(Primeiro
Round)
Sou
amigo do Rui Costa. Quando, há cinco anos, o seu pai me telefonou perguntando se
sabia dele, não temi o pior. Mas o pior acabou por se confirmar. São questões
que agora não interessam, ainda que possa interessar a quem não tenha conhecido
o Rui saber quão imprevisível ele conseguia ser. Foram circunstâncias
imprevisíveis as que nos separaram, como foram as que nos aproximaram - já lá
vão uns treze anos. Eu tinha um weblog exclusivamente dedicado à poesia, o Rui
contactou-me por e-mail questionando-me sobre a possibilidade de divulgar nesse
espaço alguns dos seus poemas. “O Pão” foi o primeiro poema que me fez chegar,
sendo também, por mera coincidência, o primeiro poema desta antologia. Não
posso garantir o que senti quando li esse poema pela primeira vez, mais sei o
que sinto sempre que releio aqueles primeiros versos: «Há pessoas que amam /
com os dedos todos sobre a mesa. / Aquecem o pão com o suor do rosto / e quando
as perdemos estão sempre / ao nosso lado» (p. 33). Sinto que o Rui Costa é um
grande poeta e que, não só por isso, mas também por isso, continua a meu lado.
Ao
reler esta antologia, como tantas vezes tenho relido muitos dos textos que
deixou publicados e outros que me confiou, voltei a estar na presença de alguém
que levava a sua arte a sério — não no sentido de a pretender empolar, antes no
mais nobre sentido da seriedade que certas coisas merecem. É esse sentido o da
exigência. Certas coisas na vida obrigam-nos a ser exigentes, aquilo que mais
amamos reivindica tal exigência. E o Rui amava a poesia, gostava de falar sobre
poesia, gostava de discuti-la, de pensá-la. Esse exercício do pensamento
reflecte-se nos poemas que escreveu, nas estórias, nos romances. Não como provocação,
mas sim como desafio. Talvez por isso os seus textos possam, por vezes, parecer-nos
complexos e até mesmo impenetráveis.
Uma
das características que mais tenho encontrado atribuídas ao Rui Costa é a de ter
sido um provocador. No nosso país, normalmente atribui-se tal característica a
quem recusa pensar por cabeça alheia. O Rui não era um provocador, pelo menos
na vulgar noção de pretender chamar sobre si atenções para as quais se estava
nas tintas. Era, pelo contrário, um instigador da discussão, já que tinha
cabeça para pensar e dava-lhe uso. Como a certa altura ironiza no poema “Espanha”,
tinha uma grande cabeça: «Dizem que eu
tenho a cabeça demasiado grande, o meu amigo Angel costumava dizer, um dia
emprestaram-me um capacete para andar de mota e tive que levá-lo no braço»
(p. 123). Pensar pela própria cabeça é um risco, sobretudo por quase sempre
acabarmos isolados do resto do mundo. E é um risco por nos expor aos acidentes,
por nos deixar desprotegidos, isto é, exclusivamente entregues à nossa
capacidade de pensar livremente o mundo.
Ora,
é para o mundo que se concebem antologias de poemas como esta. Facilmente se
imaginará como para cada um dos implicados na concepção deste livro estava uma
necessidade. A necessidade é muito mais forte do que a vontade. Passados cinco
anos sobre a trágica morte do Rui, impunha-se que as suas palavras voltassem a
estar disponíveis, que, deste modo muito particular que é o dos “homens de
palavras”, o próprio Rui voltasse a estar à nossa disposição.
O
André Corrêa de Sá, a quem coube coordenar os trabalhos, adverte para o «tom
deliberadamente pessoal» da leitura aqui proposta. Seria desumano exigir outro
tom. No entanto, convém esclarecer desde já que o título Mike Tyson Para
Principiantes é o de uma antologia que o próprio Rui Costa deixou preparada.
