Não é fácil dizer mal de Neil Young, pelo que estas
teclas dispensar-se-ão de tal esforço. Reconheço os meus limites. Peace Trail
(2016) reúne dez canções escritas e gravadas, tanto quanto se sabe, ao primeiro
take. Ao primeiro ou ao segundo, tanto faz. A espontaneidade é evidente, tal o
desarranjo. Gosto destes heróis que se dão ao luxo de navegar contra a maré. Neil
Young pode fazê-lo, é claro. Já nada tem a provar. Mas numa época em que se
ouve música por todo o lado, e tanta dela tão arrumadinha, tão plástica, tão
estilizada, tão pastilhona, sermos brindados pela autenticidade de um escritor
de canções na casa dos setenta é privilégio a que não se pode ficar
indiferente.
Alternando descargas eléctricas catárticas com a calmaria de uma
viola acústica, Young faz-se acompanhar de uma secção rítmica em registo de
ensaio. As letras reflectem impressões políticas acerca da actualidade, dos direitos
das comunidades indígenas ao sobreaquecimento global, da pós-verdade ao
terrorismo, resvalando por vezes para considerações mais intimistas e
autobiográficas. Inestético, mas pertinente enquanto registo de uma contemporaneidade
também ela inestética, Peace Trail percorre a actualidade num tom crítico que
denota a urgência de alguém que quer gritar ao mundo sabendo, de antemão, quão
limitado é o alcance das suas palavras.
(…)
And everywhere
I look I see people alone
Alone
with their heads looking in their hands
Lost in the
conversation stare
Walking with
their eyes looking at the screen
Talking like
they were really there
I’m lost
in this new generation
Left me
behind it seems
Listening
to the shadow of Jimmy Hendrix
Purple
Haze sounding like TV
(…)

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