segunda-feira, 5 de junho de 2017

IMPECÁVEL

   Presumo que esteja reformado, porventura de obrigações burocráticas. Ou talvez tenha sido vendedor de seguros. 
   Sempre muito bem penteado, os sapatos impecavelmente engraxados, a roupa engomada a régua e esquadro. Caminha pausadamente, mas algo curvado. Tem um bigode grisalho aparado a pinça. Sujeito socialmente imaculado, sobre o qual todos diriam maravilhas. 
   A aparência contrasta, porém, com os tiques nervosos. Do perfil vertical sobressaem movimentos rígidos, demasiadamente rígidos, e uma repetitiva, diria mesmo maquinal, forma de circular por entre os livros, que folheia rapidamente, movimentando os lábios em silêncio, enquanto finge ler o que é impossível ser lido daquele modo. 
   Cumprimento-o sempre, mas nunca me responde. Nunca lhe escutei um bom dia, boa tarde, boa noite. Nunca comprou um livro. Entra e sai todos os dias, no seu semblante impecável de homem cumpridor. 
   Imagino que tenha passado a vida a trabalhar, que se tenha aposentado, que seja um homem sozinho, sem mulher nem filhos nem amigos, um homem de secretaria. Imagino-o assim, correcto, exemplar, irrepreensível. Mas desconfio também de uma voz inaudível, retraída algures entre o peito e a garganta, ameaçando as fontes arroxeadas de raiva contida. 
   Talvez um dia rebente. Nesse dia, terei a certeza da sua humanidade. 

4 comentários:

Anónimo disse...

Fernando Pessoa.

hmbf disse...

É provável.

Cuca, a Pirata disse...

Hum...
Talvez tenha uma machadinha escondida e a use para cortar pescoços e assim. Desconfio sempre de pessoas demasiado penteadas.

hmbf disse...

Ou então colecciona gatinhos mortos numa arca congeladora.