terça-feira, 31 de outubro de 2017

O NOME DE UM DOS OGRES*

   Jaime Marta Soares já foi tudo e já esteve em todo o lado: foi deputado do PSD, presidente da Câmara de Vila Nova de Poiares durante 40 anos (segundo o seu sucessor, abandonou o posto em 2013 com uma dívida de 30 milhões de euros), comandante dos bombeiros de Poiares, presidente da assembleia geral do Sporting e de um sortido de outras assembleias gerais, que incluem, segundo um perfil catita elaborado pelo jornal i, “filarmónicas, centros de convívio e aeroclubes”, e ainda teve tempo para ser fundador e director da Confraria da Chanfana, com o objectivo de “contribuir para a certificação deste prato, de origens tão remotas”. Parece muita coisa — e é. Contudo, ainda falta algo no currículo de Jaime Marta Soares: ser general. O primeiro general dos bombeiros portugueses.
   Jaime Marta Soares não é uma personagem de primeira linha da vida pública portuguesa, mas é uma personagem absolutamente emblemática da vida política portuguesa. As pessoas olham para ele e imaginam-no de mangueira na mão desde os 20 anos de idade. Não se enganem: Marta Soares é apenas mais um dos milhares de lobbyistas que pululam por este país, e cujo trabalho consiste em tentar confundir o interesse público com o interesse da sua corporação. Ele não é nenhum representante da sociedade civil, nem do esforço de milhares de bombeiros voluntários. É um político profissional, com várias voltas ao circuito que afundou o país: primeira curva, Parlamento; segunda curva, poder autárquico; terceira curva, futebol; quarta curva, empresas ou instituições cujo financiamento é dependente do poder político. Marta Soares e muitos como ele deram milhares de voltas a esta pista ao longo da vida, uns acumulando poder, outros acumulando dinheiro, outros as duas coisas em simultâneo.

João Miguel Tavares, no Público.

Quando um tipo de direita nos tira as palavras da boca, isso é… algo confrangedor. Mas ainda bem que foi um tipo de direita a dizê-lo. O asterisco do título remete para o post abaixo. 

BOM VENTO

Se Portugal defende o direito à auto-determinação dos povos, princípio basilar do direito democrático e da carta das Nações Unidas, não podia nem devia assobiar para o lado quando esse princípio está posto em causa, e há mil e uma maneira de fazê-lo diplomaticamente. (...)

Ricardo António Alves, no Abencerragem. Continuar a ler: aqui.

LEITORA QUESTIONA LEITORA

Por que é que os velhos, que já são velhos, compram todos o "Chegar Novo a Velho"? 

ESTADO DA NAÇÃO


Os ogres à volta da fogueira têm nome, não vão aprender coisas de sonho e de verdade. Já sabem como se cozinha uma bandeira e não lhes importa a liberdade. Não suportam a geringonça e vão fazer tudo o que estiver ao seu alcance para a comerem de fricassé. Andam histéricos com cargos e relações de poder, em tudo vêem apenas estatuto. No fundo da panela, o ratão tenta convencê-los com o canto da sereia: todos juntos, todos juntos... Mas os ogres grunham, não ouvem, querem guerra. Eu sempre disse que a paz deste país ia podre. Um dia que alguém nos invada, tipo uma horda de Madonnas, seremos todos madeirenses de gema. Só que o arquipélago não chegará para todos. Tão gordos que estaremos, não caberemos. Valha-nos que ninguém queira invadir isto, esta ingovernabilidade congénita. O meu desejo é que sejamos tenrinhos, que não macemos as cremalheiras uns aos outros enquanto nos mastigamos. Ó ogres.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

VIVA O CAPITALISMO

Vlada Dzyuba, de 14 anos, morreu na sexta-feira, ao fim de dois dias em coma, depois de se ter sentido mal num desfile de moda em Xangai, na China. A mãe conta que a filha lhe ligava várias vezes a revelar o cansaço extremo, mas a agência de moda chinesa garante que a jovem era feliz e realizada.

PLAY HOUSE


Do dramaturgo britânico Martin Crimp (n. 1956) já o Teatro da Rainha havia encenado Definitivamente as Bahamas. Play House mantém com essa peça uma óbvia relação. Em ambas assistimos aos desassossegos na vida de um casal. Porém, enquanto na primeira o homem e a mulher têm a pesar sobre si o desgaste da relação, em Play House é um jovem casal que encontramos em cena. O desconcerto desta peça, para quem tenha visto a primeira, começa precisamente na sensação que nos oferece de intróito à desventura. É como se Crimp nos perguntasse: querem ver como tudo isto começou? E mostra-nos tudo como se estivéssemos a andar de carrossel, um carrossel com cerca de uma dúzia de cenas onde vamos do deslumbramento inicial ao dissabor da discórdia, da paixão ao enfado, do entusiasmo ao tédio e à monotonia, num jogo de sobrevivência amorosa condenado a um fracasso que é sempre o de quem começa a cobrar ao outro a vida que tem por a ter em dependência alheia. 

O aspecto mais notável de Play House é a vã tentativa que nos oferece de uma eventual compreensão da individualidade. A vida a dois como fusão, diz Onfray, só gera confusão. A máxima também se aplica aqui.  Tal confusão conhece o seu princípio de deterioração quando a individualidade se esgota, quando o eu passa a ser exclusivamente em função do outro. Porque, mais tarde ou mais cedo, o eu vai cobrar a despesa. 

Crimp é inteligente no modo de superar a previsibilidade num texto algo disposto à monotonia. Na encenação levada a cabo pelo Teatro da Rainha essa monotonia foi ultrapassada por uma competente gestão da energia que os dois jovens actores colocam em palco, ficando patentes, a partir de certa altura, a raiva contida, os gestos de contenção marcados por frustrações implícitas na expressão de fantasias por concretizar. E há as caixas, desde o início, para as quais ambos olham como se olhassem para o vazio. Dessas caixas de Pandora saem presentes envenenados. 

