Há pessoas que não sabem discutir nenhum assunto sem
recorrer a exemplos particulares e subjectivos, nomeadamente retirados das suas
experiências pessoais.
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O que levará alguém a pensar que a sua miserável vida
pessoal pode servir de exemplo universal?
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A ser exemplo para alguma coisa, a minha vida pessoal
pode apenas servir para averiguar da conformidade entre acção e teoria, ou
seja, pode servir para alguém me chamar hipócrita ou reconhecer-me coerência.
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Certos indivíduos tendem a julgar que a sua vida é sempre
mais difícil do que a vida dos outros, como se viver não fosse em si mesmo um
desafio diário cujas dificuldades provêm tanto da sorte como das opções que
tomamos ao longo da vida.
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No mundo do trabalho, uma tendência que me irrita é a
daquela gente que se coloca sempre no lugar do mártir: eu trabalho mais do que
os outros, o meu trabalho é mais difícil do que o dos outros, tudo na minha vida
é mais complicado do que na tua.
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Isto leva a que, por exemplo, por mais diversas e
legítimas que sejam as reivindicações de uma classe profissional, haverá sempre
uma horda de calimeros a choramingar desgraças pessoais: aqueles tipos não
querem é trabalhar, se tivessem de trabalhar o que eu trabalho.
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Isto é, se tivessem a minha vida. Mas não têm, e isso não
é mau. Se tivessem, seriam muito infelizes.
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A mais nefasta das consequências neste tipo de situações
é alguém julgar que os direitos dos outros apenas são ponderáveis em função dos
seus, gerando assim um muro de egoísmo social que obstrui o princípio da
solidariedade.
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Ser solidário com o outro é desejar-lhe uma boa vida, não
é desejar-lhe a merda da vida que se tem.
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Eu adoraria que todas as pessoas no mundo fossem mais
ricas, felizes e inteligentes do que eu, pois isso deixar-me-ia feliz. A felicidade
dos outros alegra-me, não me entristece.
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O princípio da equidade nestas matérias é algo pateta.
Cada profissão tem as suas particularidades.
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O pior dos trabalhos que tive, o mais cansativo e
insuportável, foi aquele que menos horas me ocupava e um dos que eram mais bem
remunerados. Mas este exemplo pessoal não interessa para nada.
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Interessa perceber se são legítimas ou não as
reivindicações de quem trabalha. Exigir condições de trabalho é, regra geral,
um bom princípio. Exigir condições de vida, associadas ao mundo do trabalho, é
sempre um bom princípio.
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Como conciliar o direito à felicidade do cidadão com os
deveres do trabalho?
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Há quem critique o grevista por ele lutar, como se o
simples facto de ele lutar fosse um insulto a quem se vê, pelas mais diversas
contingências, incapaz de ter a mesma atitude.
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Acho piada aos ex-patrões que passam a pensar como empregados,
acho patéticos os ex-empregados que passam a pensar como patrões.
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Em suma: não está mal reivindicar folgas ao
fim-de-semana. O que está mal é pensar que essa reivindicação não é legítima
porque eu tenho de trabalhar ao fim-de-semana.
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De resto, o mundo devia parar aos fins-de-semana. As
pessoas deviam ser proibidas de morrer aos fins-de-semana. Numa sociedade
ideal, aos fins-de-semana os parques ficariam cheios de famílias e namorados,
as ruas seriam como que o sistema nervoso central do amor.
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Os teóricos do capitalismo que nos domina não são parvos,
fazem tudo para privar os cidadãos das suas principais armas. Retiram-lhes
inteligência crítica, tronando-os autómatos. Sabem que a solidariedade advém da
inteligência e que o automatismo só gera mais egoísmo.
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Os teóricos do capitalismo não são parvos nem trabalham
aos fins-de-semana.























