terça-feira, 13 de junho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #9


Nenhum álbum ao vivo me marcou tanto como este registo do espectáculo derradeiro de José Afonso, acompanhado no Coliseu dos Recreios, a 29 de Janeiro de 1983, por músicos como Fausto, Júlio Pereira, Rui Júnior, Janita Salomé… A gravação não é boa, denota até algumas deficiências algo rudimentares. Mas também é verdade que essas deficiências acabam por lhe conferir uma notável autenticidade.
«José Afonso encontrava-se já francamente débil», diz-se no booklet, ainda assim não dispensou, como o próprio disse, «um regresso muito abreviado aos tempos de Coimbra». Na edição em CD, o disco 1 termina com os ritmos africanos de Um Homem Novo. O disco 2 começa com uma versão de Milho Verde, sublinhando dessa forma a junção dos ritmos da Beira Baixa com certo toque africano. Fica demonstrada a versatilidade de uma música cujas raízes são o folclore dos países lusófonos.
Recordo-me de ser miúdo e assistir ao concerto na televisão, tendo-me logo aí, muito provavelmente, ficado colada à alma a melodia de Redondo Vocábulo. José Afonso é das poucas personalidades na longa história da cultura portuguesa a quem não vale a pena discutir o epíteto de génio, pelo reportório que legou à posteridade, pela lírica sem tempo independentemente das associações políticas que a ela possam ser feitas, por nele se conjugarem o artista único e o ideal de homem sábio.
Uma canção como Utopia, por exemplo, provém de um tempo muito específico, mas trespassa as barreiras desse tempo. Versos essencialmente humanos retomam dúvidas universais: «Será que existe / lá para as margens do oriente / este rio, este rumo, esta gaivota / Que outro fumo deverei seguir / na minha rota?»
Quando o Nobel da Literatura foi atribuído a Bob Dylan, o instinto pantomineiro da nossa imprensa não resistiu a fintar a inevitável comparação: quem seria o Dylan português? Não há, essa mania doppelgänger tem sido muito da nossa morte. Desperdiçamos tanto tempo em comparação, em busca de cópias, que até nos passa despercebida a singularidade inimitável de um génio.
Todos os prémios são deficientes, escassos, insuficientes, se os pretendermos associar a uma obra destas. A vaidade alegre dos Camões engravatados seria insultuosa ao pretender-se coligada com o ti ri ti ti ti dos índios aqui representados. Prémio, prémio, é ter-nos José Afonso legado as suas composições, prémio é podermos chegar a casa e descansarmos da miséria quotidiana embalados por tamanhas canções.



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