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quinta-feira, 30 de novembro de 2017
VERTEM-SE BÍBLIAS EM QUIMBUNDO
Os livros da Mia Soave juntam o melhor de dois mundos:
poesia e música. Fazem-no com incontestável singularidade, anexando ao livro um
CD de bónus. Um objecto não copia o outro, antes se complementam através de
pontes nem sempre óbvias. Em Vertem-se Bíblias em Quimbundo (Mia Soave, Abril
de 2017) a ponte é claramente inteligível pela condição do autor. João Paulo
Esteves da Silva (n. 1961) é músico profissional. No CD intitulado Crime
musicou versos seus, mas também do poeta brasileiro Augusto dos Anjos, de
Guillaume Apollinaire, de Mordechai Geldman, que traduziu para a Douda Correria
em dois volumes bastante aconselháveis, e de Miguel Martins. Numa música suportada
em composições para piano, fez-se acompanhar da voz de Nazaré Silva e da
bateria de Samuel Dias. Do ritmo de cariz tradicional que acompanha o poema de
Augusto dos Anjos à belíssima balada para Le Pont Mirabeau, de Apollinaire,
passando por improvisos e diálogos vocais sofisticados onde a vertente jazzística
se afirma de um modo consistente, o crime deste CD resulta do convite que a determinada
altura nos faz: «Anda mergulhar / na felicidade / uma última vez / sai da
realidade / de vez». Esta fuga da realidade, a que corresponde um mergulho na
felicidade, está de acordo com o movimento vislumbrado nos verso largos de
Vertem-se Bíblias em Quimbundo.
Apesar de ser Descartes o citado, é de Blaise
Pascal que nos lembramos quando, conjecturando sobre os vícios e as virtudes da
imaginação, este nos diz que: «A imaginação dispõe de tudo. Ela faz a beleza, a
justiça e a felicidade, que é tudo no mundo». João Paulo Esteves da Silva
também se apoia na imaginação em busca de uma música que reflicta a beleza
vibrante do mundo. Logo no primeiro poema, o sujeito poético fecha os olhos e
continua a imaginar, imagina «peixes evoluindo para pombos», imagina que
atravessa paredes e, ao imaginar, como que se distancia da chuva miudinha que
cai lá fora, isto é, que cai na realidade: «o contrário da minha imaginação
estúpida». Neste acto de imaginar pressentimos aquilo a que podemos chamar uma
deslocação para fora do mundo, numa demanda aparentemente solitária, consciente
dessa aparência, daquilo que se oponha à bruta realidade dos dias: «E não é que
me desinteresse da política, interessa-me até, mas caí no poço da merda / Tenho
pouca vontade de fazer ondas, bóio suavemente, habituo-me ao cheiro».
Em versos
longos, vertiginosos, a escrita de João Paulo Esteves da Silva neste livro mostra-se
fragmentária. Os poemas são como que apontamentos diarísticos onde se misturam
retratos e memórias, confissões, sensações, vislumbres, num espaço concreto, o
de Lisboa, e num tempo identificável, dos últimos meses de um ano ao início do
outro. Inconclusiva nas abstracções a que se propõe, é uma poesia marcadamente
cinematográfica. O sujeito poético fotografa a realidade para a ver de mais
perto, como se a olho nu um nevoeiro se interpusesse entre o objecto e a
percepção. A dimensão mais atractiva que aqui encontramos é, contudo, a da
relação estabelecida entre o olho e o ouvido, dois órgãos onde a percepção se
desdobra em imagem e som: «Se se ouvir com os olhos, a música do sítio aparece
/ Quase sempre lamentosa, dorida, solitária mas também, às vezes, no inverno //
Assim, radiosa, esperançosa e sem se ver, mesmo música». Especialmente
interessante num poeta cuja relação com o universo musical é fortíssima, esta
espécie de inversão na faculdade dos sentidos sublinha o caos do mundo. Num
outro poema «Há uma altura em que as imagens deitam cheiros».
Ouvir com os
olhos, ver o ruído, cheirar as imagens, apontá-lo, é uma outra forma de estar
atento. No CD, damos com um exercício, intitulado No Café, elaborado a partir de
falas comuns, palavras escutadas ocasionalmente, que denota essa mesma atenção subvertida
pela confusão dos sentidos. A este propósito, «Lembro a história, contada por
Lévy Strauss, da mulher devorada pelos parentes / Por ter confundido os
sentidos, o próprio com o figurado, ou vice-versa, no caso». Mais uma vez,
ocorrem-nos pensamentos de Pascal: «Dois erros: 1.º tomar tudo literalmente; 2.º tomar
tudo espiritualmente». Esta poesia abre, precisamente, o campo à
espiritualidade, desde logo, por não manter uma relação literal com a
realidade. Neste caso, o poeta é ainda aquele que consegue descobrir buracos
azuis entre as nuvens. Tal descoberta não seria possível sem a deslocação,
sem o afastamento ou, se preferirem, sem o exercício de abstracção aqui
proposto. Ao pormenor, toda a panorâmica adquire novos sentidos, estimulantes significações. E o conselho
de Pascal nem é mau de todo, apesar de sabermos quanto da condição humana se resume a tédio e inquietação.
