sexta-feira, 2 de junho de 2017

PESTANAS POSTIÇAS

Este restolhar de ventos que em mim se levantam, desculpem-me, durmo mal, e com o se levantarem me enchem de um pó insone, 
esta cidade em festa e eu sem jeito no sorriso, com a alegria toda aos tombos, uma alegria bêbeda, desculpem-me, é falta de dormir, sono a mais, ainda agora descendo neblinas sobre o meu corpo, envolvido volvidos anos em velhas teorias sobre o desastre de existir,
esta festa de febres gradualmente medidas com mão na testa e termómetro no cu, porra, preciso de um piquenique à sombra de um sobreiro, preciso de ESMAGAR formigas com as pontas dos dedos, desculpem-me, tenho sonhado tão pouco, ora porra, 
estes blues, 
estas sms de remetente incógnito para as quais envio saudações milenares, deus a concertar torneiras de lama, covas entupidas por depressões, alegrias ébrias como barcos abandonados de pescadores na reforma, desculpem-me, eu e o mar e o céu a olharmos uns para os outros nesta festa, a dormir a sesta, ai que festa, numa cidade toda inclinada para ruídos e beats e soundbites, com tão glamorosas mulheres decotadas na sombra dos olhos, tão esguios perfis de arredondadas formas equilibrando-se sobre saltos, equilibrando-se sob trabalhosos penteados, desculpem-me, tenderia a adormecer em olhos desses tão materialmente votados ao engajamento político dos encontros sexuais, espalharia até dezenas de tatuagens por minha pele manchada de cansaço, eu, desculpem-me, finalmente cedendo ao peso lendário das pálpebras,
nesta festa, nesta festa.

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