domingo, 15 de outubro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #19



   Depois dos incêndios, veio o concerto de solidariedade. Fica sempre bem homenagear os heróis, mesmo que os relatórios voltem a confirmar a pobre humanidade a qua estamos confinados. Dois momentos marcaram a celebração. Primeiro, o Presidente da República e o ministro da Cultura, em fila escolhida a dedo no meio dos pobres, curtindo a loucura minimal repetitiva de um tal Matias Damasio. Segundo, o nosso herói Eurovision a incendiar, passe o termo, plateia e redes sociais, quase tudo em tempo real, com uma boca foleira, mas certeira, sobre peidos. O público tem destas coisas, foca-se com extraordinária eficácia e quase invariavelmente no acessório.
   Poucos terão reparado na versão de Both Sides Now oferecida por Salvador naquela noite. Que bela escolha! Gravada por Judy Collins em 1967, a canção de Joni Mitchell surgiu em 1969 num dos seus mais celebrados álbuns: Clouds. À entrada do séc. XXI, foi recuperada numa belíssima versão para a colectânea com o mesmo título. A canadiana Joni Mitchell, que é uma compositora e tanto, inspirou-se num romance de Saul Bellow para escrever o tema. Por cá, nunca lhe ligaram muito. Quem tem o mestre da bricolagem Tony Carreira, precisa de Mitchell para quê?
   Com o primeiro álbum publicado em 1968, Joni Mitchell começou por fazer sucesso à segunda tentativa com o supracitado Clouds (1969). Blue (1971) repetiu o êxito, sendo For The Roses (1972) logo do ano seguinte. Por que gosto tanto de For The Roses? Desde logo, pelas boas companhias. Graham Nash e Stephen Stills, por exemplo, surgem algures a tocar harmónica e guitarra. A influência jazz é outro forte motivo, algo que se nota logo, ainda que discretamente, nos sopros em Cold Blue Steel And Sweet Fire (canção arrepiante sobre uma viciada em heroína). A guitarra folk e o piano são a base de um álbum que explora novos territórios para o formato canção, sobre letras de uma poesia poucas vezes atingível na música dita popular. Lesson In Survival, por exemplo, fala-nos directamente ao coração sobre as dificuldades de uma relação amorosa, estabelecendo uma ponte sem tempos mortos para Let The Wind Carry Me, retrato penoso da vida doméstica.
   Mas o que me interessa mais nas canções de Joni Mitchell, sobretudo nas de For The Roses, entre as quais a que ofereceu título ao álbum pode servir de exemplo, é a eleição do mundo natural enquanto refúgio das tempestades domésticas e quotidianas. O interruptor das luzes da ribalta a ser desligado por uma necessidade de isolamento que proteja o ser das multidões, da influência traumatizante das multidões. Para lá do quarto de Hotel, a vista. E é na paisagem, debaixo de chuva, embalada pelo vento, mergulhada no sol-posto, perdida na floresta, surpreendida por borboletas e outras figuras mitológicas como as borboletas, que a canção emerge e pacifica o coração. You Turn Me On I’m A Radio obteve êxito considerável. Não é difícil perceber porquê.


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