quinta-feira, 8 de junho de 2017

TEORIA DAS ONOMATOPEIAS

Falhei, não faz mal, falhei em nada ter feito.
Falhei em ter ficado parado, inquieto.
Podia ter articulado músculos, ossos, membros, podia ter-me agitado, podia pôr-me a caminho sem olhar para trás, podia ter comprado bilhete para longe, podia não ter falhado.
Fiquei a olhar as nuvens que passam, a caravana que estanca, os cães domésticos ladrando das varandas aos rafeiros que remexem o lixo nas ruas, fiquei.
O que importa é agir, fazer, jogar, mas eu falhei em nada ter feito, em não ter agido, em não ter jogado, em simplesmente ficar na sombra de uma eventualidade. A minha maior derrota é nem sequer ter a certeza de que sairia derrotado. O mais certo seria acabar derrotado. Mas assim.
Assim nesta missA.
Estarei a tempo de corrigir tamanha dor? Estarei a tempo de levar até ao fim a incerta balada do meu naufrágio? Estarei a tempo de sacrificar o medo de falhar no altar do fracasso? Em nada ter feito, falhei. Podia não ter falhado, mesmo fracassando. Dizer que é tarde não é desculpa para permanecer como cão doméstico a ladrar aos rafeiros que remexem o lixo nas ruas.
Béu, béu.
Ão, ão.

Nota-se nas onomatopeias alguma evolução.

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