UM POEMA DE JOÃO PAULO ESTEVES DA SILVA
10
Está combinado, então, vamos começar o novo ano, é hoje
Ainda não sabemos onde deitar os anos velhos, mas não faz mal
Começaremos tal e qual como nas brincadeiras, ninguém se mexe antes do sinal
E, todos à uma, obedecem à voz do chefe, seja menino ou menina, conforme calha
O chefe, hoje, será o relógio, ou antes o coro dos relógios católicos romanos
Que começaram a contar a partir do instante em que a graça chegou ao mundo
Antes disso vivia-se sem graça, abaixo de zero, só desde então
Com graça, em anos positivos, e é este o mito que nos comanda
Precisamos de histórias inventadas, de contagens assim, ou perdemo-nos
George Eliot, este nome é também um começo inventado
Lembra, falando de começos, que até a ciência precisa de histórias
A que chama hipóteses e axiomas, e ela, George, escritora inglesa
Precisou, à partida, de se disfarçar de escritor inglês, e de instalar
No subconsciente dos leitores uma pila imaginária, mitológica
Corriam outros tempos, outras graças, mas é possível mudar
Os mitos, mudar de história, saltar para fora do império romano
Aqui no tablet, por exemplo, posso sincronizar-me com o tempo judaico
Um ligeiro toque e já não acaba o ano, já lá vai a festa
Hoje, dia 17 do mês de Tevet de cinco mil setecentos e setenta e seis
Um dia simples, vago, no mês das chuvas lamacentas da babilónia
Vou telefonar a desejar boas entradas à família e aos amigos
Ninguém vai suspeitar que estou a ligar do estrangeiro
João Paulo Esteves da Silva, in Vertem-se Bíblias em Quimbundo, com CD Crime, Mia Soave, Abril de 2017, s/p.
VOTO DE PESAR
Por todos quantos são explorados à custa da ganância, da avidez, da cobiça, da insensibilidade e da indecorosa falta de respeito manifestada por administrações de empresas para quem trabalhadores empregados são meros colaboradores ou parceiros a quem devemos pagar o mínimo exigindo o máximo.
EPIFANIAS #39
39
Ela está, com o livro ligeiramente mantido junto ao peito,
a ler a lição. Contra o pano escuro do vestido a sua face, assinalada por uns
olhos abatidos, surde suavemente delineada pela luz; e de uma boina dobrada,
descuidadamente disposta, um pendão cai ao longo do seu castanho cabelo
espiralado . . .
Que lição estará a ler — sobre macacos, estranhas invenções,
ou as lendas dos mártires? Quem sabe quão profundamente meditativa, quão
reminiscente é esta graciosidade de Raffaello?
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.UMA IMAGEM
Cerca de 105 toneladas de marfim e de cornos de
rinoceronte (queimada no Parque Nacional de Nairobi, Quénia, 2016; fonte: Times
Litterary Supplement). Copiado: aqui.
quarta-feira, 29 de novembro de 2017
POEMAS DE EINAR ØKLAND
O nosso capitalista, aquele que constrói e destrói –
Ele empilha pedra
sobre pedra, até que todas
as pedras rebolam por ali abaixo.
Empilha pedra sobre pedra.
Lá, do sítio onde vai pela pedra
não sobrará pedra
sobre pedra.
Einar Økland, n. 17 de Janeiro de 1940, Sveio,
Noruega.
terça-feira, 28 de novembro de 2017
EPIFANIAS #38
38
[Dublin: na esquina da
Rua Connaught, Philbsborough]
O pequeno varão — (no portão do jardim). . Nhã. .o.
A primeira senhorita — (meio ajoelhada, pega na
mão dele) — Bem, a Mabie
é a tua querida?
O pequeno varão — Nhã. . .o.
A segunda senhorita — (inclinando-se sobre ele, olha
para cima) — Quem é a tua
querida?
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.segunda-feira, 27 de novembro de 2017
UM POEMA DE RUI ALMEIDA
Quanto não teríamos dito
Se não fossem essas janelas,
Altas, de onde pudemos ver
Os espaços abandonados
Da nossa existência.
Quanta não seria
A ausência sem esses vidros
A deixar ver a desolação
Depois posta à prova
E ocupada com traços
Feitos por dedos ondulantes e
Com ervas rasteiras e cheirosas.
Deixámos a transparência
Ser do tamanho daquilo
Que vimos reflectido
Na superfície
Dos nossos olhos, no brilho
Da boca enquanto dizia
As palavras de uma infância
De agora com os pés descalços.
Se não fossem essas janelas,
Altas, de onde pudemos ver
Os espaços abandonados
Da nossa existência.
Quanta não seria
A ausência sem esses vidros
A deixar ver a desolação
Depois posta à prova
E ocupada com traços
Feitos por dedos ondulantes e
Com ervas rasteiras e cheirosas.
