quarta-feira, 26 de julho de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #15


   A Sofia era muito alta, jogava na selecção nacional de basquetebol. Juniores? Juvenis? Frequentaríamos, se bem me lembro, o 11.º ano. Ou seria o 10.º? A Sofia era do Porto, estava deslocada em Rio Maior por causa de um estágio relacionado com desporto. Sentou-se a meu lado numa aula qualquer, não me recordo qual. Mas nunca mais me esqueci da BASF que me gravou com temas dos Joy Division, uma banda inglesa, de Manchester, com um vocalista que era poeta e se suicidara em 1980.
   A música dos Joy Division era urbana, tinha pouco ou nada que ver com os bucolismos que fascinavam rapazes do campo como eu. Ou com o imediatismo dos punks rurais à época ajuntados por detrás dos pavilhões da escola a fumar os primeiros charros. A Sofia era do Porto, caíra ali de pára-quedas. Eu era só um rapaz que ouvia Dire Straits, um filho da burguesia semi-rural. Ao ouvir os Joy Division cheirei pela primeira vez o dióxido de carbono das grandes cidades, percebi o silêncio escondido por detrás do ruído, fiquei com alcatrão colado à sola dos sapatos.
   Li muito sobre os Joy Division, reli vezes sem conta as letras, os poemas, do tal Ian Curtis, não evitei as lágrimas quando em 2007 vi Control, filme de Anton Corbijn que é muito mais do que um “bio picture”, é um dos raros momentos em que o cinema prestou justa homenagem à música Pop. Se o Miguel Esteves Cardoso escreveu que os Joy Division foram o maior conjunto Pop de todos os tempos, quem sou eu para dizer o contrário? Mesmo que, entretanto, o termo Pop tenha adquirido significados algo espúrios, quem sou eu para desmentir o autor de Escrítica Pop?
   Nesta caixa, sob o título Heart and Soul (1998), coligiu-se praticamente todo o legado dos Joy Division, uma banda formada em 1976, quando o punk rock agitava a juventude perdida das grandes capitais europeias (Lisboa ainda não era uma delas), mas que transcendia musical e liricamente a raiva inconsequente dos punks. Porque ofereceu à raiva uma tristeza, uma desolação e uma dor que patenteiam, ao longo dos quatro CDs aqui reunidos, a essência trágica desse “lugar da música” que é Joy Division. 

3 comentários:

Carlos Ramos disse...

Eu era puto, estávamos nos oitentas e tais, quando conheci a música dos Joy Division. Aquilo marcou-me o olhar e o coração. Foi também na altura dos primeiros contactos com os Velvet. Mas falando brevemente dos Joy ….Lembro-me do livrinho branco da Assírio, que já ofereci várias vezes, das T Shirts que se foram esfrangalhando pelo uso quiçá excessivo, lembro-me dos recortes de jornais e revistas que fui colecionando, do vinis e depois dos CDs comprados sempre à pressa com receio infundado que desaparecessem das lojas, lembro-me daquele lugar solitário, melancólico, belo, desesperado a que eles me conduziam sempre. Lembro-me daquela voz profundíssima a debitar verdades absolutas, se é que existiam, eram aquelas, não outras. Aquela voz, aquelas palavras, sem auto compaixão ou lamechice, aquela beleza que atingia o sublime e por isso doía. Aquilo era o que eu sentia e não conseguia dizer nem cantar. Aquilo era poesia e continua a ser com um grande P. When routine bites hard, And ambitions are low, And resentment rides high, But emotions won't grow..

hmbf disse...

Do melhor.

ZMB disse...

Eu com 14, 15 anos ainda só ouvia praticamente rádio, e ouvia New Order. Havia um videoclube que tinha uma empregada bonita um pouco mais velha que eu. Uma vez falei-lhe de New Order. Ela disse que bom, mesmo, era Joy Division. Foi a primeira vez que ouvi o nome. fiquei com a pulga na orelha uns anos, só na universidade ouvi JD. é uma banda que define uma época e um grupo de ouvintes mas é intemporal. continuo a gostar embora alguns textos sejam totalitários, um reflexo de uma época em que se tentava mostrar o horror de uma ditadura assumindo a banda a perspectiva de quem manda, na altura havia já bandas em Inglaterra cujos membros andavam na rua vestidos com suásticas, às vezes nem sempre, só para provocar o horror, falo mais de uma banda noise chamada Whitehouse. no caso dos JD é mais uma ou outra letra.