Diferente desta, é certo, mas com sugestões de algum modo acolhidas e
respeitadas. Nesta se coligiram, em três partes distintas, poemas publicados em
vida misturados com outros até agora inéditos. Aparecem sem qualquer ordem
cronológica, o que está de acordo tanto com o que o Rui tinha deixado preparado
como com o que levou a cabo numa outra antologia bilingue publicada em
vida com o título O pequeno-almoço de Carla Bruni. A origem dos poemas é
diversa, vem explicada no final do livro, e não vale a pena inventariá-la aqui,
conquanto se torne claro para todos estarmos perante um livro que oferece uma
parcela considerável do labor poético que o Rui deixou e se mantinha até hoje
publicamente desconhecido.
Nas
três partes que compõem esta antologia podemos vislumbrar um movimento que obedece
à alusão pugilística do título, sendo claro para o leitor que o ringue onde as
palavras dançam é o da própria vida. Nesse ringue, a beleza da dança mistura-se
com a violência, os corpos são objecto de contemplação, há um jogo cujas regras
parecem definidas pelo caos e entre assaltos vários termina-se, tal como sempre
sucede na vida, ou por inconsciência ou por desistência.
Já
nos clássicos encontramos o boxe como motivo poético. Píndaro, nas “Odes
Olímpicas”, dedica a um vencedor de boxe os seguintes versos: «A nuvem do
esquecimento não tem fronteiras / e paira sobre muitas coisas». Também sobre
muitas coisas pairam as nuvens na poesia do Rui Costa, algo evidente logo no
premiado livro de estreia A Nuvem Prateada das Pessoas Graves. No poema
homónimo as pessoas graves são as que “caminham com o pescoço inclinado para
baixo”, tocando primeiro com os olhos o caminho que os pés confirmarão. São,
portanto, pessoas precavidas, cautelosas, são pessoas cuidadosas. Mas por vezes
elas vêem o céu, um céu que fica no outro lado do mundo onde as pessoas graves
caminham. E então arrastam sobre si uma nuvem prateada, uma espécie de sombra.
Daí, talvez, que nos pareçam sombrias. Talvez caiba ao poeta a missão de
iluminar-lhes o caminho desconcertando-lhes a gravidade.
O
primeiro verso do poema “A Construção da Luz” diz-nos: “Toda a luz é subterrânea” (p. 137). Esta luz está em conformidade
com o céu das pessoas graves: “Às vezes
elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo / dos
pés e por isso do outro lado do mundo” (p. 41). Este outro lado do mundo,
subterrâneo, convoca uma das obsessões poéticas do Rui. Ela surge igualmente no
romance A Resistência dos Materiais, cujo palco é uma cidade organizada em
função dos poderosíssimos dados decorrentes de uma investigação científica acerca
da propriedade das sombras. Somos levados a pensar na Alegoria da Caverna,
embora neste caso as propriedades das sombras se confundam com a verdade que
escapa aos agentes humanos. Mas podemos também pensar na morte enquanto luz
subterrânea, enquanto princípio fundador de uma tomada de consciência acerca da
existência humana.
A
luz é uma obsessão nesta poesia desde a primeira hora. O poema “Humano”, do
primeiro livro, termina com o verso “deste
momento onde parimos luz” (p. 35). O Breve Ensaio Sobre a Potência,
último dos seus livros publicados, é um poema-sequência que começa assim: “a luz é a metáfora do verbo” (p. 171).
Luz e sombra parecem colocar em confronto dois mundos, são a dança executada no
ringue da vida com resultados inesperados.