Logo na cena inicial, o romantismo do quadro é descontinuado pelo conteúdo de uma dessas caixas. Não sabemos o que tem dentro. Sabemos apenas que se trata de um presente dela para ele, e somos surpreendidos quando ele abre a caixa e interroga-se com espanto: O que é isto? Merda de cão? Estranha maneira de começar. O processo de aprendizagem da vida conjugal aqui retratado encontra na personagem feminina um autêntico teste de resistência: ela cospe-lhe, bate-lhe, humilha-o... mas ama-o tanto quanto anseia sentir-se por ele amada. No final, diz-lhe que se lhe deu. Ele mente-lhe, sobretudo por passar o tempo a mentir a si próprio, julgando ser, pretendendo ser, o que em boa verdade não é. 

O vazio das caixas é, afinal, o vazio daquelas vidas que parecem surpreender os vizinhos no começo e acabam a querer ser pelos vizinhos surpreendidas. Sem efeito, porque então já a solidão demarcou o pântano onde a paixão se afundou. 

Há um pessimismo doméstico em Crimp que me agrada, parece-me honesto, autêntico. Ao contrário das suas personagens, que, encarnando os destroços humanos de uma época alienante, vivem na mais desastrosa das ilusões uma mentira que as corrói e empurra para o vácuo. São personagens naturalistas, por assim dizer. Mas o seu naturalismo é de uma desesperante alienação.

EPIFANIAS #31

31

   Aqui vamos juntos, caminheiros; eis-nos alojados, entre ruas intrincadas, de perto protegidos pela noite e pelo silêncio. Em afeição descansamos juntos, satisfeitos, não mais lembrando os desvios dos caminhos pelos quais viemos. O que se move sobre mim como uma inundação de escuridão subtil e murmurante, feroz e apaixonada com um movimento indecente dos lombos? O que salta de mim, chorando em resposta, como de águia para águia no meio do ar, chorando pelo triunfo, chorando por um iníquo abandono?

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

UM PARVALHÃO

Um parvalhão é só um parvalhão, pelo que não irei linkar o parvalhão. Mas um parvalhão capaz de chamar "crime da moda" à violência doméstica já não é apenas um parvalhão, é um demente. Cheguei ao demente através de Ourique

domingo, 29 de outubro de 2017

M&M'S


A televisão está ligada. Fala Marques Mendes, o M&M’s. Hoje, uma cliente pegava no livro do Sócrates, e num outro sobre o Sócrates, e num outro sobre a quadrilha do Sócrates, todos estrategicamente arrumados uns junto aos outros, tantos, imensos, inesgotáveis, e perguntava-me: mas quem é que compra isto? Não sei, minha senhora. Não sei. Olhe, ali na SIC está a falar um M&M’s, há anos que fala, entre pelas nossas casas dentro todos os domingos. Presumo que alguém o ouça, presumo. Quem é que ouve esta gente? Quem é que os lê? Às vezes até são eleitos Presidente e mostram os dentes e dão abraços e tornam-se intocáveis porque distribuem beijinhos a granel. Não sei, não sei quem os lê, não sei quem os ouve. Mas é mesmo deprimente saber que há quem o faça. 

QUERO O MEU SUBSÍDIO

O Natal é quando um homem quiser. Pode ser a 25 de Outubro, porque fica mais barato aplicar os enfeites. São os caprichos do mercado. Quanto mais Natal no Natal, mais caro. Talvez devamos pensar em começar a cortar os pinheiros logo em Agosto, poupávamos nos incêndios. Outra hipótese é darmos consequência à necessidade imperiosa de gerar pontes. O Presidente Abraçadeira, a Rainha dos Kiwis, todos esses enfadonhos que passam a vida a encher a boca com a necessidade de consensos, falando da necessidade de criar pontes entre as empresas e a economia social, criar pontes entre a agricultura familiar e biológica, criar pontes entre países e regiões, entre partidos, entre salas de aula e bibliotecas, enfim, é ir ao Google, ainda não se lembraram desta ponte entre o Carnaval e o Natal que se afirma cada vez mais necessária, inevitável, diria mesmo vital para as nossas vidas. Lá no shopping já temos pendurantes, árvore, iluminações, as luzinhas estão de regresso e, com elas, a alegria de viver. Até já temos o cadeirão do Santa Claus. Renas nunca nos faltaram, nem vacas, nem cabras, nem burros. A 25 de Outubro, debaixo de um calor tórrido, insistimos neste dispêndio de energia a bem da economia nacional. Sai mais barato, explicam-me, montar a árvore em Outubro. Se o menino tivesse nascido em Outubro, ergueríamos presépios em Agosto. Por mim, seria o ano todo nas palhas deitado. Só não percebo, não entendo, não compreendo, por que não me pagaram já o subsídio de Natal. Ou é para levar isto a sério ou não. Se o Natal está aí, paguem-me o subsídio. Eu mereço.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

O CAÇADOR DE HISTÓRIAS

A história por detrás de O Caçador de Histórias (Antígona, Setembro de 2017) é contada por Carlos E. Díaz na nota da edição argentina. Eduardo Galeano (n. 1940 – m. 2015) trabalhou no livro entre os anos de 2012 e 2013, tendo a edição sido retardada devido ao precário estado de saúde do autor. À secção de histórias coligidas sob o título genérico Moinhos de Tempo, foram entretanto acrescentados mais três conjuntos: Os Contos Contam, Prontuário Quis, Quero, Queria. O resultado é impressionante, tanto pela extensão como pelas características que o volume acaba por assumir. O Caçador de Histórias não é uma simples recolha de contos. Na verdade, estamos perante uma súmula do pensamento a que Galeano habitou os seus leitores. Em defesa dos desprotegidos, em defesa da natureza e de um ecologismo social, contra o capitalismo selvagem e denunciando as repercussões devastadoras do mundo globalizado, nestas histórias o anedótico mistura-se com a fábula, memórias pessoais convivem com mitos, factos e devaneios servem uma mesma causa enquanto exemplos morais de uma demanda política: tornar visível o invisível, dar voz a quem a não tem. Galeano revolta-se contra a impunidade dos criminosos, indigna-se com as injustiças sociais e consequentes misérias de um mundo desequilibrado, denuncia e acusa atrocidades através de pequenos textos cuja força maior é a de serem exemplo simbólico do tema em discussão. Um desses temas, dos mais recorrentes, é o contraste entre o mundo dito civilizado e os costumes indígenas, tido como bárbaros pela arrogância do colonizador. Exemplo:

COSTUMES  BÁRBAROS

   Os conquistadores britânicos ficaram com os olhos esbugalhados de assombro.
   Eles provinham de uma nação civilizada, onde as mulheres eram propriedade dos maridos e lhes deviam obediência, como a Bíblia mandava, mas na América foram encontrar um mundo às avessas.
   As índias iroquesas e outras revelavam-se suspeitas de libertinagem. Os maridos nem sequer tinham o direito de castigar as mulheres que lhes pertenciam. Elas tinham opiniões próprias e bens próprios, direito ao divórcio e direito de voto nas decisões da comunidade.
   Os brancos invasores já não conseguiam dormir em paz: os costumes das selvagens pagãs podiam contagiar-lhes as mulheres.

A ironia e o humor são ferramentas úteis a serviço de uma desconstrução dos preconceitos culturais, ao mesmo tempo que servem para desmascarar os estereótipos e o etnocentrismo cultural que de há muito contaminam o modo de olhar o outro, o diferente, o que se opõe não por ser oposto, mas por ser desviante. Num dos textos finais, de índole autobiográfica, Galeano revela que uma das razões que mais o influenciaram a ser escritor foi a de dar a ver a quem não teve essa oportunidade. «Escrever cansa, mas consola», afirma. Há um espírito de missão que atravessa os seus textos, simples mas penetrantes, perspicazes e inteligentes, textos que despoluem o pensamento com uma extraordinária capacidade de síntese. «Os anónimos contadores de histórias é que me ensinaram tudo o que sei», confessa. E se o pouco ensino formal que teve deu-lhe, pelo menos, o saber ler e escrever, a cultura do saber ouvir terá sido, porventura, das que mais beneficiaram o seu enormíssimo talento. Não importa o que de mentira ou de verdade exista numa destas histórias, conquanto a sua moral seja sempre verdadeira. Importa a mensagem subentendida no texto, essa impõe-se que seja verdadeira. E para ser verdadeira implica que seja eticamente irrepreensível. Veja-se como a mensagem ecológica ganha numa pequena história a dimensão de uma causa global:

UMA NAÇÃO CHAMADA LIXO

   Em 1997, o navegador Charles Moore descobriu a sul do oceano Pacífico um novo arquipélago, feito de lixo, que já era três vezes maior do que toda a Espanha.
   As cinco ilhas que formam esta imensa lixeira alimenta-se de plástico, pneus usados, ferro-velho, resíduos industriais e minerais, e muitíssimos outros desperdícios que a civilização atira das cidades para o mar largo.
   No ano de 2013, iniciou-se uma campanha para outorgar a categoria de Estado a esta nova nação, que bem poderia ter bandeira própria.

Eduardo Galeano fala ao leitor com o tom dos grandes mestres, num livro que é também um arquivo de factos contra o esquecimento. A sua simplicidade não provém de uma simplificação dos problemas ou de um simplismo ingénuo, ela é a consequência de uma vida de viagens exteriores e interiores, viagens que lhe ofereceram retratos do mundo ao mesmo tempo que o obrigaram a pensar-se a si próprio nesse mesmo mundo. A sua simplicidade é sinal de uma maturidade que não está ao alcance de todos. Só dos melhores, dos que respiram e dão a respirar poesia:

AS NUVENS

   De noite, quando ninguém as vê, as nuvens descem ao rio.
   Inclinadas sobre ele, recolhem a água que mais tarde irá chover sobre a terra.
   Às vezes, em plena tarefa, caem algumas nuvens, e o rio leva-as.
   Quando chega a manhã, todos podem ver passar as nuvens caídas.
   Elas derivam à tona das águas, lentos barquinhos de algodão, fitando o céu.



Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017.

UM POEMA DE SYLVIA PLATH




LORELEI

Não existe nenhuma noite para nos afogarmos:
lua cheia, um rio correndo
negro sob um suave reflexo de espelho,

névoas azuis da água gotejando
de malha para malha como redes de pesca
embora os pescadores durmam,

torres sólidas do castelo
multiplicando-se num espelho
todo ele silêncio. Mas estas formas flutuam

em minha direcção, perturbando o rosto
da quietude. Do nadir
erguem os seus membros plenos

de opulência, cabelos mais pesados
que o mármore esculpido. Cantam
um mundo mais cheio e límpido

do que aquele que existe. Irmãs, a vossa canção
traz uma carga demasiado pesada
para ser escutada pelas espirais do ouvido,

aqui, num país onde um sensato
senhor governa equilibradamente.
Ao serem perturbadas pela harmonia

que existe além da ordem deste mundo,
as vossas vozes fazem um cerco. Estais alojadas
nos recifes em declive do pesadelo,

prometendo um abrigo certo;
de dia, estendem-se para além dos limites
da inércia, das saliências

que existem nas altas janelas. Pior
ainda que esta canção de enlouquecer
é o vosso silêncio. Na origem

do apelo do vosso coração gelado
— a embriaguez das grandes profundezas.
Ó rio, como vejo serem arrastadas

lá no fundo do teu curso de prata,
aquelas grandes deusas da paz.
Pedra, pedra, leva-me lá para baixo.


Sylvia Plath (n. Boston, EUA, 27 de Outubro de 1932 - m. Londres, 11 de Fevereiro de 1963), in Pela Água, trad. Maria de Lourdes Guimarães, Assírio & Alvim, 2.ª edição, 2000, pp. 15-17.

