O maior desafio que o mal nos coloca é sermos bons. Não
se trata de responder ao mal recorrendo aos chavões religiosos da outra face oferecida
ou da pena de talião, mas sim de oferecer à razão o tempo de um juízo moral
ponderado. É cada vez mais tentador responder instantaneamente a todo o tipo de
problemas. A alucinante prática do zapping produz os seus efeitos nefastos em
campos inimagináveis. Termos roubado ócio à sensibilidade, mais do que à razão, foi um dos maiores erros a
serem futuramente atribuídos a esta nova era tecnológica. Não é preciso ser-se
pitonisa para o adivinhar.
Evitando colocar tudo no mesmo saco, como responder às
investidas da extrema-direita neonazi nos EUA? Como responder ao
fundamentalismo islâmico do Daesh? Como responder até à insanidade dos
pirómanos que vêm transformando o Verão de 2017 num dos mais nefastos da
história da democracia portuguesa? Talvez seja imaginoso exigir que amemos essa
gente, mas não deixa de ser um contra-senso odiá-los como eles odeiam o mundo.
E o que essa gente, nos seus respectivos domínios, odeia é, precisamente, o
valor maior de qualquer espécie de humanismo: a solidariedade. Mais do que a tolerância,
tão facilmente confundível com bananice, ser-se solidário é um bem imenso que
devemos à doutrina humanista.
Cantava há anos o José Mário Branco, «Ser solidário assim pr’além
da vida / Por dentro
da distância percorrida / Fazer de
cada perda uma raiz / E
improvavelmente ser feliz». A quadra é de uma inteligência atroz,
muito por culpa do advérbio. A felicidade não é uma probabilidade na vida de
quem opte pela solidariedade, mas o ódio também não é. E, por consequência, o
mal fica arredado. Constrói-se, cria-se, gera-se. Exactamente o oposto da ruína abraçada pelos paranóicos do Apocalipse. Ao contrário do que atabalhoadamente afirmava o actual presidente
da mais poderosa nação do mundo, não há dois lados nesta história nem gente boa
de um lado e do outro. A boa intenção conciliadora redunda num maniqueísmo
insuportável, pois coloca do lado do mal aqueles que são bons, o que será
sempre mais grave do que colocar do lado dos bons aqueles que são maus.
Mas ser solidário como? Com quem? Com os energúmenos do Daesh?
Com os neonazis? Com os pirómanos? Obviamente não. Recorrendo mais uma vez ao
poema, «Ser solidário sim, por sobre
a morte / Que depois dela só o tempo é forte / E a morte nunca o tempo a redime
/ Mas sim o amor dos homens que se exprime». O amor penetra então as nossas
contas, o amor que surge da oferta ao outro, da entrega ao outro, daquele
simples abraço que um rapaz muçulmano andou a oferecer em Manchester após os
atentados nessa cidade. O terror é uma merda, o ódio que o fundamenta e estruma
tem a sua origem nessa incapacidade de abraçar e amar o diferente, de nos
apaixonarmos pelo diverso. É sobre estas coisas que José Mário Branco canta no
álbum de 1982, sobre estas e outras porventura mais datadas. Mas estas ficarão
para sempre, perdurarão no tempo, vencerão a morte e o esquecimento. O ódio
não. Ainda que seja inextinguível, ele não vencerá nada. Porque ele é tão-somente
morte.

2 comentários:
a espiritualidade a passar por aqui. :)
um beijinho, Henrique.
Outro para ti.
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