domingo, 9 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #13




   Não consigo lembrar-me da primeira vez que ouvi Mingus Ah Um (1959), talvez sempre tenha feito parte da minha vida. Sei que foi o primeiro disco de jazz que adquiri, excluindo das contas dois LP de Pat Metheny que conservo religiosamente. Curioso é que tenha chegado a Charles Mingus por causa de uma rara autobiografia, publicada entre nós pela Assírio & Alvim com o título Abaixo de Cão (1982).
   Apesar de serem muitas e deveras estimulantes as histórias do jazz, com contornos literários para todos os gostos, não é comum um músico de jazz aventurar-se no registo das suas memórias. O escritor argentino Julio Cortázar explicou-nos porquê no conto O Perseguidor, ao colocar em perspectiva um músico de jazz e o seu biógrafo. Nesse conto percebemos que a figura do jazzman é a daquele que vive acima da biografia, tornando incompreensível até para si mesmo a mecânica dos gestos humanos mais banais. A improvisação estilhaça os padrões, leva-nos a esmo sem o tédio da repetição, escapa à reprodução dos gestos, dos actos, das acções.
   Mingus foi obrigado a parar quando lhe diagnosticaram a doença a que agora chamam ELA, essa mesma que há tempos levou meio mundo a tomar banhos de água gelada em nome da solidariedade. Mas até ter parado levou uma vida digna de ser conhecida, sobretudo através da música de excelência que legou ao mundo.
   Com Mingus Ah Um, já depois de ter acompanhado no contrabaixo muitos dos melhores, afirmou-se enquanto compositor numa grande editora. Rodeado de músicos jovens, entres os quais brilham Horace Parlan no piano e Booker Ervin no saxofone, Charles Mingus homenageia os mestres em Jelly Roll, Open Letter To Duke, Bird Calls, aventura-se pelos terrenos do gospel com enlevo contagiante onde não faltam sequer palmas a marcar o ritmo, evoca o saxofonista Lester Young, falecido por esses dias, numa comovente elegia intitulada Goodbye Pork Pie Hat, ataca os blues em Pussy Cat Dues… 
   A música de Charles Mingus serviu o teatro e o cinema, acompanhou poetas como Kenneth Patchen, é ela mesma poesia em estado puro, da que se lê com os ouvidos.


4 comentários:

Fernando Machado Silva disse...

charles mingus é realmente incomparável no jazz. eu comecei pelo fantástico "the black saint and the sinner lady" e há já quase 20 anos que não me canso de ouvir, ou o "tijuana moods", ou o "the clown", as improvisações ao piano...

a autobiografia também é um bom livro, tal como o da billy holiday.

abraços cá de berlim

hmbf disse...

E esta?

https://youtu.be/qyJvym6_3Vw

Grande abraço e obrigado pelo comentário.

Fernando Machado Silva disse...

esta não conhecia! max roach, duke ellington e o charles mingus juntos! foda-se! impressionante e vem mesmo a calhar neste "verão" berlinesco cheio de chuva. obrigado. abraço

Ivo disse...

Talvez há uns dois anos, alguém me perguntava olhando para as estantes lá de casa "e Jazz?". Eu a modos que meio embarracado "nada...". Felizmente que na tv nem tudo é triste, Canal 180, Djazz, Mezzo, fui tentando habituar o ouvido, que é como quem diz a cabeça. Deve estar a fazer um ano comprei uns quantos cds usados. Fiquei por aí. A semana passada, numa tentativa de retomar o gosto, além de dois usados do Miles Davis comprei o Money Jungle, novinho, ainda com celofane e tal para se lhe ter mais o gosto (pelo menos comigo é assim). Parece que foi tiro certeiro.
Quanto ao do post propriamente dito, lá irei um dia.

Já o fiz há muito tempo, volto a dizer: obrigado pelas sugestões Henrique.