MIKE TYSON PARA PRINCIPIANTES

 (Primeiro Round)

   Sou amigo do Rui Costa. Quando, há cinco anos, o seu pai me telefonou perguntando se sabia dele, não temi o pior. Mas o pior acabou por se confirmar. São questões que agora não interessam, ainda que possa interessar a quem não tenha conhecido o Rui saber quão imprevisível ele conseguia ser. Foram circunstâncias imprevisíveis as que nos separaram, como foram as que nos aproximaram - já lá vão uns treze anos. Eu tinha um weblog exclusivamente dedicado à poesia, o Rui contactou-me por e-mail questionando-me sobre a possibilidade de divulgar nesse espaço alguns dos seus poemas. “O Pão” foi o primeiro poema que me fez chegar, sendo também, por mera coincidência, o primeiro poema desta antologia. Não posso garantir o que senti quando li esse poema pela primeira vez, mais sei o que sinto sempre que releio aqueles primeiros versos: «Há pessoas que amam / com os dedos todos sobre a mesa. / Aquecem o pão com o suor do rosto / e quando as perdemos estão sempre / ao nosso lado» (p. 33). Sinto que o Rui Costa é um grande poeta e que, não só por isso, mas também por isso, continua a meu lado.

   Ao reler esta antologia, como tantas vezes tenho relido muitos dos textos que deixou publicados e outros que me confiou, voltei a estar na presença de alguém que levava a sua arte a sério — não no sentido de a pretender empolar, antes no mais nobre sentido da seriedade que certas coisas merecem. É esse sentido o da exigência. Certas coisas na vida obrigam-nos a ser exigentes, aquilo que mais amamos reivindica tal exigência. E o Rui amava a poesia, gostava de falar sobre poesia, gostava de discuti-la, de pensá-la. Esse exercício do pensamento reflecte-se nos poemas que escreveu, nas estórias, nos romances. Não como provocação, mas sim como desafio. Talvez por isso os seus textos possam, por vezes, parecer-nos complexos e até mesmo impenetráveis.

   Uma das características que mais tenho encontrado atribuídas ao Rui Costa é a de ter sido um provocador. No nosso país, normalmente atribui-se tal característica a quem recusa pensar por cabeça alheia. O Rui não era um provocador, pelo menos na vulgar noção de pretender chamar sobre si atenções para as quais se estava nas tintas. Era, pelo contrário, um instigador da discussão, já que tinha cabeça para pensar e dava-lhe uso. Como a certa altura ironiza no poema “Espanha”, tinha uma grande cabeça: «Dizem que eu tenho a cabeça demasiado grande, o meu amigo Angel costumava dizer, um dia emprestaram-me um capacete para andar de mota e tive que levá-lo no braço» (p. 123). Pensar pela própria cabeça é um risco, sobretudo por quase sempre acabarmos isolados do resto do mundo. E é um risco por nos expor aos acidentes, por nos deixar desprotegidos, isto é, exclusivamente entregues à nossa capacidade de pensar livremente o mundo.

   Ora, é para o mundo que se concebem antologias de poemas como esta. Facilmente se imaginará como para cada um dos implicados na concepção deste livro estava uma necessidade. A necessidade é muito mais forte do que a vontade. Passados cinco anos sobre a trágica morte do Rui, impunha-se que as suas palavras voltassem a estar disponíveis, que, deste modo muito particular que é o dos “homens de palavras”, o próprio Rui voltasse a estar à nossa disposição.

   O André Corrêa de Sá, a quem coube coordenar os trabalhos, adverte para o «tom deliberadamente pessoal» da leitura aqui proposta. Seria desumano exigir outro tom. No entanto, convém esclarecer desde já que o título Mike Tyson Para Principiantes é o de uma antologia que o próprio Rui Costa deixou preparada. Diferente desta, é certo, mas com sugestões de algum modo acolhidas e respeitadas. Nesta se coligiram, em três partes distintas, poemas publicados em vida misturados com outros até agora inéditos. Aparecem sem qualquer ordem cronológica, o que está de acordo tanto com o que o Rui tinha deixado preparado como com o que levou a cabo numa outra antologia bilingue publicada em vida com o título O pequeno-almoço de Carla Bruni. A origem dos poemas é diversa, vem explicada no final do livro, e não vale a pena inventariá-la aqui, conquanto se torne claro para todos estarmos perante um livro que oferece uma parcela considerável do labor poético que o Rui deixou e se mantinha até hoje publicamente desconhecido.

   Nas três partes que compõem esta antologia podemos vislumbrar um movimento que obedece à alusão pugilística do título, sendo claro para o leitor que o ringue onde as palavras dançam é o da própria vida. Nesse ringue, a beleza da dança mistura-se com a violência, os corpos são objecto de contemplação, há um jogo cujas regras parecem definidas pelo caos e entre assaltos vários termina-se, tal como sempre sucede na vida, ou por inconsciência ou por desistência.

   Já nos clássicos encontramos o boxe como motivo poético. Píndaro, nas “Odes Olímpicas”, dedica a um vencedor de boxe os seguintes versos: «A nuvem do esquecimento não tem fronteiras / e paira sobre muitas coisas». Também sobre muitas coisas pairam as nuvens na poesia do Rui Costa, algo evidente logo no premiado livro de estreia A Nuvem Prateada das Pessoas Graves. No poema homónimo as pessoas graves são as que “caminham com o pescoço inclinado para baixo”, tocando primeiro com os olhos o caminho que os pés confirmarão. São, portanto, pessoas precavidas, cautelosas, são pessoas cuidadosas. Mas por vezes elas vêem o céu, um céu que fica no outro lado do mundo onde as pessoas graves caminham. E então arrastam sobre si uma nuvem prateada, uma espécie de sombra. Daí, talvez, que nos pareçam sombrias. Talvez caiba ao poeta a missão de iluminar-lhes o caminho desconcertando-lhes a gravidade.

   O primeiro verso do poema “A Construção da Luz” diz-nos: “Toda a luz é subterrânea” (p. 137). Esta luz está em conformidade com o céu das pessoas graves: “Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo / dos pés e por isso do outro lado do mundo” (p. 41). Este outro lado do mundo, subterrâneo, convoca uma das obsessões poéticas do Rui. Ela surge igualmente no romance A Resistência dos Materiais, cujo palco é uma cidade organizada em função dos poderosíssimos dados decorrentes de uma investigação científica acerca da propriedade das sombras. Somos levados a pensar na Alegoria da Caverna, embora neste caso as propriedades das sombras se confundam com a verdade que escapa aos agentes humanos. Mas podemos também pensar na morte enquanto luz subterrânea, enquanto princípio fundador de uma tomada de consciência acerca da existência humana.