Evitemos,
porém, leituras estritamente simbólicas ou exageradamente metafóricas desta
relação da luz com a obscuridade numa poesia mais próxima da materialidade dos
corpos do que por vezes aparenta. “Nem
luz nem a treva. Às vezes, de madrugada, / visito as mulheres que lavam e que
cantam” (p. 38), diz-se no poema “A Matéria do Ar”. Como sugere o último
fragmento de Breve Ensaio Sobre a Potência, a treva e a luz são uma espécie
de balizas entre as quais o poema emerge como um jogo de linguagem. Expressões
como “parir luz” enviam-nos para outras como “dar à luz”, isto é, conceber,
fazer nascer, criar, gerar. A luz enquanto metáfora de verbo ocupa aqui o lugar
da acção, ou seja, da criação. E criar, no contexto poético que nos une,
significa transformar. Talvez este seja o lado mais romântico de uma poesia
onde a vontade de transformar surge invariavelmente traída pela noção de um
conservadorismo idiossincrático que trava, obstaculiza, impede a transformação.
A
transformação é, em si mesma, um fenómeno violento. O acto de parir, dar à luz,
é um acto violento, crescer, mudar, é estar sujeito à violência da
transformação. No Breve Ensaio Sobre a Potência estas questões surgem
expostas de um modo especialmente belo. Do ponto de vista aristotélico, como
bem notou Rui Lage, a potência está associada à mudança. Isto é, os seres
sujeitos ao devir são seres em potência, mutáveis, instáveis, contingentes como
toda a matéria o é. O amor, outro dos temas centrais nesta poesia, revela-se
também ele violento, na medida em que gera transformação no ser. Não estamos,
portanto, no campo de um amor absoluto, transcendental, mas sim no campo de um
amor, se quiserem, erótico, transformador, material. Pegando nas palavras da
Margarida Vale de Gato: “Na poesia de Rui Costa, que se acomoda bem ao mote Mike Tyson para Principiantes, a violência é o que abala a distância dos
corpos e não raro se abre à (re)percussão amorosa”.
Note-se
como no poema-sequência “Faca de Incêndio”, um dos que o Rui me dizia serem dos
mais representativos da sua poesia, se associa um objecto cortante,
transformador, a um fenómeno químico, também ele transformador, na
circunstância do que aparenta ser uma história de amor entre um homem e uma
mulher ameaçados tanto por forças externas como pela sua própria condição
contingencial. Assim sendo, nem a luz é símbolo de vida nem as trevas
simbolizam o mal nesta poesia. São ambas parte integrante de uma realidade
orgânica, material, em contínua transformação.
Podemos
olhar para a poesia de Rui Costa como uma máquina de baralhar sentidos de que
resultam metáforas vivas, numa linguagem poética que, parafraseando Paul
Ricoeur, “enquanto inversão da linguagem comum, não se dirige para fora mas
para dentro, em direcção a um interior que nada mais é do que o estado de
espírito estruturado e expresso por um poema”. Tal a estância 7 do poema
“Versos de Amor Pós-Modernos”, de onde saiu o título As Limitações do Amor são
Infinitas: “digo o contrário / do que
quero / para que no espelho / a imagem não surja / invertida” (p. 158). Já
no poema intitulado “Narciso”, o mito grego surge subvertido na sua lógica: “No rio a tua imagem parece menos tua: /
(…) Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:” (p. 152). A lógica invertida,
as imagens absurdas, a sintaxe estropiada, as incongruências, a pontuação por
vezes anómala, a inclinação para o incoerente, fazem parte de um jogo alquímico
que torna a linguagem do poema ao mesmo tempo sedutora e agressiva. “Alquímica”
é justamente o título de um dos poemas iniciais, onde percebemos haver nesta poesia
um teste de resistência ao material por excelência do pensamento, isto é, a
linguagem.
As
sombras e a ideia de reflexo enquanto verdade podem também ser entendidas como
tomada de consciência das limitações humanas que, tal como as do amor, são
infinitas. O conhecimento do mundo tem as suas limitações. Os limites do meu
mundo são os da minha linguagem, ou vice-versa, como diria Wittgenstein. Gostava,
neste sentido, e antes de terminar, de chamar a atenção para outra constante na
poesia do Rui. Refiro-me à recorrência da cor azul, óbvia nos poemas “Elegia
Azul” e “Homem Azul”, incluídos nesta antologia, no Homem Azul que surge
enquanto personagem do romance A Resistência dos Materiais ou na
micronarrativa “O rapaz que queria ser azul”.
