Normalmente
chego atrasado às festas. Não é por desconsideração ou desleixo. Gosto de preparar-me
psicologicamente para uma alegria que me é estranha. Atrasei-me na celebração
do centenário do nascimento do pianista Thelonious Monk (1917-1982). Apesar de
ter sido criado em Nova Iorque, Monk nasceu em Rocky Mount, na Carolina do
Norte. Rocky Mount pode ser traduzido à letra por monte rochoso, expressão ironicamente
definidora do físico ostentado por Thelonious Monk. Acho piada à fotografia do
álbum Underground (1968), em que Monk aparece ao piano de metralhadora a
tiracolo, garrafa de vinho à beira do teclado, numa cave onde encontramos ainda
uma vaca, um militar nazi amarrado, uma militante da resistência francesa. A
capa dirigia-se, obviamente, ao público europeu, e, apesar da encenação não
respeitar o naturalismo da música, expressa de um modo satírico o lado
resistente e obstinado do compositor.
Como muitos
jovens negros do seu tempo, Monk começou por tocar na igreja. Percorreu os
states a acompanhar uma pregadora. Só nos anos 30 chegou aos clubes de jazz. A
primeira gravação oficial data de 1944, na companhia de Coleman Hawkins. Mas as
primeiras gravações em nome próprio foram para a Blue Note entre os anos de 1947
e 1952. Genius of Modern Music compilou esses momentos iniciais de uma
genialidade que, segundo o autor, consistia em ser o mais autêntico possível, em
tocar sem ter exclusivamente o público em vista, em encarar o jazz como um
espaço de liberdade.
Público e
crítica demoraram a aceitar o estilo de Monk, muitas vezes acusado de ser árido
e de confundir o piano com um instrumento de percussão. Dissonâncias,
ambiguidades, acordes imprevisíveis, alusões estranhas, alternâncias inesperadas
entre acordes numa aparente confusão entre ritmo e melodia, geravam
desconfiança. De vez em quando levantava-se do piano e dava uns passos de dança
para ver se a música funcionava, mas quem o ouvia parecia estar noutro
cumprimento de onda. Só nos anos 50 começou a conhecer alguma paz, com
contratos importantes para actuações locais e no estrangeiro, digressões pelo
oriente, a entrada no catálogo da Columbia.
Não esqueçamos,
porém, o apoio dos seus pares, entre os quais se celebrizou Bill Evans pela
consideração certeira: “Make no mistake. This man knows exactly what is doing in a theoretical way”. Entre as composições que deixou,
algumas transformaram-se rapidamente em standards. Well You Needn’t, por exemplo,
é uma obra-prima. ‘Round Midnight é hoje dos temas mais vezes gravados por
outros músicos. Apesar do sucesso in crescendo, o sistema nervoso de Thelonious
Monk remeteu-o para o silêncio em meados da década de 1970. Os últimos anos de
vida foram de mutismo e depressão. Ele bem profetizava: “Toca o que gostas, e
mais cedo ou mais tarde o público chegará, mesmo que isso demore quinze ou
vinte anos”.

1 comentário:
Grande Senhor.
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