   A luz é uma obsessão nesta poesia desde a primeira hora. O poema “Humano”, do primeiro livro, termina com o verso “deste momento onde parimos luz” (p. 35). O Breve Ensaio Sobre a Potência, último dos seus livros publicados, é um poema-sequência que começa assim: “a luz é a metáfora do verbo” (p. 171). Luz e sombra parecem colocar em confronto dois mundos, são a dança executada no ringue da vida com resultados inesperados.

   Evitemos, porém, leituras estritamente simbólicas ou exageradamente metafóricas desta relação da luz com a obscuridade numa poesia mais próxima da materialidade dos corpos do que por vezes aparenta. “Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada, / visito as mulheres que lavam e que cantam” (p. 38), diz-se no poema “A Matéria do Ar”. Como sugere o último fragmento de Breve Ensaio Sobre a Potência, a treva e a luz são uma espécie de balizas entre as quais o poema emerge como um jogo de linguagem. Expressões como “parir luz” enviam-nos para outras como “dar à luz”, isto é, conceber, fazer nascer, criar, gerar. A luz enquanto metáfora de verbo ocupa aqui o lugar da acção, ou seja, da criação. E criar, no contexto poético que nos une, significa transformar. Talvez este seja o lado mais romântico de uma poesia onde a vontade de transformar surge invariavelmente traída pela noção de um conservadorismo idiossincrático que trava, obstaculiza, impede a transformação.

   A transformação é, em si mesma, um fenómeno violento. O acto de parir, dar à luz, é um acto violento, crescer, mudar, é estar sujeito à violência da transformação. No Breve Ensaio Sobre a Potência estas questões surgem expostas de um modo especialmente belo. Do ponto de vista aristotélico, como bem notou Rui Lage, a potência está associada à mudança. Isto é, os seres sujeitos ao devir são seres em potência, mutáveis, instáveis, contingentes como toda a matéria o é. O amor, outro dos temas centrais nesta poesia, revela-se também ele violento, na medida em que gera transformação no ser. Não estamos, portanto, no campo de um amor absoluto, transcendental, mas sim no campo de um amor, se quiserem, erótico, transformador, material. Pegando nas palavras da Margarida Vale de Gato: “Na poesia de Rui Costa, que se acomoda bem ao mote Mike Tyson para Principiantes, a violência é o que abala a distância dos corpos e não raro se abre à (re)percussão amorosa”.

   Note-se como no poema-sequência “Faca de Incêndio”, um dos que o Rui me dizia serem dos mais representativos da sua poesia, se associa um objecto cortante, transformador, a um fenómeno químico, também ele transformador, na circunstância do que aparenta ser uma história de amor entre um homem e uma mulher ameaçados tanto por forças externas como pela sua própria condição contingencial. Assim sendo, nem a luz é símbolo de vida nem as trevas simbolizam o mal nesta poesia. São ambas parte integrante de uma realidade orgânica, material, em contínua transformação.

   Podemos olhar para a poesia de Rui Costa como uma máquina de baralhar sentidos de que resultam metáforas vivas, numa linguagem poética que, parafraseando Paul Ricoeur, “enquanto inversão da linguagem comum, não se dirige para fora mas para dentro, em direcção a um interior que nada mais é do que o estado de espírito estruturado e expresso por um poema”. Tal a estância 7 do poema “Versos de Amor Pós-Modernos”, de onde saiu o título As Limitações do Amor são Infinitas: “digo o contrário / do que quero / para que no espelho / a imagem não surja / invertida” (p. 158). Já no poema intitulado “Narciso”, o mito grego surge subvertido na sua lógica: “No rio a tua imagem parece menos tua: / (…) Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:” (p. 152). A lógica invertida, as imagens absurdas, a sintaxe estropiada, as incongruências, a pontuação por vezes anómala, a inclinação para o incoerente, fazem parte de um jogo alquímico que torna a linguagem do poema ao mesmo tempo sedutora e agressiva. “Alquímica” é justamente o título de um dos poemas iniciais, onde percebemos haver nesta poesia um teste de resistência ao material por excelência do pensamento, isto é, a linguagem.

   As sombras e a ideia de reflexo enquanto verdade podem também ser entendidas como tomada de consciência das limitações humanas que, tal como as do amor, são infinitas. O conhecimento do mundo tem as suas limitações. Os limites do meu mundo são os da minha linguagem, ou vice-versa, como diria Wittgenstein. Gostava, neste sentido, e antes de terminar, de chamar a atenção para outra constante na poesia do Rui. Refiro-me à recorrência da cor azul, óbvia nos poemas “Elegia Azul” e “Homem Azul”, incluídos nesta antologia, no Homem Azul que surge enquanto personagem do romance A Resistência dos Materiais ou na micronarrativa “O rapaz que queria ser azul”.

   Encontramos ainda um “buraco azul” no poema "Kosher" ou as mãos que se azulam em “A Construção da Luz”. Num desafio dirigido aos leitores do weblog Insónia, que cumplicemente alimentámos, o Rui pedia, a 21 de Setembro de 2005, que lhe enviassem “realidade azul”. No inédito “L-E-T-R-A-S Para Sigur Rós”, publicado no mesmo weblog, refere-se a “um gás azul”. Ainda no Insónia, publicou a determinada altura algumas fotografias com os títulos “Buraco Azul” e “Corpo a Sair do Azul”. No poema “Cantilena” damos com “uma garganta toda azul a escorregar no céu”. “A flor é uma condensação aquática de semblante / azul” (p. 164), lê-se no poema “A Flor”. Em “A Música”, publicado numa antologia de homenagem a Fiama Hasse Pais Brandão, há uma estrofe que se destaca das demais: “Há poetas azuis que julgam que a / coerência é um pardal azul (da goela / até aos pés). Normalmente limpam os óculos / com coerência, em vez de com (enfim) / e depois vêem o mesmo pardal, a todas / as horas do dia e da noite, sentado azul- / mente sobre o seu nariz azul” (p. 85).

