Há uma cena no
filme de Oliver Stone sobre os The Doors que merece ser recordada. Jim
Morrison, à beira de um colapso nervoso, olha para a caixa mágica do inferno:
uma televisão (hoje, talvez olhasse para um smartphone). Vêem-se no ecrã
imagens do Vietnam, motins nas cidades norte-americanas, manifestações pelos
direitos cívicos, uma confusão de discursos, slogans, notícias, ideias feitas,
frases incendiárias, a bomba atómica, a mãe de todas as bombas, coisas dessas. Há quem diga que o verdadeiro milagre daqueles tempos foi
ter-lhes passado incólume conseguindo sobreviver-lhes. A imagem de Morrison a
olhar para a televisão dá disso boa caricatura, enquanto algures no mundo um
milhão se dirigia para o campo em busca da trip das suas vidas.
O festival de
Woodstock, no Verão de 1969, teve pouco que ver com aquilo a que hoje chamamos
festivais de Verão - feiras populares, parques de diversões, tudo devidamente arrumado,
organizado, desenhado, geometricamente distribuído por avenidas pensadas para
vender consumíveis. Sublinhe-se: «O calor sufocava, as casas de banho estavam
apinhadas, e não havia comida nem água em quantidade suficiente. Apesar disso,
o público não arredou pé». Woodstock terá sido um teste, uma espécie de combate
à loucura com loucura, uma espécie de "contraloucura" à maneira de contrafogo, o
caos suspendendo por momentos a alienação quotidiana a que a década de 1960
obrigara. O mundo estava/está em guerra por todo o lado, a música era/é um antídoto
imprescindível.
Como é sabido,
os The Doors não estiveram em Woodstock. Mas esteve o supergrupo que reunia David
Crosby (The Byrds), Stephen Stills (Buffalo Springfield), Graham Nash (The
Hollies) e Neil Young. Este foi o último a juntar-se, tendo Déjà Vu (1970)
ficado para a história como único registo gravado pelos quatro. E que registo!
Young foi convidado a juntar-se ao grupo por Stills, com quem colaborara nos Buffalo
Springfield, com a intenção de apoiar a banda ao vivo. A distribuição de
canções em registo acústico/eléctrico ficou estabelecida desde o primeiro concerto. Neil Young não terá apreciado a actuação que acabou por consagrá-los
em Woodstock, mas o futuro estava conquistado.
Podemos
interrogar-nos se Déjà Vu é um álbum de grupo ou um conjunto de canções de
quatro compositores diferentes. A interrogação não aquece nem arrefece, redunda em exercício
académico. Ouvimos no início o baixo de Gregory Reeves e percebemos quão
eufemístico é o nome do conjunto. Execuções vocais excelentes, arranjos
irrepreensíveis, solos de guitarra mágicos, órgãos de igreja, canções que são
autênticos hinos a uma época de resistência. Difícil escolher uma, talvez nem
seja aconselhável. Naquela que
levou o nome do mais famoso festival de todos os tempos, assinada por Joni
Mitchell, canta-se o que talvez devamos voltar a cantar: «I dreamed I saw the
bomber death planes / Riding shotgun in the sky, / Turning into butterflies / Above
our nation // We are stardust, we are golden / We are caught in the devils
bargain/ And we got to get ourselves back to the garden». Antes que seja tarde.
Antes que seja tarde.

Sem comentários:
Publicar um comentário