Deixámos a transparência
Ser do tamanho daquilo
Que vimos reflectido
Na superfície
Dos nossos olhos, no brilho
Da boca enquanto dizia
As palavras de uma infância
De agora com os pés descalços.
Rui Almeida, in A Pedra Não Pode Ser Coração, do lado esquerdo, Setembro de 2017, p. 40.
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Lidos em 2017,
Os mestres e as criaturas novas
domingo, 26 de novembro de 2017
ASSASSINOS DA LUA DAS FLORES
Não fora certas ironias que da história, o
destino dos Osage teria sido igual ao de inúmeras tribos indígenas exterminadas
pela colonização. Viveram durante séculos nas Grandes Planícies, com uma
economia baseada na caça de búfalo e na plantação de milho. Eram admiráveis
caçadores e corajosos guerreiros. No final do século XIX, expulsos das suas
terras, foram fixados numa reserva que mais parecia um monte de rochas. Pouco
tempo depois, as terras de Pawhuska e Gray Horse deixaram de ser olhadas como
montes de calhaus onde viviam selvagens. Já no início do século XX, descobriu-se
que as terras para onde os Osage haviam sido atirados possuíam no subsolo
algumas das maiores jazidas de petróleo dos Estados Unidos. Pela década de 1920
os Osage eram considerados o povo mais rico per capita do mundo, embora
vivessem numa reserva e o Estado norte-americano não lhes reconhecesse os
direitos que reconhecia aos brancos. A sociedade norte-americana, profundamente
racista, espantava-se com a prosperidade da tribo. Havia até quem a
considerasse ultrajante, nomeadamente quando os índios exibiam os seus
empregados brancos em mansões que mais pareciam as de grandes proprietários de
escravos. Tudo isto parece uma enorme ironia do destino, mas o Estado
norte-americano e a sociedade que o sustentava encarregou-se a breve trecho de
pôr fim às ironias.
Do confinamento à assimilação, a política americana para
os assuntos índios passou a contemplar pormenores que já não tinham em vista um
mero processo de aculturação. Aculturados que estavam, era importante que os
Osage aprendessem a administrar a sua fortuna. Como? Basicamente, colocando-a
nas mãos de brancos. Impôs-se às tribos o sistema de lotes para acabar com o
antigo modo de vida comunitário, obrigou-se os índios a terem administradores
das suas fortunas que fossem brancos, homens supostamente de bem que cumpriram
o papel de guardiões de fortunas imensas, as quais há muito vinham sendo
cobiçadas pelos grandes barões do petróleo. Porém, no ano da graça de 1921, já
em pleno século XX, um assassinato, depois outro e mais outro, instauraram uma
época hoje conhecida como o Reinado do Terror. Os Osage estavam a ser
assassinados um a um, lenta e metodicamente. Era preciso perceber por quem.
Este terá sido, por assim dizer, o primeiro grande caso da instituição que hoje
conhecemos pela sigla FBI.
David Grann, reputado jornalista da New Yorker,
voltou a pegar neste caso com praticamente um século e escreveu um livro clarificador.
Assassinos da Lua das Flores – A Matança dos Índios Osage e o Nascimento do FBI
(trad. José Vieira de Lima, Quetzal, Julho de 2017) lê-se como uma reportagem
jornalística, profusamente documentada e com inúmeras ilustrações esclarecedoras. No final, as fontes são inúmeras e diversas. Do trabalho exaustivo levado a cabo por Grann retira-se que esta história é de tal
modo sórdida que, a páginas tantas, perdemos o tino à realidade e julgamo-nos
no meio de uma ficção policial. As conclusões de Grann são avassaladoras: «Embora
o FBI estimasse que tinha havido vinte e quatro homicídios de osage, o
verdadeiro número era indubitavelmente maior. (…) Académicos e investigadores
que, desde então, têm examinado os homicídios, acreditam que o número de índios
osage assassinados foi de várias dezenas ou mesmo centenas» (p. 349). Não se
trata apenas de um problema de números, cuja discrepância se explica pelo facto
de muitas das mortes que hoje se supõe terem sido assassínios não terem sido à
época analisadas como homicídios. O problema é também de métodos, que incluíam
casamentos oportunistas, uma dupla de médicos ao serviço dos criminosos,
jogadas com agências de seguros e com bancos, etc.
«Os planos para assassinar os
índios contavam com médicos que falsificavam certidões de óbito e agentes
funerários que, rapidamente e sem darem nas vistas, enterravam os cadáveres. (…)
Com efeito, praticamente todos os elementos da sociedade eram cúmplices da rede
assassina» (pp. 358-359). Quer isto dizer que os Osage começaram por ser
vítimas, nas mãos dos brancos, da sua cultura; aculturados, passaram a ser
vítimas da sua riqueza; ricos, foram vítimas de toda uma sociedade branca que
avidamente se instalou à sua volta com a avidez dos parasitas. The FBI Story
(1959), o filme de Mervyn LeRoy com James Stewart no papel de protagonista, já
tinha aflorado o mais famoso dos casos aqui investigado. O livro de Grann, ao que parece com direitos adquiridos
para adaptação cinematográfica, conta-a com uma profundidade perturbadora. Os
esquemas, a depravação, o clima de terror a que estas pessoas foram sujeitas,
numa reserva onde supostamente poderiam sentir-se finalmente protegidas das
ameaças do homem branco, é-nos difícil de imaginar. No final, a lei acabou por
ter para com três dos condenados a misericórdia que nunca teve para com as
vítimas. As quais, ainda hoje, estão por ser ressarcidas pelos bens que lhes
foram usurpados.