   O azul, explica-nos Jean Chevalier no “Dicionário dos Símbolos”, é a mais profunda das cores: nele o olhar penetra sem encontrar qualquer obstáculo e perde-se no infinito, como que perante uma perpétua fuga da cor”. Tenho pensado muito nesta relação do Rui com o azul. Questiono-me se não seria o azul para ele o que para outros assume a forma de transcendência, uma ideia de infinito onde o pensamento se liberta das leis e deixa de estar sujeito aos acidentes que testam essas mesmas leis. No azul desaparecem as limitações, desaparecem os constrangimentos, todo ele é a profundidade onde o nirvana acontece. O azul não seria uma espécie de libertação, mas seria a liberdade ela mesma, uma liberdade na qual os olhos se perdem quando mergulham na vastidão de um buraco azul ou no infinito celeste.

   O Homem Azul de A Resistência dos Materiais é-nos apresentado como alguém que “despercebia o mundo”, o que parece coincidir com o projecto de “descompreender o mundo” proposto pela sua poesia. O azul seria, assim, “o caminho do devaneio” que coloca o poeta numa zona de risco. Essa zona é a da dúvida, é a do confronto, é a de uma vontade que impele o olhar para lá das construções que lhe são impostas e irrompe pelo desconhecido, pelos territórios do impossível, desbravando terreno na direcção de uma outra ideia de verdade. A poesia do Rui coloca-nos no ringue da vida para nos desafiar a olhar para o mundo de um modo azul, com a profundidade de quem não tem muros nem paredes nem grades nem impedimentos a cercearem-lhe o pensamento.

   O azul, diz-se, é também a cor da verdade, na sua profundidade ele distancia-nos do óbvio oferecendo ao olhar outras perspectivas, porventura ficcionais, porventura metafóricas. Como se afirma no supracitado poema com o título “Espanha”, “A metáfora é o azimute de um escritor que não come tudo o que há para comer” (p. 122). Não estou certo de que assim seja este azul, mas quero acreditar haver nele uma qualquer forma de desprendimento que se confunde com a liberdade inerente à própria poesia.


   São poucas as coisas em que acredito. Acredito que amo as minhas filhas, acredito que vou morrer, acredito igualmente que as palavras deixadas pelo Rui Costa merecem estar à disposição dos leitores. Nem luz nem sombra, na profundidade de um azul libertador como sói ser o da melhor poesia. 

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

HOJE, EM LISBOA

(clique na imagem para ver melhor)

POESIA PARA O JUIZ

Adelaide Ivánova (n. 1982) é uma jovem poeta brasileira de quem foi publicado em Portugal um livro com o título O Martelo (Douda Correria, Fevereiro 2016), objecto com uma carga simbólica sugestiva que tanto pode remeter para a força revolucionária do proletariado como para o poder de sentenciar nas mãos de um juiz. Para o caso, esta última imagem interessa-nos mais.
No livro de Ivánova a mulher é o centro das atenções, a mulher no lugar de vítima, a mulher violentada, abusada. Aparecem então a figura da delegada, que não leva a mulher a sério, a escrivã a fazer perguntas como se houvesse matemática e geometria numa situação de estupro, os médicos que examinam a mulher enquanto se questionam se vão beber um copo depois do expediente… Aparece também um juiz.
Recentemente, assistimos no nosso país a mais um triste exemplo do que é possível acontecer nos tribunais da República. Um acórdão do Tribunal da Relação do Porto, ao que julgo saber assinado por um juiz e por uma juíza, justificam com o adultério praticado pela vítima uma brutal situação de violência doméstica. Cito: «Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem». Questiono-me se agredir uma mulher à mocada não será um gravíssimo atentado tanto à honra como à saúde ou integridade física da mulher. Pelos vistos, a honra tem nestes casos um valor que a vida não tem. O que é, no mínimo, uma peculiar hierarquização de valores.
Mas o acórdão vai mais longe, referindo sociedades onde a mulher adúltera é lapidada até à morte e citando a Bíblia. Qualquer pessoa entende a estupidez disto tudo, não sendo sequer necessário acusar de parcialidade ou literalidade o juiz que cita a Bíblia como se a Bíblia fosse um manual de coerência cívica (mais ainda num estado laico). Basta pensar que as tais sociedades aludidas são aquelas contra as quais todos nós, pelo menos assim julgava eu, nos unimos em termos de repúdio e de indignação. Essas sociedades são para nós uma personificação do mal, não servem como exemplo de boas práticas. Não está em causa compreender a dor do traído, está em causa ser injustificável essa dor servir de pretexto para a agressão do traidor.
Voltando a Adelaide Ivánova, entre vários dos seus poemas que poderíamos sugerir para citação num futuro acórdão do Tribunal da Relação do Porto, há um especialmente revelador. Envia-se daqui, ao cuidado do juiz e da juíza que assinaram a aberração supradita:

a sentença
      duas releituras de duas odes de ricardo reis

I
pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
           um homem foi hoje absolvido.

se a justiça é cega, só o xampu é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
           antes encham-me de vinho

a taça, qu’inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
            a mulher é culpada.

II
pese do fiel juiz igual sentença
em cada pobre homem, que não há motivo
para tanto. não fiz mal nenhum à mulher e
             foi grande meu espanto

quando ela se ofendeu. exagerada, agora
reclama, fez denúncia e drama, mas na hora
nem se mexeu. culpa é dela: encheu à brava
             a garbosa cara.

se a justiça é cega, só a topeira é sábia.
celebro abonançado o evidente indulto
pois sou apenas homem, não um monstro! leixai
             à mulher o trauma.



Adelaide Ivánova (n. Recife, Pernambuco, 1982), in O Martelo, Douda Correira, Fevereiro de 2016, s/p. 

VEM NA ANTOLOGIA


A MINHA GERAÇÃO


Não é preciso fazerem nada.
As coisas fazem-se sozinhas, as pessoas falam e as construções
acontecem. O filho do político também é político. Trata-se de
mera coincidência: foi convidado enquanto esperava o pai junto
à máquina de fotocópias. Por certo levava consigo o documento
de identificação — preparava-se para tirar uma fotocópia da sua
certidão de doutoramento — e aproveitou para tirar uma fotocópia
de tudo o que tinha no bolso, incluindo do próprio bolso, vazio,
porque o filho de um político deve ser exemplo de pobreza.

