sexta-feira, 27 de outubro de 2017

MIKE TYSON PARA PRINCIPIANTES

 (Primeiro Round)

   Sou amigo do Rui Costa. Quando, há cinco anos, o seu pai me telefonou perguntando se sabia dele, não temi o pior. Mas o pior acabou por se confirmar. São questões que agora não interessam, ainda que possa interessar a quem não tenha conhecido o Rui saber quão imprevisível ele conseguia ser. Foram circunstâncias imprevisíveis as que nos separaram, como foram as que nos aproximaram - já lá vão uns treze anos. Eu tinha um weblog exclusivamente dedicado à poesia, o Rui contactou-me por e-mail questionando-me sobre a possibilidade de divulgar nesse espaço alguns dos seus poemas. “O Pão” foi o primeiro poema que me fez chegar, sendo também, por mera coincidência, o primeiro poema desta antologia. Não posso garantir o que senti quando li esse poema pela primeira vez, mais sei o que sinto sempre que releio aqueles primeiros versos: «Há pessoas que amam / com os dedos todos sobre a mesa. / Aquecem o pão com o suor do rosto / e quando as perdemos estão sempre / ao nosso lado» (p. 33). Sinto que o Rui Costa é um grande poeta e que, não só por isso, mas também por isso, continua a meu lado.

   Ao reler esta antologia, como tantas vezes tenho relido muitos dos textos que deixou publicados e outros que me confiou, voltei a estar na presença de alguém que levava a sua arte a sério — não no sentido de a pretender empolar, antes no mais nobre sentido da seriedade que certas coisas merecem. É esse sentido o da exigência. Certas coisas na vida obrigam-nos a ser exigentes, aquilo que mais amamos reivindica tal exigência. E o Rui amava a poesia, gostava de falar sobre poesia, gostava de discuti-la, de pensá-la. Esse exercício do pensamento reflecte-se nos poemas que escreveu, nas estórias, nos romances. Não como provocação, mas sim como desafio. Talvez por isso os seus textos possam, por vezes, parecer-nos complexos e até mesmo impenetráveis.

   Uma das características que mais tenho encontrado atribuídas ao Rui Costa é a de ter sido um provocador. No nosso país, normalmente atribui-se tal característica a quem recusa pensar por cabeça alheia. O Rui não era um provocador, pelo menos na vulgar noção de pretender chamar sobre si atenções para as quais se estava nas tintas. Era, pelo contrário, um instigador da discussão, já que tinha cabeça para pensar e dava-lhe uso. Como a certa altura ironiza no poema “Espanha”, tinha uma grande cabeça: «Dizem que eu tenho a cabeça demasiado grande, o meu amigo Angel costumava dizer, um dia emprestaram-me um capacete para andar de mota e tive que levá-lo no braço» (p. 123). Pensar pela própria cabeça é um risco, sobretudo por quase sempre acabarmos isolados do resto do mundo. E é um risco por nos expor aos acidentes, por nos deixar desprotegidos, isto é, exclusivamente entregues à nossa capacidade de pensar livremente o mundo.

   Ora, é para o mundo que se concebem antologias de poemas como esta. Facilmente se imaginará como para cada um dos implicados na concepção deste livro estava uma necessidade. A necessidade é muito mais forte do que a vontade. Passados cinco anos sobre a trágica morte do Rui, impunha-se que as suas palavras voltassem a estar disponíveis, que, deste modo muito particular que é o dos “homens de palavras”, o próprio Rui voltasse a estar à nossa disposição.

   O André Corrêa de Sá, a quem coube coordenar os trabalhos, adverte para o «tom deliberadamente pessoal» da leitura aqui proposta. Seria desumano exigir outro tom. No entanto, convém esclarecer desde já que o título Mike Tyson Para Principiantes é o de uma antologia que o próprio Rui Costa deixou preparada. Diferente desta, é certo, mas com sugestões de algum modo acolhidas e respeitadas. Nesta se coligiram, em três partes distintas, poemas publicados em vida misturados com outros até agora inéditos. Aparecem sem qualquer ordem cronológica, o que está de acordo tanto com o que o Rui tinha deixado preparado como com o que levou a cabo numa outra antologia bilingue publicada em vida com o título O pequeno-almoço de Carla Bruni. A origem dos poemas é diversa, vem explicada no final do livro, e não vale a pena inventariá-la aqui, conquanto se torne claro para todos estarmos perante um livro que oferece uma parcela considerável do labor poético que o Rui deixou e se mantinha até hoje publicamente desconhecido.

   Nas três partes que compõem esta antologia podemos vislumbrar um movimento que obedece à alusão pugilística do título, sendo claro para o leitor que o ringue onde as palavras dançam é o da própria vida. Nesse ringue, a beleza da dança mistura-se com a violência, os corpos são objecto de contemplação, há um jogo cujas regras parecem definidas pelo caos e entre assaltos vários termina-se, tal como sempre sucede na vida, ou por inconsciência ou por desistência.

   Já nos clássicos encontramos o boxe como motivo poético. Píndaro, nas “Odes Olímpicas”, dedica a um vencedor de boxe os seguintes versos: «A nuvem do esquecimento não tem fronteiras / e paira sobre muitas coisas». Também sobre muitas coisas pairam as nuvens na poesia do Rui Costa, algo evidente logo no premiado livro de estreia A Nuvem Prateada das Pessoas Graves. No poema homónimo as pessoas graves são as que “caminham com o pescoço inclinado para baixo”, tocando primeiro com os olhos o caminho que os pés confirmarão. São, portanto, pessoas precavidas, cautelosas, são pessoas cuidadosas. Mas por vezes elas vêem o céu, um céu que fica no outro lado do mundo onde as pessoas graves caminham. E então arrastam sobre si uma nuvem prateada, uma espécie de sombra. Daí, talvez, que nos pareçam sombrias. Talvez caiba ao poeta a missão de iluminar-lhes o caminho desconcertando-lhes a gravidade.

   O primeiro verso do poema “A Construção da Luz” diz-nos: “Toda a luz é subterrânea” (p. 137). Esta luz está em conformidade com o céu das pessoas graves: “Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo / dos pés e por isso do outro lado do mundo” (p. 41). Este outro lado do mundo, subterrâneo, convoca uma das obsessões poéticas do Rui. Ela surge igualmente no romance A Resistência dos Materiais, cujo palco é uma cidade organizada em função dos poderosíssimos dados decorrentes de uma investigação científica acerca da propriedade das sombras. Somos levados a pensar na Alegoria da Caverna, embora neste caso as propriedades das sombras se confundam com a verdade que escapa aos agentes humanos. Mas podemos também pensar na morte enquanto luz subterrânea, enquanto princípio fundador de uma tomada de consciência acerca da existência humana.

   A luz é uma obsessão nesta poesia desde a primeira hora. O poema “Humano”, do primeiro livro, termina com o verso “deste momento onde parimos luz” (p. 35). O Breve Ensaio Sobre a Potência, último dos seus livros publicados, é um poema-sequência que começa assim: “a luz é a metáfora do verbo” (p. 171). Luz e sombra parecem colocar em confronto dois mundos, são a dança executada no ringue da vida com resultados inesperados.

   Evitemos, porém, leituras estritamente simbólicas ou exageradamente metafóricas desta relação da luz com a obscuridade numa poesia mais próxima da materialidade dos corpos do que por vezes aparenta. “Nem luz nem a treva. Às vezes, de madrugada, / visito as mulheres que lavam e que cantam” (p. 38), diz-se no poema “A Matéria do Ar”. Como sugere o último fragmento de Breve Ensaio Sobre a Potência, a treva e a luz são uma espécie de balizas entre as quais o poema emerge como um jogo de linguagem. Expressões como “parir luz” enviam-nos para outras como “dar à luz”, isto é, conceber, fazer nascer, criar, gerar. A luz enquanto metáfora de verbo ocupa aqui o lugar da acção, ou seja, da criação. E criar, no contexto poético que nos une, significa transformar. Talvez este seja o lado mais romântico de uma poesia onde a vontade de transformar surge invariavelmente traída pela noção de um conservadorismo idiossincrático que trava, obstaculiza, impede a transformação.

   A transformação é, em si mesma, um fenómeno violento. O acto de parir, dar à luz, é um acto violento, crescer, mudar, é estar sujeito à violência da transformação. No Breve Ensaio Sobre a Potência estas questões surgem expostas de um modo especialmente belo. Do ponto de vista aristotélico, como bem notou Rui Lage, a potência está associada à mudança. Isto é, os seres sujeitos ao devir são seres em potência, mutáveis, instáveis, contingentes como toda a matéria o é. O amor, outro dos temas centrais nesta poesia, revela-se também ele violento, na medida em que gera transformação no ser. Não estamos, portanto, no campo de um amor absoluto, transcendental, mas sim no campo de um amor, se quiserem, erótico, transformador, material. Pegando nas palavras da Margarida Vale de Gato: “Na poesia de Rui Costa, que se acomoda bem ao mote Mike Tyson para Principiantes, a violência é o que abala a distância dos corpos e não raro se abre à (re)percussão amorosa”.

   Note-se como no poema-sequência “Faca de Incêndio”, um dos que o Rui me dizia serem dos mais representativos da sua poesia, se associa um objecto cortante, transformador, a um fenómeno químico, também ele transformador, na circunstância do que aparenta ser uma história de amor entre um homem e uma mulher ameaçados tanto por forças externas como pela sua própria condição contingencial. Assim sendo, nem a luz é símbolo de vida nem as trevas simbolizam o mal nesta poesia. São ambas parte integrante de uma realidade orgânica, material, em contínua transformação.

   Podemos olhar para a poesia de Rui Costa como uma máquina de baralhar sentidos de que resultam metáforas vivas, numa linguagem poética que, parafraseando Paul Ricoeur, “enquanto inversão da linguagem comum, não se dirige para fora mas para dentro, em direcção a um interior que nada mais é do que o estado de espírito estruturado e expresso por um poema”. Tal a estância 7 do poema “Versos de Amor Pós-Modernos”, de onde saiu o título As Limitações do Amor são Infinitas: “digo o contrário / do que quero / para que no espelho / a imagem não surja / invertida” (p. 158). Já no poema intitulado “Narciso”, o mito grego surge subvertido na sua lógica: “No rio a tua imagem parece menos tua: / (…) Não te iludas. O que tu vês és mesmo tu:” (p. 152). A lógica invertida, as imagens absurdas, a sintaxe estropiada, as incongruências, a pontuação por vezes anómala, a inclinação para o incoerente, fazem parte de um jogo alquímico que torna a linguagem do poema ao mesmo tempo sedutora e agressiva. “Alquímica” é justamente o título de um dos poemas iniciais, onde percebemos haver nesta poesia um teste de resistência ao material por excelência do pensamento, isto é, a linguagem.

   As sombras e a ideia de reflexo enquanto verdade podem também ser entendidas como tomada de consciência das limitações humanas que, tal como as do amor, são infinitas. O conhecimento do mundo tem as suas limitações. Os limites do meu mundo são os da minha linguagem, ou vice-versa, como diria Wittgenstein. Gostava, neste sentido, e antes de terminar, de chamar a atenção para outra constante na poesia do Rui. Refiro-me à recorrência da cor azul, óbvia nos poemas “Elegia Azul” e “Homem Azul”, incluídos nesta antologia, no Homem Azul que surge enquanto personagem do romance A Resistência dos Materiais ou na micronarrativa “O rapaz que queria ser azul”.

   Encontramos ainda um “buraco azul” no poema "Kosher" ou as mãos que se azulam em “A Construção da Luz”. Num desafio dirigido aos leitores do weblog Insónia, que cumplicemente alimentámos, o Rui pedia, a 21 de Setembro de 2005, que lhe enviassem “realidade azul”. No inédito “L-E-T-R-A-S Para Sigur Rós”, publicado no mesmo weblog, refere-se a “um gás azul”. Ainda no Insónia, publicou a determinada altura algumas fotografias com os títulos “Buraco Azul” e “Corpo a Sair do Azul”. No poema “Cantilena” damos com “uma garganta toda azul a escorregar no céu”. “A flor é uma condensação aquática de semblante / azul” (p. 164), lê-se no poema “A Flor”. Em “A Música”, publicado numa antologia de homenagem a Fiama Hasse Pais Brandão, há uma estrofe que se destaca das demais: “Há poetas azuis que julgam que a / coerência é um pardal azul (da goela / até aos pés). Normalmente limpam os óculos / com coerência, em vez de com (enfim) / e depois vêem o mesmo pardal, a todas / as horas do dia e da noite, sentado azul- / mente sobre o seu nariz azul” (p. 85).

   O azul, explica-nos Jean Chevalier no “Dicionário dos Símbolos”, é a mais profunda das cores: nele o olhar penetra sem encontrar qualquer obstáculo e perde-se no infinito, como que perante uma perpétua fuga da cor”. Tenho pensado muito nesta relação do Rui com o azul. Questiono-me se não seria o azul para ele o que para outros assume a forma de transcendência, uma ideia de infinito onde o pensamento se liberta das leis e deixa de estar sujeito aos acidentes que testam essas mesmas leis. No azul desaparecem as limitações, desaparecem os constrangimentos, todo ele é a profundidade onde o nirvana acontece. O azul não seria uma espécie de libertação, mas seria a liberdade ela mesma, uma liberdade na qual os olhos se perdem quando mergulham na vastidão de um buraco azul ou no infinito celeste.

   O Homem Azul de A Resistência dos Materiais é-nos apresentado como alguém que “despercebia o mundo”, o que parece coincidir com o projecto de “descompreender o mundo” proposto pela sua poesia. O azul seria, assim, “o caminho do devaneio” que coloca o poeta numa zona de risco. Essa zona é a da dúvida, é a do confronto, é a de uma vontade que impele o olhar para lá das construções que lhe são impostas e irrompe pelo desconhecido, pelos territórios do impossível, desbravando terreno na direcção de uma outra ideia de verdade. A poesia do Rui coloca-nos no ringue da vida para nos desafiar a olhar para o mundo de um modo azul, com a profundidade de quem não tem muros nem paredes nem grades nem impedimentos a cercearem-lhe o pensamento.

   O azul, diz-se, é também a cor da verdade, na sua profundidade ele distancia-nos do óbvio oferecendo ao olhar outras perspectivas, porventura ficcionais, porventura metafóricas. Como se afirma no supracitado poema com o título “Espanha”, “A metáfora é o azimute de um escritor que não come tudo o que há para comer” (p. 122). Não estou certo de que assim seja este azul, mas quero acreditar haver nele uma qualquer forma de desprendimento que se confunde com a liberdade inerente à própria poesia.


   São poucas as coisas em que acredito. Acredito que amo as minhas filhas, acredito que vou morrer, acredito igualmente que as palavras deixadas pelo Rui Costa merecem estar à disposição dos leitores. Nem luz nem sombra, na profundidade de um azul libertador como sói ser o da melhor poesia. 

7 comentários:

Luis Eme disse...

Tenho mais dificuldade em caracterizar os poetas que os romancistas, Henrique.

A única coisa que posso dizer é que gosto bastante de uma boa parte dos poemas da antologia.

(e também escrevi uma coisa em jeito de poema, em que também me lembrei de ti, quando comprei o livro - com o mesmo título que eu inventei ao pedir o livro à funcionária da FNAC - porque podia fazer parte das tuas histórias de livreiro)

hmbf disse...

E onde escreveste isso?

Luis Eme disse...

O Último Murro de Mike Tyson


Não sei se a pequena
gira e simpática
que me atendeu na livraria
gostava de poesia

(Podia ter perguntado
mas o seu sorriso já era poesia…)

Para não fugir à regra
vi que o nome de capa
tinha fugido da minha cabeça
e em vez de dizer o título do livro
dei o do autor, o Rui Costa,
e depois lá inventei.

(Era mais uma daquelas boas histórias
para um livreiro como o Henrique contar…)

Talvez fosse por sentir o livro
como uma despedida,
e não como um regresso,
encaixei o murro ao Tyson, que era tudo
menos uma brincadeira para principiantes.


Luís Milheiro

hmbf disse...

:-)

Carlos Ramos disse...

Sinto um enorme privilégio em estar a ler este livro.

Abraço

Obrigado

Luis Eme disse...

(é "encaixei o murro do Tyson")

hmbf disse...

Ok, Luis.

Fixe, Carlos.