sábado, 25 de novembro de 2017
EPIFANIAS #37
37
Encontro-me no convés, junto à casa das máquinas, de onde
exala um cheiro a massa morna. Névoas gigantescas marcham sob as falésias
francesas, obsidiando a costa de cabo a cabo. O mar movimenta-se ao som de
diversas escalas. . . . Para lá dos muros de névoa, na escura igreja da
catedral de Nossa Senhora, eu escuto o fulgor, incluindo as vozes de rapazes que
por lá cantam diante do altar.
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
VIVA O CAPITALISMO (a velha escola)
Quanto White mais investigava o fluxo do dinheiro do petróleo dos headrights osage, mais camadas de corrupção encontrava. Embora alguns gestores e administradores tentassem agir tendo em vista os melhores interesses da tribo, eram muitíssimo mais aqueles que usavam o sistema para ludibriarem as pessoas que pretensamente protegiam. Muitos gestores compravam para os seus protegidos bens das suas próprias lojas ou inventários a preços inflacionados. (Um deles comprou um carro por 250 dólares e depois revendeu-o ao seu protegido por 1250). Ou então os gestores faziam todos os negócios dos seus protegidos em certas lojas ou bancos, em troca de subornos destes. Alguns afirmavam estar a comprar casas e terras para os seus representados quando, na realidade, as estavam a comprar para si mesmos. Outros pura e simplesmente roubavam. Um estudo do governo estimava que, antes de 1925, estes gestores tinham surripiado pelo menos oito milhões de dólares directamente das contas restritivas dos seus representados. «O capítulo mais negro da história destes Estado será o da gestão dos bens dos índios», declarou um líder osage, acrescentando: «Os gestores têm dissipado e gasto milhões - não milhares -, mas milhões de muitos dos Osage.»
Este «negócio índio», como White descobriu, era uma complexa operação criminosa em que vários sectores da sociedade eram cúmplices. Normalmente, os desonestos gestores dos bens índios eram os mais proeminentes cidadãos brancos: homens de negócios, rancheiros, advogados, políticos. Proeminentes eram também os agentes da lei, promotores públicos e juízes que facilitavam e ocultavam a fraude (e que, por vezes, desempenhavam também o papel de gestores).
David Grann, in Assassinos da Lua das Flores - A
Matança dos Índios Osage e o Nascimento do FBI, trad. José Vieira de Lima,
Quetzal Editores, Julho de 2017, pp. 194-195.
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
quinta-feira, 23 de novembro de 2017
REBANHO
Agora que pinga, podemos garantir que amanhã os portugueses estarão deveras preocupados com a seca. Em vésperas de black friday,
ficou evidente a impaciência, a ansiedade, a avidez insaciável do consumidor e
do consumismo que o alimenta, como agora se diz, fazendo mexer a economia. Não
dos desgraçados minimamente assalariados, que esses, ao contrário da água, não
escasseiam. Mas dos outros, os que se afogam na própria baba só de pensarem:
vem aí dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, dinheiro, só dinheiro,
mais dinheiro, o valor absoluto do dinheiro, o Deus dos deuses do Olimpo,
sagrado dinheiro que me dás tudo quanto anseio. Que os gulosos não bebam a água
toda, deixem um pingo para a carneirada que os alimenta. Um dia, morreremos todos cheios de sede da humanidade que ora fenece.
UM POEMA DE VICENTE HUIDOBRO
CANSAÇO
Caminho dia e noite
Como um parque desolado
Caminho dia e noite entre esfinges desmoronadas de meus olhos
Perscruto o céu e sua erva cantante
Olho o campo ferido por gritos desmesurados
E o sol no meio do vento
Afago meu chapéu cheio duma luz incandescente
Passo a mão sobre o dorso do vento
Os ventos que passam como as semanas
Os ventos e as luzes com gestos de fruta e sede de sangue
As luzes que passam como os meses
Quando a noite se apoia sobre as casas
E o perfume dos cravos gira sobre seu eixo
Sento-me como o canto dos pássaros
É o cansaço longínquo e a neblina
Caio como o vento sobre a luz
Caio sobre minha alma
Eis o pássaro dos milagres
Eis as tatuagens de meu castelo
Eis as minhas plumas sobre o mar que se afasta
Caio de minha alma
E desfaço-me em pedaços de alma sobre o inverno
Caio do vento sobre a luz
Caio da pomba sobre o vento
quarta-feira, 22 de novembro de 2017
EPIFANIAS #36
36
Sim, são as duas irmãs. A que está a bater natas com
braços robustos (a sua manteiga é famosa) parece infeliz e sombria: a outra
está feliz porque encontrou o seu caminho. Chama-se R. . . . Rina. Sei o verbo “ser”
na língua delas.