Foi então que o sol veio, em raio, montado por coriscos sibelinos.
Todos viram nisto um sinal — uma anunciação — e uma lágrima aflorou
ao canto de um olho. Um discurso foi feito, e vegetais distribuídos — uma
cenoura por cada advérbio, duas beringelas por cada palavra correctamente
pronunciada — e no fim a música foi chamada a abrilhantar o prodígio.
Falou-se um pouco dos indicadores económicos — a situação do país
ainda não é perfeita, mas com esta nova geração de homens a coisa
vai lá. É importante que o filho do político tenha participado em 
vindimas, ainda adolescente, para saber o que custa a vida dos outros.

Falta falarmos das vacas, stressadas e com menos leite por causa
do barulho das auto-estradas a caminho da excelência. Afinal o milagre acima
referido foi contratado a uma empresa de eventos, e ligeiramente sobrefacturada,
o que em nada diminuiu o seu valor de fenómeno existencialista, como disse
o pai do filho do político, que leu Heidegger e tem dentes de rola. Vamos
dançar, como Nietzsche propôs, já não me lembro em que livro, porque
quando a gente lê muito depois não tem tempo para estas coisas (o céu
desce a sua brisa sobre a nossa fronte e as andorinhas espadanejam).

E se fôssemos todos convidar-nos uns aos outros para aquários com
écrã filho da puta e aumentássemos os nossos salários cem por cento,
como fazem os políticos brasileiros? Não seria boa ideia?

Na verdade, as montanhas e os vigilantes dos mares não sabem
que estamos aqui, esperando por eles e com vontade de fazer a
primeira revolução a sério da história. É preciso informá-los, para
que eles saibam, porque se não o fizermos alguém vai ter a mesma
ideia e convida os artistas todos primeiro. Usem os recursos com
inteligência, porra!

Conheço pessoas que trabalham muitas horas por dia.
Mais de oito, e mesmo mais de doze horas por dia.
São pessoas muito importantes para as economias de algumas
famílias, o que infelizmente não serve para evitar a chegada da crise
aos nossos fodidos corações agoniados. Há máquinas doces,
calma aí, nem todas são desesperadas. Abrem-se as torneiras e saem
estratégias musicais e pacientes malhas de conversas que podemos
despencar nas redes sociais. Se não for por mal não há problema.
Somos inocentes, ainda, porque é saboroso ser confrontado com
a desgraça de uma vez só e em dose moral. Vejamos o que quero dizer:
não, é melhor não. Ainda é muito cedo, e podemos lavar as cortinas
em vez de ficarmos a queixar-nos do cheiro das casas de banho nas
artérias mais movimentadas do nosso glamouroso corpo brilhante.

Um homem passa e nunca mais desaparece.


Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, pp. 118-119.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

UM POEMA DE ADELAIDE IVÁNOVA



a porca

a escrivã é uma pessoa
e está curiosa como são
curiosas as pessoas
pergunta-me por que bebi
tanto não respondi mas sei
que a gente bebe pra morrer
sem ter que morrer muito
pergunta-me por que não
gritei já que não estava
amordaçada não respondi mas sei
que já se nasce com a mordaça
a escrivã de camisa branca
engomada
é excelente funcionária e
datilógrafa me lembra muito
uma música
um animal não lembro qual.


Adelaide Ivánova (n. Recife, Pernambuco, 1982), in O Martelo, Douda Correira, Fevereiro de 2016, s/p. 

PARALELO W, AMANHÃ, ÀS 17H30


(clique na imagem para ver melhor)

MADONNA, A EMBAIXATRIZ


Madonna, a maior embaixatriz de Portugal depois da mãe Dolores, desabafou numa qualquer rede social muito frequentada que vive a vida de uma freira no nosso país. E o país agitou-se como sempre se agita sempre que Madonna toca flauta. Não perceberam nada. Ao alto, uma imagem das California's weed nuns talvez ajude a compreender a confissão da cantora. Assim é que se fomenta o turismo nacional!

POEMA A TODOS OS SERES QUE USAM NICKS E ABREVIAGENS E SÃO ANÓNIMOS

Vão prá
p. q. v. p.
diriam
vocês,
aliás,
vocês não
dizem
nada
porque
não existem
são sombras
acabrunhadas
de flores
de papel
tristes
de embrulhar
medo
merda
por isso
vos digo
à minha maneira
encolham-se
ainda
um pouco mais
e voltem
ao sítio de onde
não deviam ter
saído
assim: a
puta
que vos
pariu


Rui Costa

24/10/2005 (aqui)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

EPIFANIAS #30

30

Grafia de braços e vozes — os braços brancos dos caminhos, a promessa de abraços próximos, a os braços negros de navios altos parados diante da lua, contam-nos de nações distantes. Eles mantêm-se firmes para dizer: Estamos sós, — vinde. E as vozes dizem com eles, Nós somos o vosso povo. E o ar enche-se da sua companhia enquanto me chamam compatriota, preparando-se para partir, sacudindo as asas de uma terrível e exultante juventude.

James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

INVISÍVEIS


   Em Novembro de 2012, um incêndio queimou vivos cento e dez operários no Bangladesh. Trabalhavam nas chamadas sweatshops, oficinas de suor, sem nenhuma segurança nem nenhum direito.
   Pouco depois, em Abril do ano seguinte, outro incêndio queimou vivos mil cento e vinte e sete operários noutras sweatshops do Bangladesh.
   Eram todos invisíveis, como continuam a ser invisíveis os escravos de muitos outros lugares do mundo globalizado.
   Os seus salários, um dólar por dia, também são invisíveis.
   Bem visíveis são, em contrapartida, os preços impagáveis das roupas que as suas mãos produzem para os Walmart, JCPenney, Sears, Gap, Benetton, H&M...


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 79.

