quarta-feira, 5 de julho de 2017

FOICE

Foi-se o amor, cerceado pela foice do hábito, da circunstância, do tédio, da monotonia, do dia-a-dia empoeirado, da cozinha atolada em pratos sujos, foi-se limpo, posto em pratos limpos, o amor doméstico, conformado, desapaixonado, dos noivos prometidos para a ausente vida eterna, que é tudo efémero, passageiro, vago, é tudo um dia depois do outro, como um comboio a atravessar a paisagem, vagão atrás de vagão cheios de vazio, de prisioneiros, de mortos, a foice cerceadora da morte deu-nos cabo da vida, agarramos a vida pelo cabo da morte, e agora é tudo memória, sépia, recordação a preto e branco, fotografia para lembrar aos vindouros que talvez tenhamos existido, talvez, pois não sabemos bem se na crença de existirmos houve alguma vida, terá havido, talvez, o momento inapto da ternura, a falsa partida, o alvo falhado, as pequenas vitórias intermitentes como o motor avariado de um corpo aos solavancos, terá havido talvez entre vírgulas o sorriso da manhã fresca, da noite quente, da lua estendida nas águas, do sol perecendo no horizonte, e a gente nostálgicos, raramente perdidos na floresta, quase sempre comandados por sinalética variável, sinais de trânsito, respeitosamente cumpridores dos mapas, dos guias, do GPS, avessos dos estados eróticos imediatos de Sören Kierkegaard, o último dos cínicos melancólicos, paradoxo em carne viva, carne viva paradoxal. 

2 comentários:

Cuca, a Pirata disse...

O quotidiano é uma foice.
Não deixa de ser coerente que seja o instrumento simbólico da morte.

hmbf disse...

Pois é.