— És a Rina? —
Eu sabia que era.
Mas ei-lo o próprio num casaco de abas e com um chapéu
alto à moda antiga. Ele ignora-as: caminha em passos curtos, fazendo sobressair
as abas do seu casaco. . . . Deus meu! Quão pequeno é! Deve ser muito velho e
fútil. . . . Talvez não seja o que eu. . . É curioso que aquelas duas grandes
mulheres se tenham perdido por este pequeno homem. . . . Mas então ele é o
maior homem do mundo. . . .
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
terça-feira, 21 de novembro de 2017
EPIFANIAS #35
35
[Londres: numa casa em
Kennington]
Eva Leslie — Sim, Maudie Leslie é ‘nha irmã e
Fred Leslie é mê irmão — ‘cê
ouviu falar do Fred Leslie? . . . (meditando) . . .
Ó, el’é um tipo que se ‘tá nas tintas. . . Ele ‘tá
longe de momento. . . . . . .
(mais tarde)
Ê disse-te qu’alguém foi comigo
dez vezes ‘ma noite. . . . Foi o
Fred — o mê próprio irmão Fred. . . .
(meditando). . . El’é linde. . . Ó Ê
amo mêmo o Fred. . . .
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.domingo, 19 de novembro de 2017
TRÊS LIVROS, TRÊS AUTORES
Manuel Fernando Gonçalves (n. 1951), Rui Baião (n. 1953)
e Paulo da Costa Domingos (n. 1953) são de uma mesma geração, a última que
experimentou o ambiente social da ditadura em pleno uso, por assim dizer, das
suas faculdades. Quando se deu a chamada Revolução dos Cravos, teriam
aproximadamente vinte anos. Eram jovens num país de poetas entalado entre a
herança libertária dos surrealistas e o neo-realismo, mais ou menos de
cartilha, em voga nos salões da cultura aparentemente revolucionária. Conquanto
tenham alicerçado a sua arte ainda na década de 1970 — Paulo da Costa Domingos, por
exemplo, começou a publicar em 1972 —, foi na década seguinte que as suas
propostas poéticas melhor se afirmaram. Nomeadamente, contra os salões (fossem
eles putativamente revolucionários ou académicos, o que ia dar ao mesmo). Não
ficará mal falar de contracultura, se falarmos de uma arte alternativa ao
cânone vigente com um forte sentido de experimentação no domínio da contestação
social. Apraz-nos constatar que passados quarenta e qualquer coisa anos sobre
as primeiras publicações, estes poetas mantenham vivo o impulso criativo que
nos três casos, manifestando expressões distintas, se liga por uma concepção da
poesia que não abdica do mundo enquanto matéria de reflexão.
Barbearia Tiqqun (Frenesi, Setembro de 2017) é, por si
só, um título que nos coloca alerta. Tiqqun é o nome de uma publicação surgida
após os atentados de 11 de Setembro de 2001, inspirada na acção anarquista e na
filosofia situacionista, que gerou alguma polémica depois de um dos seus
membros, o activista político Julien Coupat, ter sido preso sob acusação de
sabotagem e de terrorismo. A pergunta impõe-se: que cortes serão levados a cabo
nesta barbearia? O intróito entre parêntesis adverte-nos para um Nada absoluto que
percorrerá os versos subsequentes. O niilismo, como sabemos, é a derradeira
negação de uma possibilidade de sentido para o mundo. Ele começa por negar as
sistematizações, não lhe sendo possível, porém, negar a morte enquanto componente
determinante da realidade. O niilismo advém de uma noção de crise ou de
naufrágio fundada no sentimento de perda, à qual juntamos um inevitável processo
de saturação histórica fundamentado na recusa de qualquer tipo de fé que
confira sentido ao Mundo e à existência. No limite, como diriam alguns
existencialistas, estamos condenados a viver a morte. O niilismo na poesia de
Rui Baião exprime-se através de uma linguagem derisória que tem por objecto a
actualidade mundana, detectável, por exemplo, num título como “Quod non est in
tv non est in mundo…” A opção pela língua morta confere ao poema um princípio
irónico, que o verso inicial prossegue sob a forma de axioma: «Morro, morro a
rir» (p. 14).
Mas mais do que irónica, esta poesia é sarcástica — no
sentido em que expõe com extrema crueldade os podres do mundo. «Por ond’anda o
teu silêncio, se não junto / aos tectos do mundo?» (p. 5), questiona Rui Baião no
poema inicial. O título “Cesura” é como uma espécie de ignição, o início de uma
violenta operação exercida sobre o corpo e sobre a vida. Só não percebemos se
esta vida ainda mexe ou se é já um cadáver no momento da autópsia. Alusões às
ferramentas tecnológicas que hoje medeiam a existência dos povos, pelo menos
tecem um diagnóstico nada favorável. O poema não resulta aqui como uma forma de disfarce, ele expõe o terror do
mundo, as fracturas da humanidade, sem qualquer tipo de preocupação para com o
belo ou para com as armadilhas de sedução poética de que geralmente os líricos
se servem para cativar leitores. Num título como “Cybéria” é a saturação da
humanidade que se coloca em plano, uma espécie de doença geral a que não fica
alheia a actualidade pirómana nacional. Nem o amor escapa: «Quando é de amor /
que se trata, ora aí está. A casa vazia, o remoinho / na empresa, os textos são
como os mapas. Choram / os teus olhos, a vela enfunada, a menina dança? / Que
descaramento, um predador perdedor» (p. 18).
Reencontramos em Romance Ardente (Frenesi, Setembro de
2017), de Manuel Fernando Gonçalves, vários dos ingredientes observados em
Barbearia Tiqqun. Há uma interligação entre os dois livros obviada logo ao primeiro
poema, assim como numa referência directa a Rui Baião surgida a páginas 29, com
menções repetidas a alguém que se sente perdido, estende o mapa-múndi, ou mapa
do mundo, ouve lala mary-am challa… Mas se em “Cesura” Rui Baião se questionava
sobre o silêncio de algo ou de alguém junto aos tectos do mundo, em Manuel
Fernando Gonçalves: «é aqui, / o tecto do mundo, não é preciso miragens nem
boas razões, / mais próximo da realidade, audaz, mais amigo do vento» (p. 8). A
epígrafe de Eliot não engana, Romance Ardente é um romance de guerra. No poema
longo que oferece título ao livro detectamos uma compulsão narrativa muito
característica desta poesia. Os poemas projectam um olhar descritivo da cidade
moderna, arrastando na descrição as ruínas culturais de um povo entre muralhas.
Os anjos convocados estão cheios de fármacos, carecem eles mesmos de protecção.
É evidente o desamparo, sublinhado por uma ironia marcada pelo desalento da
figura exemplar: um homem não chora. Vale a pena citar o poema na íntegra:
Um homem não chora, cartilha
Um homem como deve ser deve
estar atento aos sinais, produzir muito
pouco e evitar grandes explicações.
Tem de ser poeta: só nos versos
se emenda a mão, se é inteligente
e se tem razão. Um homem vibra
com certos sons, fremem-lhe os músculos,
percebe o arfar dos tecidos macios da roupa,
o seu desafio são os gestos elegantes
com que caminha, com que cumprimenta,
com que condescende não enunciar.
Nos desafios deve correr ao verso,
à sala das ferramentas, aos instrumentos
que o fazem forte, único e sagaz:
as melhores horas são as do desejo,
com certeza insiste em simular, em virar
o tecido ao decote, decerto as veias da testa
sobressaem quando cita uma erudição
qualquer. Tem de usar a memória,
que até pode ser de mulher, para responder,
sem sentimento, a esses disparates
do quotidiano moderno, a essa politiquice
da comunicação de massas, virtual e menor,
e pode, perfeitamente, aspirar da colher.
Num movimento espiralado e por vezes vertiginoso, as
imagens repetem-se como ecos obsessivos de uma mesma percepção. Assim sucede
com «a dança surda dos cães que esperam», no poema "A poesia" (p. 11) e no poema "Urze e fantasia" (p. 25). Este efeito de repetição sublinha igualmente a tal
saturação que surge em plano de fundo. Como na música dos The Golden
Palominos e dos Dead Can Dance, evocados a par de referências literárias
diversas, o negrume tinge a poesia à medida que a espiral nos transporta na direcção
de uma temática central: a morte. Não perdendo de vista o romance, introduzido
por um soneto a páginas 33, é a morte nas suas várias configurações o elemento
que se impõe no horizonte. Importa, no entanto, chamar a atenção para esta
morte, de algum modo aclarada pelo manifesto que acompanha, ao jeito de
introdução, o livro de Paulo da Costa Domingos: Sumo de Limão (Frenesi,
Setembro de 2017). Os três livros, publicados em simultâneo pela editora Frenesi,
nome ao qual se juntou na capa o prefixo ed. viúva, podem ser lidos à luz do
manifesto intitulado "O Estatuto do Cadáver no Mundo Contemporâneo".
Concentremo-nos no verbo perder. O verbo perder pode
indicar desorientação. Estar perdido é não reconhecer o caminho, é sentir-se
baralhado, é naufragar. Mas perder pode também remeter para o abandono, quando
perdemos alguma coisa ou alguém. Por fim, perder é sinónimo de derrota. Por
mais que sejam as armas, como na epígrafe de Eliot, a derrota é certa. Ora, em
todas estas possíveis conjugações do verbo perder a morte assume o mais
preponderante dos papéis. A morte é o princípio do homem absurdo, a consciência
da morte rouba ao homem o sentido da existência, fá-lo naufragar, sentir-se
perdido ou estrangeiro, como na obra de Camus, entre os demais. É também a
morte que nos introduz à perda, ao abandono. Lidar com a morte dos outros é
lidar com a perda. No final, saímos todos derrotados. Predadores perdedores,
como no poema supracitado, é esta a nossa condição de náufragos. O verso
inicial do livro de Paulo da Costa Domingos não podia ser mais claro: «FOI
ASSIM: está-se perdido estende-se o mapa-múndi / e sem perda de tempo começa-se
logo a respirar» (p. 9).
A relação entre estes três livros não é, pois, meramente
geracional. Os motivos repetem-se na distinção das vozes. O olhar lançado sobre
a cidade é também o de um divórcio consumado entre o poeta e o seu campo de
acção, devidamente ilustrado pela invocação de Herberto no poema final ou pela epígrafe
de Richard Sennett no livro de Paulo da Costa Domingos: impõe-se o silêncio,
porque o silêncio é a ausência de interacção social. Uma mesma ética subjaz,
portanto, ao texto acolhido nestes três livros. Trata-se da ética de um
desencontro do poeta com o seu tempo, perdidas todas e quaisquer ilusões sobre
a excepcionalidade da poesia. «Ides ler um livro de versos banais», afirma-se
no tal manifesto acerca do estatuto do cadáver no mundo contemporâneo. Mas de banais estes versos têm apenas a força
das circunstâncias, a transformação que torna irreconhecível o lugar onde
perder é entre os dados adquiridos o mais adquirido de todos.
UM POEMA DA MARIA
isto é novembro
o que ao longe
me pareceu
ser
uma estrada
de luz,
era, afinal,
uma nesga
de campo
orvalhado
a brilhar
ao sol
matinal.
(aqui)
sábado, 18 de novembro de 2017
ESCÓRIA
Escutas, interrogatórios, acórdãos. A gente lê e perde respeito pelo sistema. Que a justiça era um cancro neste país, há muito muita
gente o vinha acusando. Mas que seja um cancro assim tão evidente, com os seus
principais agentes ao nível da escória, é algo de perder qualquer tipo de
esperança na reforma do sistema.
UM POEMA DE PAULO DA COSTA DOMINGOS
Bem sabes, já fui preto e jangadeiro e lançado
às águas do teu canal, e tu, branca, lívida, mal
parecias tocar-me, embora fosses torrente e sal.
Nunca tive, sequer, uma terra prometida.
Amigos, tinha. Dos risonhos, verdadeiros
diabos. Pretos, eles também; ¿lembras-te?...
Senhores dos atributos da peste: «outros», dizia-se,
capazes de envergar vestes de zinco, ostracizados.
À fé de quem fui, juro!, drogas não sei
se tomavam:
minto; em dois mil novecentos e noventa e
nove só se ouvia
o rolar triunfal de garrafas debaixo das
camas ou no polígono
do corredor. A cidade está a mudar, até a
nossa cor.
¿Alguma vez, alguma vez te perguntei, na
escuridão,
no apaziguamento, pelas tuas próprias
cinzas?
Paulo da Costa Domingos, in Sumo de
Limão, Frenesi, Setembro de 2017, p.12.
EPIFANIAS #34
34
Ela vem de noite quando a cidade se acalma; invisível,
inaudível, todos desconvocados. Vem do seu ancestral assento para visitar o
último dos seus filhos, mão mais venerável, como se ele nunca se tivesse
alienado dela. Ela conhece o íntimo coração; daí que seja gentil, nada exigente;
dizendo: eu sou susceptível de mudança, uma influência imaginária nos corações
dos meus filhos. Quem tem pena de ti quando te encontras triste entre
estranhos? Anos e anos eu te amei enquanto repousavas no meu ventre.
James Joyce, in Shorter Writings.
Versão de HMBF.
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
VENHAM A DEUS OS MACHOS
D. Manuel Clemente desaconselha o sacerdócio a jovens que manifestem inclinações homossexuais. Manifestar inclinações homossexuais é algo vago, pelo que deveríamos exigir a D. Manuel Clemente uma clarificação das recomendações. Aconselha-se o sacerdócio a garanhões? E a ninfomaníacos? E a pedófilos? E a predadores sexuais? As dúvidas são muitas, nesta matéria de difícil compreensão para um ateu. O que já não é tão difícil, e obriga o ateu a manifestar-se, é a constatação de que um discurso segregacionista, homofóbico, discriminatório, proferido por certas clemências não gera tanto asco social, tanta indignação e condenação, como se fosse proferido por outros Manuel. Fica a dúvida: porquê?
A HISTÓRIA DO CHECOSLOVACO
Entre a enxerga e as tábuas da cama, eu encontrara, com efeito, um velho bocado de jornal, amarelecido e transparente, quase colado ao pano. Relatava um acontecimento cujo início faltava, mas que devia ter sucedido na Checoslováquia. Um homem partira de uma aldeia para fazer fortuna. Ao fim de vinte e cinco anos, rico, regressara casado e com um filho. A mãe dele, juntamente com a irmã, tinham uma estalagem na aldeia. Para lhes fazer uma surpresa, deixara a mulher e o filho noutra estalagem e fora visitar a mãe, que não o reconheceu. Por brincadeira, tivera a ideia de se instalar num quarto como hóspede. Mostrara o dinheiro que trazia. De noite, a mãe e a irmã tinham-no assassinado à martelada e atirado o corpo para o rio. No dia seguinte de manhã, a mulher do desgraçado viera à estalagem e revelara, sem saber, a identidade do viajante. A mãe enforcara-se. A irmã atirara-se a um poço. Devo ter lido esta história milhares de vezes. Por um lado, era verosímil. Por outro lado, era natural. De todos os modos, achava que o viajante merecera até certo ponto a sua sorte e que nunca se deve brincar com estas coisas.
