segunda-feira, 3 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #12


   Em 1997 a world wide web, tal como hoje a conhecemos, era uma realidade incipiente, apesar do novo mundo que já então se avistava. A humanidade andava fascinada com a ovelha Dolly e as possibilidades da clonagem, falava-se de futuro pós-humano. Um tipo chamado Claude Vorilhon, criador do movimento raeliano, fundou nesse mesmo ano a Clonaid, fazendo passar a mensagem de uma putativa clonagem de seres humanos. Titanic, o filme de James Cameron, batia todos os records nas salas de cinema, espantando o mundo com a qualidade alcançada no domínio da computação gráfica.
   Foi em 1997 que os Radiohead, banda de rock formada em Oxford, publicaram um álbum histórico intitulado OK Computer. Histórico pelo visionarismo, pelo prenúncio de um futuro então anunciado na feroz aceleração de uma realidade cujas transformações estão ainda em marcha. Sublinhemos que, ao terceiro álbum, os Radiohead exibiam uma maturidade que os resgatava da vulgaridade. O rock que praticavam, e que de algum modo foram praticando, nada tinha que ver com o grunge de inúmeras bandas norte-americanas deveras populares durante toda a década de 1990. Era a antítese da britpop que também por esses anos fez escola. Não prescindia das guitarras em favor das programações, rumo adoptado pelos ícones do trip hop e subgéneros afins. Os Radiohead eram, como sempre foram, como ainda hoje são, diferentes e especiais.
   A voz de Thom Yorke impunha-se ao universo melómano como uma das mais sublimes, acompanhada pelos instrumentos que todas as bandas rock sempre tocaram mas com uma invulgar capacidade melódica e harmónica. Sem resvalarem para tons unicamente depressivos e destroçados, os autores de Creep mantinham a melancolia em níveis aceitáveis. O que fez de OK Computer um álbum especial foi o futuro que ele nos contou, plasmado em jeito de síntese nesse interlúdio, a meio das doze canções, intitulado Fitter Happier, com uma voz robotizada a passar-nos o receituário da vida que não queremos ter: «comfortable / not drinking too much». Essa vida caracterizada pela hegemonia do pragmatismo face ao idealismo, essa vida que é deveras a nossa contemporaneidade, foi ironizada por antecipação neste disco memorável, que só a ingenuidade de quem não o entendeu à época podia considerar progressivo.
   As explosões de guitarras não foram engavetadas, a secção rítmica não perdeu vigor, Climbing Up The Walls termina aos berros num exercício catártico que percorre todo o disco desde o primeiro momento. Em OK Computer assistimos a um motim intervalado por relances desencantados, desiludidos com o estado do mundo, baladas que não são baladas, são um manifesto de saturação, são desacelerações no centro da hiperactivade e do frenesim que nos corroem. «This is my final fit, my final bellyache, with no alarms and no surprises», a fazer tanto sentido ontem como hoje. Porque hoje é o futuro que então se antecipava. Hoje e, muito provavelmente, amanhã também.



2 comentários:

caminhosemsaber disse...

A ausência de uma referência ou alusão a George Orwell deixa este post inacabado.
Ok, HMBF?

hmbf disse...

Ok.