quarta-feira, 6 de setembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #17


   Quando Chico Buarque é acusado de machismo, o que aconteceu recentemente por causa de uma canção intitulada Tua Cantiga, questionamo-nos sobre os níveis de sanidade mental neste mundo em que vivemos. É exactamente o mesmo mundo em que hordas enfurecidas se indignam com blocos de actividades para meninos e para meninas, o que deve levar a repensar todo o comércio orientado para bebés azuis e bebés cor-de-rosa. Talvez um dia venhamos a ter que optar por cores neutras, em nome da inclusão e contra a discriminação de género. Isto apesar dos múltiplos exemplos de discriminação positiva que vão dando sinais optimistas na evolução de uma sociedade que se quer civilizada, como sejam a problemática introdução do sistema de prioridades nos espaços comerciais ou o respeito pelos lugares de estacionamento para deficientes. 
   Mas ainda que as diferenças entre mulheres e homens sejam evidentes, o que se reflecte, desde logo, no tamanho das carteiras, as deles à medida do bolso das calças, as delas à medida de misteriosas malas inundadas de utensílios por certo indispensáveis, estamos muito aquém de o admitir serena e civilizadamente. Confunde-se inclusão com padronização, o que é mau, e discriminação com segregação, o que é péssimo. Não há inclusão sem discriminação. A dita positiva. Que da negativa já basta o Facebook a censurar escultura clássica por causa de nus. 
   Artistas acusados de machismo não é de agora. Há muitas décadas, nos idos de 1972, um escritor de canções canadiano foi vítima de impropérios congéneres. Harvest foi o quarto álbum a solo de Neil Young, depois de aventuras com os Buffalo Springfield na década de 1960 e de uma pérola intitulada Déjà Vu (1970) com os camaradas Crosby, Stills & Nash. Lá chegaremos. Apesar de ter sido um imenso sucesso de vendas, Harvest dividiu a crítica. A beleza das melodias não convenceu alguns ouvintes mais duros, empenhados e censurar a melancolia e a indolência das letras, assim como a opção de Young por um estilo country apoiado em guitarras acústicas, piano, banjo, steel guitars
   Sucede que a melancolia tinha razão de ser: o estado de saúde do compositor. Podemos estar hoje agradecidos às hérnias discais que atormentaram Neil Young. Graças a elas, o homem ofereceu à posteridade duas mãos cheias de canções geniais. Uma, por sorte das mais belas, com um título que incendiaria hoje as redes sociais: A Man Needs a Maid. À época, como lembra Johnny Rogan na biografia sobre Neil Young, este foi alvo de ataques sérios que o acusavam de misoginia e até de chauvinismo. Vá-se lá perceber. Na verdade, a canção é sobre a insegurança de um artista, uma canção de sentimentos simples que «traçam uma linha muito ténue entre a consciência de si próprio e a auto-indulgência». Ou seja, é uma canção sobre um tipo que está todo lixado das costas e não quer meter-se em trabalhos com uma namorada nova. Prefere contratar uma empregada e viver descansadamente na sua solidão. Chamem-lhe machista.


5 comentários:

MJLF disse...

Olá Henrique, este LP era um dos de eleição do meu irmão mais velho, ou seja, ouvi isto dias e dias a fio na aparelhagem de vinil. Um horror, mas como não conhecia a história, e agora com o contexto aqui exposto, estive a ouvir e tomei atenção às palavras cantadas, já me relacionei com a música de outro modo. Nunca tinha tomado atenção à letra. E sim, o mundo anda maluco, as polémicas do face são mesmo estúpidas. Machista o Chico Buarque? Não, isso são invejas, ele é um homem lindo. Confesso que não tenho a mesma empatia com o Neil Young, mas agora também fiquei a saber pelo teu texto que é canadiano, estou curiosa, acho que o vou ouvir com atenção. Antes era apenas música que associava ao meu irmão mais velho, que era um gajo um bocado chato quando vivíamos debaixo do mesmo teto, repetia as mesmas musicas até mais não. Já agora, ele também ouvia o Bob Dylan, e só comecei a tomar atenção às suas letras por causa dos teus posts. Saúde bjs para toda a tribo

hmbf disse...

Olá Maria João. Este disco é especial, mesmo na carreira do Neil Young (que é muito mais rockeiro do que parece neste disco). Há pouco, um amigo chamava-me a atenção para a actualidade de um texto que escrevi há 4 anos sobre um western: http://universosdesfeitos-insonia.blogspot.pt/2013/08/the-furies-1950.html . De facto, vivemos tempos muito aparvalhadores.

MJLF disse...

Gostei muito de voltar a ouvir esta:
"Heart Of Gold"


I want to live,
I want to give
I've been a miner for a heart of gold.
It's these expressions
I never give
That keep me searching for a heart of gold.

And I'm getting old.
Keep me searching for a heart of gold
And I'm getting old.

I've been to Hollywood
I've been to Redwood
I crossed the ocean for a heart of gold.
I've been in my mind,
It's such a fine line
That keeps me searching for a heart of gold.

And I'm getting old.
Keeps me searching for a heart of gold
And I'm getting old.

Keep me searching for a heart of gold.
You keep me searching and I'm growing old.
Keep me searching for a heart of gold
I've been a miner for a heart of gold.

Anónimo disse...

"as delas à medida de misteriosas malas inundadas de utensílios por certo indispensáveis"
eu ela como muitas outras não eu elas estão inundadas de outros utensílios dispensáveis assim como ele e outro ele que
não
gostava de te ver passear de saias... rosa
e sapatinhos verde florescente... com prisões no cabelo... azuis
e quando sentada sempre de perninhas fechadas
aprendi a ser delicada porque os manuais e (até) os dicionários assim me ensinaram
a música é muito boa :) e o teu blog mto melhor...

Madalena(o)

hmbf disse...

Obrigadao Madalenoa.