quinta-feira, 8 de junho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #8


   A Ana lembrou-me que passaram 20 anos sobre o desaparecimento de Jeff Buckley. A Ana é a minha mulher. Quando Grace (1994) apareceu lá por casa tínhamos dado o primeiro beijo há dois anos. Logo se tornou a banda sonora de muitas e soltas noites. Filho de Tim Buckley, escritor de canções precocemente desaparecido aos 28 anos de idade, Jeff Buckley repetiu a tragédia paterna. Contava apenas 31 primaveras quando se afogou num afluente do Mississipi. Era, sem dúvida, uma das vozes mais distintas da nossa juventude, a par de Thom Yorke, dos Radiohead, e da saudosa e belíssima Lhasa de Sela. São poucas as vozes dessa geração que merecem ser recordadas com o mesmo encanto. 
   Entre os temas originais de Grace, há três versões que atestam com exemplar clareza a excelência desta voz. Lilac Wine, de James Shelton, é a primeira. Foi escrita para um musical. Buckley faz-se acompanhar no início apenas pela guitarra eléctrica, num estilo jazzy que as escovas na tarola da bateria aprofundarão com convincente simplicidade. Interpretação deslumbrante, a oferecer à voz uma sinuosidade de timbres cuja transparência colocada em cada sílaba é capaz de sensibilizar o mais bruto dos seres.
   Segue-se Hallelujah, original de Leonard Cohen que tem merecido as mais estapafúrdicas versões. Jeff Buckley respira fundo antes de começar a dedilhar a guitarra. Os níveis de reverb transportam-nos para o centro de uma catedral, a voz soa como uma oração. A solo com a guitarra, o intérprete inspira nas palavras o que nelas possa haver de sagrado e solta-as como uma oferenda. Sentimo-nos agradecidos.
 As metáforas religiosas inerentes a estas canções adquirem forma final com a interpretação do hino Corpus Christi Carol (For Roy), na versão do compositor britânico Benjamin Britten. Para um ateu militante, o Santo Graal está descoberto: é a voz de Jeff Buckley. Dela beberemos o sangue de uma sagrada poesia, o clamor do espírito em clausura, afastado do mundo na esperança de assim poder aproximar-se de uma luz superior.
  Há um efeito que se repete nestes temas, as cordas trémulas e nervosas num fundo quase imperceptível sobre as quais ecoa com espantosa nitidez o dedilhado. É como se Buckley pretendesse intercalar as explosões de inspiração rock com uma paz que pressentimos procurada no título do álbum. Tê-la-á encontrado, porventura, no dia 29 de Maio de 1997. Passaram 20 anos.



2 comentários:

Anónimo disse...

Grace é uma obra ímpar, com certa resistência aprendi a gostar também Sketches for My Sweetheart the Drunk.

Dias atrás, uma excelente cantora lançou no youtube uma versão para todo álbum Grace, ela já fez isso para álbuns de outros artistas: https://www.youtube.com/watch?v=q-JhQV1banY
Não acredito que seja possível comparar as versões, mas julgo que vale a audição.

Leio seu blog com certa frequência e admiro os pensamentos nele compartilhado.

Abraço do Brasil!

hmbf disse...

Grato pelas visitas, comentários e partilha. Vou espreitar no YouTube. Saúde,