quarta-feira, 7 de junho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #7



   Quando David Bowie escreveu Song for Bob Dylan, o visado tinha mais de uma centena de canções editadas, muitas delas interpretadas por artistas tão diversos como Manfred Mann, The Jimi Hendrix Experience, Joan Baez, The Byrds. A diversidade diz bem do alcance que as composições de Dylan granjearam, dominando toda a década de 1960 no terreno fértil de escritores de canções norte-americanos. 
  Podia ter uma voz sofrível, podia ser um guitarrista e pianista mediano, podia não saber tocar harmónica, mas ninguém escrevia como ele. Eric Clapton, que sabia do que falava, resumiu com clareza o estatuto do autor de Blowin’ in the Wind: «He’s a poet. Basically he’s a poet. He does not trust his voice. He doesn’t trust his guitar playing. He doesn’t think he’s good at anything, except writing and even then he has self-doubts». 
   As dúvidas são inerentes a um processo criativo que não enjeita a autocrítica, na mesma medida em que, ao lançar um olhar sobre o mundo, fá-lo no encalço de uma compreensão aprofundada da natureza humana. As referências literárias são uma constante na sua discografia, a qual compreende, só na década de 1960, nove discos fundamentais.  

   Bob Dylan – the bootleg series volumes 1-3 [rare & unreleased] 1961-1991 (2017) dá conta da prolixidade do autor, dificultando uma eventual tentativa de definição da sua relevância. Constatar que deixou de fora dos registos oficiais autênticas pérolas como as agora reveladas deixa-nos, no mínimo, desconcertados. 
   Destacaria, pela circunstância rara, a leitura do poema Last Thoughts On Woody Guthrie, cuja audição/leitura reflecte algo que transcende o mero discurso epigonal acerca de um mestre da tradição folk. Outro momento brilhante neste conjunto de 58 gravações, distribuídas por três CDs, é a interpretação de Farewell, Angelina, canção aproveitada por Joan Baez para o álbum homónimo de 1965. Poema extraordinário, segura incursão pelo universo surrealista, até então aparentemente incompatível com a linearidade retórica da folk music
   Por fim, e para não alongar em demasia a prosa, escute-se com atenção Blind Willie McTell, gravação da década de 1980, com Mark Knopfler na guitarra. É um comovente e comovido elogio aos blues enquanto fonte inesgotável de inspiração para um jovem que vinte e tal anos antes tomava conta da realidade social do seu tempo e do seu espaço através de um veículo de comunicação chamado canção.
   Foi essa tomada de consciência que levou Dylan a adoptar em diferentes ocasiões melodias tradicionais como suporte para palavras onde o literário abraçou a vida, com as suas contradições, paradoxos e absurdos de raiz.




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