DOIS FRAGMENTOS DE PER AAGE BRANDT


*

a lua não é um ser vivo, é
uma lua entre muitas outras, e embora
a chamemos pelo seu nome e como testemunha
de coisas que nós decerto fizemos repentinamente e temos
vindo a fazer, e o que está feito feito está, e as coisas aconteceram, e
o que ela viu e tem visto, com o seu grande olho amarelo e selvagem
visto está, mesmo que uma nuvem tenha acaso passado
diante do seu olhar no instante decisivo em que uma coisa
se tornou tão eternamente eterna, que ainda agora é eterna,
embora disso, infelizmente, ela não tenha muita consciência,
tal como nós, as nuvens navegam selvagens e negras
perante os nossos instantes que a lua conhece 
                                                                  (astro-blues)

*

o homem é um hóspede efémero da terra,
pensava o poeta asteca, mas um hóspede
nem sempre é um homem aqui na terra;
na rua, numa país estrangeiro, na cama de alguém,
acontecem coisas estranhas, um coração é uma
arma eficaz, e (citação) de qualquer modo morreremos,
abandonando-nos uns aos outros, abraçados, com a língua na
orelha
de um corpo que vibra de prazer ou se alonga num grito de
guernica,
depois do encontro com alguém que passou
e desapareceu ou tomou a decisão de ficar

*


Per Aage Brandt (n. 26 de Abril de 1944, Buenos Aires - de nacionalidade dinamarquesa), in Livro da Noite, tradução colectiva (Mateus, Junho de 2002), revista e apresentada por Maria João Reynaud, Quetzal Editores, Março de 2004, pp. 30-31.

O QUE É ISTO?


domingo, 22 de outubro de 2017

NUMA PEQUENA ALDEIA DE VALPAÇOS


Vale a pena ler a história que aqui se conta. Um excerto:

A guerra tinha começado a ser preparada um par de meses antes, quando António Morais, proprietário de vários hectares de olival no Lila, percebeu que uma empresa subsidiária da Soporcel se preparava para substituir 200 hectares de oliveiras por eucaliptal para a indústria do papel. «Tinham recebido fundos perdidos do Estado para reflorestar o vale sem sequer consultarem a população», revolta-se ainda, 28 anos depois.
«Nessa altura o ministério da agricultura defendia com unhas e dentes a plantação de eucalipto.» Álvaro Barreto, titular da pasta, fora anos antes presidente do conselho de administração da Soporcel e tornaria ao cargo em 1990, pouco depois das gentes de Valpaços lhe fazerem frente.
«A tese dominante dos governos de Cavaco Silva era que urgia substituir o minifúndio e a agricultura de subsistência por monoculturas mais rentáveis, era preciso rentabilizar a floresta em grande escala», diz António Morais. O eucalipto adivinhava-se uma solução fácil.
Crescia rápido e tinha boas margens de lucro. Portugal, aliás, ganharia em poucos anos um papel de destaque na indústria de celulose e os pequenos proprietários poderiam resolver muitos problemas de insolvência abastecendo as grandes empresas com uma floresta renovada. A teoria acabaria por vingar em todo o país, sobretudo no interior centro e norte. Mas não em Valpaços.


Continuar a ler: aqui.

QUANDO A RUA FICA CHIQUE


Será que a moça sabe a história por detrás do slogan? Não sabendo, pode sempre consultar a Wikipédia: aqui.

UM ALIADO DO CINEMA

Dialogando com aqueles que transporta no seu veículo — um jovem soldado, um estudante de teologia, um taxidermista que exalta as glórias naturais (incluindo o sabor da cereja) —, Badii quer que alguém lhe garanta que o vai sepultar. Kiarostami encena-o como um buraco negro, impossível de transformar em “tema” ou “símbolo” do que quer que seja.
Observe-se o rosto impassível de Badii, interpretado por esse brilhante actor que é Homayoun Ershadi. O que nele deciframos, ou julgamos decifrar, não envolve qualquer racionalização do seu comportamento (nem do nosso olhar, importa acrescentar). Badii/Ershadi acaba por se impor como um aliado do próprio cinema, dessa capacidade insólita de registar o movimento da vida, pressentindo a nitidez indizível da morte.

João Lopes, sobre O Sabor da Cereja (aqui)

SONETO DO SONETO

Catorze versos o soneto este é o primeiro
e ainda não disse nada (este é o segundo)
Mas quem diz que em três versos cabe o mundo?
Em três não cabe, só no soneto inteiro...

E eis mais uma quadra começada
que ao fim deste verso chega ao meio
Daqui a pouco está o soneto cheio
e eu ainda não disse - quase nada?!

Mas felizmente chega um terceto
e neste estou eu bem inspirado
Pena é que já acabou. Ó que chatice!

Mas vou salvar as honras do soneto
num verso belo de final dourado
que diga tudo o que atrás não disse

Rui Costa


28/07/2005 (aqui)

sábado, 21 de outubro de 2017

PARÊNTESIS

(...) [— Claro que estes eram os políticos.
As suas bocas começaram a crescer e de cada vez que
as tentavam abrir uma parte do seu corpo desaparecia.
(Um dia o presidente convidou-os para jantar
e comeu-os a todos, acabando por asfixiar numa esmeralda
tépida.)] (...)



Rui Costa, in Mike Tyson Para Principiantes - antologia poética, org. André Corrêa de Sá (coordenador da edição), António Aguiar Costa, Cláudia Souto, Margarida Vale de Gato, Assírio & Alvim, Setembro de 2017, p. 145. Do poema Faca de Incêndio, que pode ser lido integralmente aqui.

A CEIBA


   Em Cuba, e noutros lugares da América, a ceiba é a árvore sagrada, a árvore do mistério. O raio não se atreve a tocar-lhe. O furacão também não.
   Habitada pelos deuses, nasce no centro do mundo e daí eleva o tronco imenso que sustém o céu.
   Para curar a arrogância do céu, a ceiba todos os dias lhe pergunta:
   - Em que pés te apoiarias, se não fosse eu?


Eduardo Galeano, in O Caçador de Histórias, trad. José Colaço Barreiros, Antígona, Setembro de 2017, p. 33.

SE A MEMÓRIA NÃO NOS FALHA


Incêndio florestal deixou de ser “crime de investigação prioritária” em 2015 graças aos votos a favor de PSD e CDS e abstenção do PS.