quarta-feira, 21 de junho de 2017

MAÇÃ, MELANCIA

A partir de Tsai Ming-liang

A última vez que me senti amado tinha escrito na testa: vou abandonar-te.
A minha cabeça assumia a forma de uma maçã, o cérebro eram minhocas.
O cérebro eram larvas sôfregas, eu andava como uma maçã a ser devorada, caída da árvore da sabedoria, maçã envenenada de paixão.
Tinha uma placa pendurada ao pescoço, era um judeu num campo de concentração, a última vez que me senti amado foi quando disse: adeus.
Ninguém me amou realmente, ninguém que enclausure saberá verdadeiramente amar, e eu tinha sirenes de sinalização a gritarem: deixem-me passar, deixem-me passar.
Ia a caminho das urgências, fui impedido, não me tratei. Agora sinto-me doente, há muito que me sinto doente, desde esse dia que me sinto doente de fadiga, um cansaço tão pesado como a perspectiva de ir trabalhar enquanto se toma o café da manhã. 
A minha cabeça agora é uma melancia, só água e pevides. Tenho a cabeça feita em água em pevides. Fosse possível, comeria a minha própria cabeça.  

3 comentários:

maria disse...

é deste calor, mas logo passa. :)

hmbf disse...

Estou a precisar de meter a cabeça no frigorífico.

maria disse...


quem não está?