quarta-feira, 30 de agosto de 2017

#101


   Não é fácil dizer mal de Neil Young, pelo que estas teclas dispensar-se-ão de tal esforço. Reconheço os meus limites. Peace Trail (2016) reúne dez canções escritas e gravadas, tanto quanto se sabe, ao primeiro take. Ao primeiro ou ao segundo, tanto faz. A espontaneidade é evidente, tal o desarranjo. Gosto destes heróis que se dão ao luxo de navegar contra a maré. Neil Young pode fazê-lo, é claro. Já nada tem a provar. Mas numa época em que se ouve música por todo o lado, e tanta dela tão arrumadinha, tão plástica, tão estilizada, tão pastilhona, sermos brindados pela autenticidade de um escritor de canções na casa dos setenta é privilégio a que não se pode ficar indiferente. 
   Alternando descargas eléctricas catárticas com a calmaria de uma viola acústica, Young faz-se acompanhar de uma secção rítmica em registo de ensaio. As letras reflectem impressões políticas acerca da actualidade, dos direitos das comunidades indígenas ao sobreaquecimento global, da pós-verdade ao terrorismo, resvalando por vezes para considerações mais intimistas e autobiográficas. Inestético, mas pertinente enquanto registo de uma contemporaneidade também ela inestética, Peace Trail percorre a actualidade num tom crítico que denota a urgência de alguém que quer gritar ao mundo sabendo, de antemão, quão limitado é o alcance das suas palavras.


(…)
And everywhere I look I see people alone

Alone with their heads looking in their hands
Lost in the conversation stare
Walking with their eyes looking at the screen
Talking like they were really there

I’m lost in this new generation
Left me behind it seems
Listening to the shadow of Jimmy Hendrix
Purple Haze sounding like TV

(…)

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