick Drake deu-lhe voz, fê-la cantar. Estranho é que nos apazigúe
ouvi-lo, tanto quanto nos comove. As suas canções são a expressão de uma
tristeza e de uma dor que reivindica a nossa cumplicidade, estabelecendo entre
o intérprete e os ouvintes pontes apenas concebíveis no domínio da arte. Em
vida, tais pontes falham. Em vida, a tristeza permanecerá invariavelmente
isolada numa das margens. A mais obscura. Ninguém a convidará para dançar.

2 comentários:
muito bom, Henrique, muito bom.
Pois é. :-)
Enviar um comentário