quinta-feira, 1 de junho de 2017

EPITÁFIO

Morreu o poeta, ninguém o conhecia, 
celebre-se a morte desse anónimo 
cuja vida foi passada a tratar de facturas, 
a traduzir correspondência comercial, 
a interpretar radiografias e a corrigir fracturas
expostas, a vender farturas na feira do livro. Morreu inédito, deixando de herança inúmeros naufrágios. Foi a enterrar com uma inscrição na t-shirt engomada: que se foda a literatura maila sua edição. Morreu de esperar, o pateta, enquanto nas ruas o bulício se agitava com raparigas furiosas, animais bailando como insectos nos redemoinhos do temporal, as praias areadas com gente estendida que parecia semimorta, marés convidativas, snobes afogamentos. Está morto e enterrado na vala comum dos desperdiçados, incrustado no mármore da lápide o epitáfio possível: que se foda a literatura maila sua edição. 
Fartou-se de esperar, o poeta, 
um entre milhares a quem nada o mundo devia, 
comprazido na certeza do esquecimento, 
monotonamente transformado no pó 
do qual surdem e crescem agora ervas daninhas, 
danadas ervas daninhas, com poemas nas pontas cúspides 
das folhas frescas que perfuram o orvalho 
enquanto não morrem, também elas, 
                                                      esmagadas pelo peso dos homens. 

Sem comentários: