sábado, 14 de outubro de 2017

NUNO MOURA VEZES TRÊS



Em 1938, o então muito popular escritor português Albino Forjaz de Sampaio (1884-1949), o mesmo das Palavras Cínicas (1905), reuniu um conjunto de crónicas dispersas num volume intitulado No Porão da Vida (Livraria Civilização — Editora). Entre essas crónicas, constava uma com o título Um Poeta em Rilhafoles. Para quem não saiba, Rilhafoles foi primeiro convento, depois hospital. A partir de 1911 passou a ser Hospital Psiquiátrico Miguel Bombarda, constando hoje no seu acervo uma alargada colecção de art brut (em termos genéricos, arte produzida por artistas com perturbações mentais). Ângelo de Lima é o poeta que Sampaio foi descobrir em Rilhafoles: «Ângelo, que tinha momentos lúcidos, pediu ao director do Manicómio, o saudoso Miguel Bombarda, para ir às salas da Academia, no vélho convento de S. Francisco, ver a Exposição de Belas Artes que ali se realizava. Foi com Gameiro e, à volta, Ângelo perguntou ao seu companheiro do que é que êle tinha gostado mais na Exposição:

   — Do que eu gostei mais foi do elevador da Biblioteca.» Deixada de lado a anedota, Albino Forjaz de Sampaio oferece-nos uma biografia de Ângelo de Lima ainda hoje válida, dizendo sobre a sua poesia pouco mais que isto: «A loucura povoou abundantemente aquelas páginas, enchendo-as de guinchos, de exclamações, de trechos incompreensíveis». Servissem hoje de diagnóstico os poemas que um homem escreve, talvez o meu amigo Nuno Moura (n. 1970) não pudesse andar tão à solta. Desde sempre que a sua poesia mantém com a de Ângelo de Lima uma fascinante e indisfarçável empatia, utilizando as possibilidades do discurso poético para romper a camisa-de-forças imposta aos homens ditos normais. Por camisa-de-forças entendamos aqui, desde logo, as regras gramaticais que nos introduzem numa língua, entendamos a família, entendamos a lei, a norma, o social opressivo e repressivo, entendamos tudo quanto impõe ao homem um modo de ser que não seja da sua inteira e exclusiva vontade. 
Nuno Moura é um menino mal comportado, recusa obstinadamente obedecer à catequese do "meio" vindo há anos alimentando o sonho de uma linguagem própria, singular, única como a dos loucos a quem, por vezes, atribui-se o epíteto de poetas. Em A Minha Casa (Tea For One, 2016) recuperou um texto de 2004 onde o território familiar surge minado por uma auto-ironia demolidora do lirismo geralmente oferecido ao tema: «A minha professora primária chamava-se Aurora / e levava-me muitas vezes para uma casa / do partido comunista em Sete-Rios / com corredores científicos, da estreiteza / de que eram feitos, que eu admirava cá de baixo. // O meu pai é comunista mas que eu me lembre / nunca se demorava por lá quando me ia buscar. // A minha mãe é do pp» (p. 5). Lido atentamente o Manual de Prestidigitação, o poeta trabalha a arte do prestidigitador que, qual Harry Houdini, escapa para espanto de todos à camisa-de-forças com destreza e agilidade raras. Podíamos estar no domínio da ilusão, não nos encontrássemos antes no domínio da arte. As memórias aludidas no texto traem uma suposta verdade por detrás das palavras, encenam essa verdade para provocarem um efeito disruptivo nos tempos do leitor. 
Em Clube dos Haxixins (Douda Correira, Outubro de 2016) também vários textos de proveniência diversa são recuperados, podendo o volume ser entendido como uma espécie de antologia de dispersos. Talvez seja relevante sublinhar esta relação de Nuno Moura com o disperso, sobretudo por não estarmos a falar de um autor determinado pelo convencional. Isso reflecte-se, igualmente, na sua frenética actividade enquanto editor e performer. Não se vislumbra nesta bibliografia uma preocupação cronológica, pelo menos não tanto quanto se nos apresenta sob a forma de apanhado das circunstâncias. A nota prévia no final do livro não é casuística, ela demarca o território da desconstrução exercida nos textos. Também aqui a loucura é o ímpeto que pontua a criação. Num diálogo aberto com outras artes, a escrita automática monitoriza o drama de um humor cheio de «de guinchos, de exclamações, de trechos incompreensíveis». E de imagens que são ideias para instalações artísticas: «Deitei-me vestido, fato completo, gravata, colete. A tábua de engomar era pouco estável mas dava espaço suficiente para cruzar os braços em cima da barriga, sem tocar com a cabeça no ferro quente. O gerente da loja de roupas imediatamente em frente conseguiu que quatro seguranças do centro comercial fizessem finalmente uso do ferro» (s/p). Mais uma vez, a normalidade resulta afrontada no texto. Desta feita, não tanto pelos jogos fonéticos ou sintácticos como pela situação em si. 
Cavalo Alucinado (Douda Correira, Setembro de 2017) extrema a afronta. O método é o do recorte e da colagem. Frases provenientes do nosso quotidiano jornalístico são retiradas do contexto original e reorganizadas, por assim dizer, numa caótica sobreposição de frases que redunda numa delirante transfiguração da realidade. O poético sobrepõe-se ao informativo, o informativo traz o poético no ventre. Para quê voltar a falar nas experiências de poesia fonética levadas a cabo por Hugo Ball, nas colagens que celebrizaram Kurt Schwitters, nos jogos linguísticos de Max Bense, no humor, no sarcasmo e na ironia que Nicanor Parra cultivou com os seus “artefactos visuais” e com a “antipoesia”, nas experiências formalistas e lúdicas de Joan Brossa, nas acumulações do artista plástico Arman?… Moura mantém vivas todas estas experiências poéticas, sem compromisso que não seja o de se libertar e de nos libertar da camisa-de-forças, pois «nem todos queremos ser vítimas / de canonização, entalar um dedo na porta da cidade / ou ter que invocar menos estreias absolutas» (s/p). As 31 Orações que se seguem ao Cavalo Alucinado propriamente dito dão bem conta desse princípio libertador, insistindo numa poesia que é prática, uma prática que a não existir tornaria a nossa realidade poética muito mais entediante. Quase tão entediante quanto logra sê-lo o quotidiano desmontado num verso simples e certeiro: «a pior severidade, conversas entre libertinos».

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