sexta-feira, 2 de junho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #6



Impossível falar de Lou Reed sem nos lembrarmos de David Bowie, nomeadamente da importância que este teve no lançamento de uma carreira a solo que começa a desenhar-se com Transformer (1972). A década de 1970, apesar dos sintomas anteriores, será uma das mais entusiasmantes na caleidoscópica carreira de Bowie. Datam dessa época criações icónicas como Ziggy Stardust e Aladdin Sane, mas o melhor prenuncia-se logo nos álbuns The Man Who Sold the World (1970) e Hunky Dory (1971). Este último, a título de curiosidade, o preferido de Angela Bowie, cara-metade das muitas metades que a cara do autor de Changes exibiu à época. A androginia patenteada na capa do álbum de 70 é só um exemplo, embora o que aí acabe por sobressair do ponto de vista musical seja a guitarra de Mick Ronson. Ressonâncias do rock psicadélico e até do rock progressivo não são descabidas, sustentando uma lírica algures divagante entre o esoterismo de Khalil Gibran e uma insânia tão teatral como realística (há muito que Bowie convivia com problemas de demência no núcleo familiar). 
Em Hunky Dory os arranjos românticos, o piano, a guitarra acústica, sobrepor-se-ão às guitarradas eléctricas de Ronson — Queen Bitch será a excepção—, assumindo Bowie uma necessidade de afirmação enquanto compositor a que não será alheio o panegírico inscrito numa canção com o título Song for Bob Dylan. Ao que parece, quando Bowie e Dylan se conheceram o desinteresse deste pelo jovem artista britânico gerou fúrias contidas. Andy Warhol é outro momento laudatório de Hunky Dory, o que nos leva de novo a estabelecer pontes com Lou Reed. Afinal, este começara precisamente numa banda de algum modo patrocinada por Warhol: os The Velvet Underground. Refira-se, porém, que independentemente da atitude arty dos dois álbuns de Bowie aqui referidos, The Man Who Sold the World é muito mais devedor do rock e do blues norte-americanos. Não admira que, muitos anos depois, os Nirvana tenham feito uma versão da canção que deu título ao álbum. Isto anda tudo ligado, não duvidemos.



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