terça-feira, 24 de outubro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #21


   Normalmente chego atrasado às festas. Não é por desconsideração ou desleixo. Gosto de preparar-me psicologicamente para uma alegria que me é estranha. Atrasei-me na celebração do centenário do nascimento do pianista Thelonious Monk (1917-1982). Apesar de ter sido criado em Nova Iorque, Monk nasceu em Rocky Mount, na Carolina do Norte. Rocky Mount pode ser traduzido à letra por monte rochoso, expressão ironicamente definidora do físico ostentado por Thelonious Monk. Acho piada à fotografia do álbum Underground (1968), em que Monk aparece ao piano de metralhadora a tiracolo, garrafa de vinho à beira do teclado, numa cave onde encontramos ainda uma vaca, um militar nazi amarrado, uma militante da resistência francesa. A capa dirigia-se, obviamente, ao público europeu, e, apesar da encenação não respeitar o naturalismo da música, expressa de um modo satírico o lado resistente e obstinado do compositor.
   Como muitos jovens negros do seu tempo, Monk começou por tocar na igreja. Percorreu os states a acompanhar uma pregadora. Só nos anos 30 chegou aos clubes de jazz. A primeira gravação oficial data de 1944, na companhia de Coleman Hawkins. Mas as primeiras gravações em nome próprio foram para a Blue Note entre os anos de 1947 e 1952. Genius of Modern Music compilou esses momentos iniciais de uma genialidade que, segundo o autor, consistia em ser o mais autêntico possível, em tocar sem ter exclusivamente o público em vista, em encarar o jazz como um espaço de liberdade.
   Público e crítica demoraram a aceitar o estilo de Monk, muitas vezes acusado de ser árido e de confundir o piano com um instrumento de percussão. Dissonâncias, ambiguidades, acordes imprevisíveis, alusões estranhas, alternâncias inesperadas entre acordes numa aparente confusão entre ritmo e melodia, geravam desconfiança. De vez em quando levantava-se do piano e dava uns passos de dança para ver se a música funcionava, mas quem o ouvia parecia estar noutro cumprimento de onda. Só nos anos 50 começou a conhecer alguma paz, com contratos importantes para actuações locais e no estrangeiro, digressões pelo oriente, a entrada no catálogo da Columbia.
   Não esqueçamos, porém, o apoio dos seus pares, entre os quais se celebrizou Bill Evans pela consideração certeira: “Make no mistake. This man knows exactly what is doing in a theoretical way”. Entre as composições que deixou, algumas transformaram-se rapidamente em standards. Well You Needn’t, por exemplo, é uma obra-prima. ‘Round Midnight é hoje dos temas mais vezes gravados por outros músicos. Apesar do sucesso in crescendo, o sistema nervoso de Thelonious Monk remeteu-o para o silêncio em meados da década de 1970. Os últimos anos de vida foram de mutismo e depressão. Ele bem profetizava: “Toca o que gostas, e mais cedo ou mais tarde o público chegará, mesmo que isso demore quinze ou vinte anos”.