Tenho um cão com cerca de dezassete anos de vida, está
surdo e praticamente cego, caíram-lhe parte dos dentes, mantém um apetite voraz
e um faro razoável, e apesar de lhe faltar força nas pernas passa o tempo a andar de
um lado para o outro completamente desorientado. Dorme muito, deixou de
brincar, faz as necessidades por onde calha, sem critério que se compreenda a
não ser o de se ir orientando no espaço. Não me parece que tenha dores,
raramente se queixa. Tivesse dores, a opção seria o abate. É assim que se faz
com os animais, o abate liberta-os das dores. Com os homens é diferente. Não se
abate um homem para o libertar das dores, excepto em casos excepcionais.
E mesmo nesses casos a dúvida persiste, a dúvida moral, a dúvida ética, a
dúvida deontológica. A dúvida, diga-se, antes de ser o princípio fundamental do
método cartesiano para chegar à verdade — cogito, ergo sum —, é uma prorrogação
do sofrimento. Porque a dúvida inquieta, desassossega, obriga o pensamento a
uma ginástica árdua com consequências lesivas para o corpo de quem duvida.
Não sei se o meu cão alguma vez teve dúvidas, suponho que
nos distingamos dos animais, em parte, por duvidarmos. Os cães desenhados por
Bárbara Assis Pacheco para ilustrar Talvez a Dúvida (Douda Correria, Maio de
2017), de Rui Almeida (n. 1972), não parecem perturbados por grandes dúvidas. Ao
contrário do célebre cão de Alberto Giacometti, apresentam-se quase
invariavelmente de cabeça e rabo erguidos, estão bem alimentados, em posições
confortáveis, ora lambendo-se, ora contemplando a natureza. Um deles, na capa,
está a lamber-se sobre um monte de livros. O cão aparece num dos poemas deste
livro como «Prenúncio de tropeço em trânsito para / A casa aberta onde custa
chegar», é a imagem de um animal «indiferente a tudo» que por vezes se nos assemelha
no ridículo. Este nós plural determina paradoxalmente o curso dos versos, pois
apesar do tom discursivo dos poemas, ao jeito de uma homilia para destinatários
incertos, é na primeira pessoa que aqui se discursa. A humanidade é mais dissemelhante
do que o nós de seres «azedos, angustiados e tristes» a que o poeta se dirige,
logo no primeiro poema, com um propósito clarificador: «Não nos iludamos».
Não obstante o propósito cartesiano, a ele voltamos, o
racionalismo cai por terra abatido pelas emoções. É interessante notar como tão
paradoxais são estes poemas, desde logo na sua aparência formal. Rui Almeida
nunca descurou a forma na sua poesia, começada a publicar em 2009 com o livro
Lábio Cortado. Todos os poemas de Talvez a Dúvida são compostos por quatro
quintilhas, mas o ritmo, por vezes pautado por rimas internas ou palavras foneticamente
próximas, permitiria quebras de verso que ofereceriam à leitura uma menor
rigidez. Desinteressado dessa facilidade, o autor prefere submeter os versos a
uma forma que enrijece o diagnóstico deste nós humano em contraponto ao nós
canino: solitários, ansiosos, desesperados, marcados pela «ausência de
coragem», pela «falta de vontade», iludidos, «vagas entidades», injustos,
escravos da rotina e do «Absurdo quotidiano», perdidos. Em suma, radicalmente pessimistas:
«A paz é um lugar impossível, absurdo. Não / Vale a pena ser fiel a qualquer
raiz nem / A qualquer silêncio consolador. Nem rir».
Na sua eterna busca de verdade, esta poesia peca por
defeito, ou seja, não reconhece no humano o dom da indiferença canina, negando
ao cão a faculdade da dúvida. Sem esperar justiça da poesia, questiono-me se
fará sentido um diagnóstico deste tipo. A poesia é ainda aqui torrente emotiva,
apesar da tendência aforística inerente a estes poemas. É-nos difícil vislumbrar
nela o belo e o sublime, embora desconfiemos que essas sejam categorias do
pensamento estranhas a um poema que se proponha claro. «Não nos iludamos»,
ainda que insistamos nas mesmas ilusões, por detrás da aparência derrotada
esconde-se o heroísmo da permanência, da dor suportada sem o apaziguamento dos
«alívios de circunstância» (paraísos artificiais?) ou a solução final do abate.
Há uma espécie de elogio da dor nestes poemas que encalha na ideia de
sacrifício, a dúvida é a de Cristo na cruz face ao desamparo e ao abandono. «No
entanto, nas mãos / Permanece-nos um pássaro estranho». Que pássaro é este? A
esperança? A fé? O espírito santo? «Talvez qualquer pergunta seja sábia / Por
causa do medo e há demasiadas / Formas de isolamento — a nossa é / Apenas mais
uma, apenas a nossa».
A dúvida vem depois de cima, menosprezamo-la, talvez,
como se afirma num dos poemas, a dúvida «Aproxima-nos da precariedade, / Dá-nos
a perceber limites», à maneira de Descartes acabará por levar-nos a Deus. Eis a
redundância a que sempre nos leva a brevidade da vida, a efemeridade do belo na
terra, sobretudo quando recusamos a luz do riso, quando fechamos a porta à
alegria passageira, à sombra, quando não nos contentamos com o ritmo oscilante dos
humores que é isto de andar por cá. Ainda e sempre a angústia, mas por lhe
faltar o gozo da terra. Outros poetas satisfazem-se com o passar das estações,
com o pólen, com a flor que nasce da flor, com a semente regada da qual brotam
árvores que dão fruto, com o fruto caído na terra, transformado em estrume, a
morte fertilizadora, outros poetas recusaram olhar para o cão como um animal
doméstico, descobrindo dentro de si o gene selvagem que tudo relativiza,
sobretudo a linguagem, sobretudo a tese, a teoria, o teorema a partir do qual
colocamos sobre nós ideias de justiça e de beleza que não passam disso mesmo, de
ideias, conquanto as pronunciemos em maiúsculas ou minúsculas. O cão que se lambe
sobre um monte de livros é mais humano ou animal? Será metáfora? Será imagem? Deixemos
ao improviso a natureza do improviso, por onde quer que sigamos a dúvida
acompanhar-nos-á, essa a única certeza:
Aos quarenta e tal damo-nos conta
De que nascemos no país errado,
Numa margem mais fria do que a nossa
Capacidade de sentir. A meio
Da vida, ou do que ela possa ser,
Damos por nós atentos ao que se passa
Por esse mundo fora, usamos o
Sentido crítico, temos opinião
Sobre um pouco de tudo e arrumamos
Pedaço a pedaço em aproximações
Discretas a decassílabos. De
Nada nos vale a força e o trabalho
Com que limpamos a casa onde moramos
Se o que dizemos se repete vezes
Sem conta em tom monocórdico e sombrio,
Se a nossa voz se cansa de tanto arderem
Florestas de árvores secas. Gota
A gota, as cisternas se esvaziam e
Os medos se transformam nesta chuva
A cair espaçadamente sobre nós.

1 comentário:
Meu Deus, como este poema explica / ilustra o Brasil de hoje
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