terça-feira, 27 de junho de 2017

VENTRÍCULO

Por onde hei-de continuar? Qual o caminho? Deverei continuar?
O galo canta a desoras, o cão está cego e surdo, o clima é macrobiótico, as costas ressentem-se e suo, e suo, e suo. Ressoam respirações antigas
                       vindas de um tempo que julgava extinto
no fundo do peito. A poesia já teve melhores dias, alguém que lhe decrete a morte. Steiner decretou a morte da tragédia, Enzensberger decretou a morte da literatura, ambos decretaram a morte do que mantêm vivo por respiração boca a boca, cuidados intensivos, urgências. Poesia geriátrica.
Não ter vida para lá disto. Só a música não morreu ainda.
Ligada à máquina, presa à vida por tubos, a música ainda pulsa.
Na reunião do partido discutem-se terras contaminadas, pessoas ao abandono, a miséria humana ilustrada pelo som rangente do soalho. Quantas imagens não terão já passado neste monitor? E a cada dia que passa torna-se mais evidente que nada se passa, que tudo passa, que são menos os minutos que temos pela frente.
Meço o pulso, conto batimentos, palpitações, arritmias, paragens, entre sístole e diástole esvaziam-se os pulsos.

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