terça-feira, 12 de setembro de 2017

DEGUSTAÇÃO

Não nasci para ser gostado, é de sangue e mau feitio, tenho artroses, corcundas, sou antipático, há quem me julgue mais pelo que sou do que pelo que fui, há quem me julgue mais pelo que pareço, mas no geral passo despercebido, ao lado. 
Tenho esta espécie de talento para ir falhando, embora aqui e acolá decalcado, mais nas intenções do que nos modos, respiro uma certa altivez que a distância confere. 
Também não gosto de mim, o que é meio caminho andado. 
Devo ter cromossomas de vampiro, odeio espelhos, desde pequeno que os evito, e nas águas jamais procurei o rosto senão para lavá-lo da sujidade com que as mãos mancham à minha volta a passagem. 
Há quem nasça com o cu voltado para a lua, há quem faça pela sorte, eu nasci simplesmente com o cu algures entalado entre tronco e pernas, serve-me para o mesmo que serve a todos, mas nada de degustações. 
Aqui só pousará a mão quem por sorte venha a saber-me o mais hipócrita dos cínicos.
Convém-me a tortura, digamos, de saber no alto da torre os mais vigilantes. 
Sem cálculo, dou um passo a seguir ao outro na direcção única do futuro: a morte trará paz até a quem nunca foi soldado, sondado, soltado, sonhado. 

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