Encontramos
ainda um “buraco azul” no poema "Kosher" ou as mãos que se azulam em “A
Construção da Luz”. Num desafio dirigido aos leitores do weblog Insónia, que
cumplicemente alimentámos, o Rui pedia, a 21 de Setembro de 2005, que lhe
enviassem “realidade azul”. No inédito “L-E-T-R-A-S Para Sigur Rós”, publicado
no mesmo weblog, refere-se a “um gás azul”. Ainda no Insónia, publicou a
determinada altura algumas fotografias com os títulos “Buraco Azul” e “Corpo a
Sair do Azul”. No poema “Cantilena” damos com “uma garganta toda azul a
escorregar no céu”. “A flor é uma
condensação aquática de semblante / azul” (p. 164), lê-se no poema “A Flor”.
Em “A Música”, publicado numa antologia de homenagem a Fiama Hasse Pais Brandão,
há uma estrofe que se destaca das demais:
“Há poetas azuis que julgam que a / coerência é um pardal azul (da goela / até
aos pés). Normalmente limpam os óculos / com coerência, em vez de com (enfim) /
e depois vêem o mesmo pardal, a todas / as horas do dia e da noite, sentado
azul- / mente sobre o seu nariz azul” (p. 85).
O
azul, explica-nos Jean Chevalier no “Dicionário dos Símbolos”, é a mais
profunda das cores: nele o olhar penetra sem encontrar qualquer obstáculo e
perde-se no infinito, como que perante uma perpétua fuga da cor”. Tenho pensado
muito nesta relação do Rui com o azul. Questiono-me se não seria o azul para
ele o que para outros assume a forma de transcendência, uma ideia de infinito
onde o pensamento se liberta das leis e deixa de estar sujeito aos acidentes
que testam essas mesmas leis. No azul desaparecem as limitações, desaparecem os
constrangimentos, todo ele é a profundidade onde o nirvana acontece. O azul não
seria uma espécie de libertação, mas seria a liberdade ela mesma, uma liberdade
na qual os olhos se perdem quando mergulham na vastidão de um buraco azul ou no
infinito celeste.
O
Homem Azul de A Resistência dos Materiais é-nos apresentado como alguém que
“despercebia o mundo”, o que parece coincidir com o projecto de “descompreender
o mundo” proposto pela sua poesia. O azul seria, assim, “o caminho do devaneio”
que coloca o poeta numa zona de risco. Essa zona é a da dúvida, é a do
confronto, é a de uma vontade que impele o olhar para lá das construções que
lhe são impostas e irrompe pelo desconhecido, pelos territórios do impossível,
desbravando terreno na direcção de uma outra ideia de verdade. A poesia do Rui
coloca-nos no ringue da vida para nos desafiar a olhar para o mundo de um modo
azul, com a profundidade de quem não tem muros nem paredes nem grades nem
impedimentos a cercearem-lhe o pensamento.
O
azul, diz-se, é também a cor da verdade, na sua profundidade ele distancia-nos
do óbvio oferecendo ao olhar outras perspectivas, porventura ficcionais,
porventura metafóricas. Como se afirma no supracitado poema com o título
“Espanha”, “A metáfora é o azimute de um
escritor que não come tudo o que há para comer” (p. 122). Não estou certo
de que assim seja este azul, mas quero acreditar haver nele uma qualquer forma
de desprendimento que se confunde com a liberdade inerente à própria poesia.
São
poucas as coisas em que acredito. Acredito que amo as minhas filhas, acredito
que vou morrer, acredito igualmente que as palavras deixadas pelo Rui Costa
merecem estar à disposição dos leitores. Nem luz nem sombra, na profundidade de
um azul libertador como sói ser o da melhor poesia.