A humildade
obriga-me a confessá-lo: sou consumidor envergonhado de música dita erudita,
nomeadamente no que concerne a tudo o que tenha que ver com Ópera e afins. Mas
se me comovi como nunca com Tom Hanks a explicar La mamma morta a Denzel
Washington no filme Philadelphia, e se em miúdo metia a tocar com frequência o
Bolero de Ravel, e se Old Spice foi o primeiro after shave que usei por causa
de um anúncio ao som de Carmina Burana, então talvez exista em mim um apelo
inexplorado.
A mais famosa
cantata do alemão Carl Orff (1895-1982) é um caso sério de popularidade. Composta
em 1936, foi pela primeira vez apresentada em Frankfurt, a 8 de Junho de 1937, no
auge do regime nazi. O sucesso imediato levou a que sobre Orff pesasse para o
resto dos seus dias o anátema de ter colaborado com os apaniguados de Hitler,
embora o próprio tenha desmentido tais simpatias quando mais tarde se defendeu
ao declarar amizade profunda pelo resistente Kurt Huber e pelo judeu refugiado
Erich Katz. Não admira, porém, que os discentes de Goebbels tivessem admirado o
tom triunfalista de Fortuna Imperatrix Mundi.
Carmina Burana
faz parte de uma trilogia intitulada Trionfi, onde se incluem Catulli Carmina e
Il Trionfo di Afrodite. Orff seleccionou
24 textos de uma colecção de cerca de 200 manuscritos guardados no mosteiro de Benediktbeuern,
no sul da Baviera, datados do século XIII e sobre os quais recai certo
mistério. A base da selecção foi a recolha organizada, no ano de 1847, pelo
famoso filólogo Johann Andreas Schmeller. A tradução manifesta o lado
heterodoxo dos textos, nos quais detectamos uma celebração da vida mais pela
sensualidade do que pela espiritualidade. In Taberna Quando Sumus é um belo
exemplo dessa heterodoxia.
Na interpretação
conduzida pelo austríaco Franz Welser-Möst, com a soprano Barbara Hendricks a
brilhar, ressalta a simplicidade de uma música apoiada nas linhas de percussão
que mantêm o ritmo e relegam para segundo plano as questões melódicas. O
fascínio de Carl Orff pelas canções do folclore bávaro, pela ópera italiana, pela
música coral, assim como preocupações pedagógicas inerentes à sua actividade
com crianças, permitiram-lhe alcançar uma capacidade de comunicação capaz de cativar
até um néscio como eu:

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