segunda-feira, 18 de setembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #18



   Há uma cena no filme de Oliver Stone sobre os The Doors que merece ser recordada. Jim Morrison, à beira de um colapso nervoso, olha para a caixa mágica do inferno: uma televisão (hoje, talvez olhasse para um smartphone). Vêem-se no ecrã imagens do Vietnam, motins nas cidades norte-americanas, manifestações pelos direitos cívicos, uma confusão de discursos, slogans, notícias, ideias feitas, frases incendiárias, a bomba atómica, a mãe de todas as bombas, coisas dessas. Há quem diga que o verdadeiro milagre daqueles tempos foi ter-lhes passado incólume conseguindo sobreviver-lhes. A imagem de Morrison a olhar para a televisão dá disso boa caricatura, enquanto algures no mundo um milhão se dirigia para o campo em busca da trip das suas vidas.
   O festival de Woodstock, no Verão de 1969, teve pouco que ver com aquilo a que hoje chamamos festivais de Verão - feiras populares, parques de diversões, tudo devidamente arrumado, organizado, desenhado, geometricamente distribuído por avenidas pensadas para vender consumíveis. Sublinhe-se: «O calor sufocava, as casas de banho estavam apinhadas, e não havia comida nem água em quantidade suficiente. Apesar disso, o público não arredou pé». Woodstock terá sido um teste, uma espécie de combate à loucura com loucura, uma espécie de "contraloucura" à maneira de contrafogo, o caos suspendendo por momentos a alienação quotidiana a que a década de 1960 obrigara. O mundo estava/está em guerra por todo o lado, a música era/é um antídoto imprescindível. 
   Como é sabido, os The Doors não estiveram em Woodstock. Mas esteve o supergrupo que reunia David Crosby (The Byrds), Stephen Stills (Buffalo Springfield), Graham Nash (The Hollies) e Neil Young. Este foi o último a juntar-se, tendo Déjà Vu (1970) ficado para a história como único registo gravado pelos quatro. E que registo! Young foi convidado a juntar-se ao grupo por Stills, com quem colaborara nos Buffalo Springfield, com a intenção de apoiar a banda ao vivo. A distribuição de canções em registo acústico/eléctrico ficou estabelecida desde o primeiro concerto. Neil Young não terá apreciado a actuação que acabou por consagrá-los em Woodstock, mas o futuro estava conquistado.
   Podemos interrogar-nos se Déjà Vu é um álbum de grupo ou um conjunto de canções de quatro compositores diferentes. A interrogação não aquece nem arrefece, redunda em exercício académico. Ouvimos no início o baixo de Gregory Reeves e percebemos quão eufemístico é o nome do conjunto. Execuções vocais excelentes, arranjos irrepreensíveis, solos de guitarra mágicos, órgãos de igreja, canções que são autênticos hinos a uma época de resistência. Difícil escolher uma, talvez nem seja aconselhável. Naquela que levou o nome do mais famoso festival de todos os tempos, assinada por Joni Mitchell, canta-se o que talvez devamos voltar a cantar: «I dreamed I saw the bomber death planes / Riding shotgun in the sky, / Turning into butterflies / Above our nation // We are stardust, we are golden / We are caught in the devils bargain/ And we got to get ourselves back to the garden». Antes que seja tarde. Antes que seja tarde.


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