Albert Camus, in O Estrangeiro, trad. António Quadros, introdução de Jean-Paul Sartre, Livros do Brasil, s/d, pp. 161-162.
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
UM POEMA DE MANUEL FERNANDO GONÇALVES
Esta alma de que falo, supercara
Costumava pensar que um subsídio
é que era, dava um jeitão para escrever,
o que significa, de forma mais fria, responder
a esse apelo conforme o clima e a paisagem,
um pouco na mesma onda do cinema,
da responsabilidade política e, até, do crime
organizado. Escreveria melhor, decerto,
pensaria mais, ostentava outra ousadia,
muito mais próxima da realidade, ora não?
Como toda a poesia tem princípios,
não sei o que mais tem, é bom que se saiba
que o estado é meu devedor e que não relego
o direito de ser um poeta de luxo, de ninguém
me ler o que, acredito, me torna, assim, universal:
não admito a existência sem uma casa grande,
cheia de segredos, impecável, sem uma empregada
que, além do resto, me trate da roupa, receba
pequenos extras, me trate com respeito
e alguma estima. Sem telemóvel é que não!
Senão como falarei para o infinito, para deus,
para os outros poetas sobre a graça
que tem a fina desgraça deste mundo? E as contas,
as contas têm de ser pagas, imaginem só
ficar a dever alguma coisa a alguém! Não há saco
para autarcas e muito mais elegante é pagar,
ao cêntimo, a esses que cobram preços exorbitantes
e, tolos, imaginam que sou eu ao pagá-los.
Também não se suporta vinhos medíocres: fazem mal
ao estômago e qualquer sagitário tem isso como adquirido,
que vinhos só muito bons e libações só mesmo elegantes.
Além de que gosto de guiar, de me precipitar
pelas noites cerradas dos arredores, de passear nas avenidas,
pequeno frisson de dar toques breves na morte:
quase escândalo que comungo com os políticos,
meus superiores e chefes, é que o mecânico me leve,
sem pestanejar, cinquenta euros à hora. Não admira,
pois, que só escreva se gastar dinheiro, paciência
e génio em símbolos o que, aliás, é congénito, não´
resisto a caprichos desmedidos que me namorem a alma.
Esta alma, de que falo, tornou-se complexa, letal:
quando, por exemplo, trabalho nas coisas inúteis da nação,
desacompanha-me, abandona o seu refúgio de nervos
e sangue e põe-se cá fora, ao lareú, a gozar com o respeito
que devo aos escritores, aos senhores doutores
do poder em toda a instância e lá vou eu parar
ao hospital à mínima emoção, ao mais pequeno sinal
de falta de ar. E falta tanto, o ar, em Portugal!
Ora, isso paga-se, a saúde não é de graça,
nem para graças, se bem que gosto de enfermeiras, éter
e de pequenas brochuras supercaras com cenas
de campo e tratamentos ambulatórios.
Se tivesse ocasião para me aconselhar com o médico
que escreve um dos outros livros, era contado
que a obra morria aqui mesmo e agora. Mas já tenho
título para o novo poema: «ponto de fusão baixo e volátil».
Vou pedir-lhe um atestado para faltar ao trabalho
sem ter de descontar no ordenado
e no tempo de férias.
Manuel Fernando Gonçalves, in Romance Ardente, Frenesi, Setembro de 2017, pp 28-29.
quarta-feira, 15 de novembro de 2017
MAIS SILÊNCIO E MENOS TRETA
Há uns meses, abrindo café novo nas imediações da casa
portuguesa, vi que tinham umas prateleiras nas paredes com livros. Passei por
lá e deixei uns exemplares que tinha repetidos em casa de Madame Bovary e
de Moby Dick. Disse à jovem senhora, agradecida pela oferta e de uma
polidez e simpatia irrepreensíveis, que a coisa fica mais composta com aqueles
clássicos. De uma geração que fez o secundário e que provavelmente frequentou a
universidade, disse que os desconhecia. Nada que surpreenda, nem eu a condeno
por isso. É algo de perfeitamente normal entre nós. Todos nós conhecemos gente
boa e bem formada que os desconhece.
Por outro lado, há qualquer coisa que falha no sistema de
ensino português quando aqueles que o frequentaram chegam à idade adulta sem
conhecerem (ainda que pela rama) esses romances fundamentais do sec. XIX. Há
algo de errado numa sociedade que não os propaga e oferece, louvando-os,
falando deles, aos geral dos indivíduos que a integram. De alguma forma, essa
falha é colmatada à medida que nos deslocamos do sudoeste europeu até ao
extremo nordeste. Há mais livros, mais leitores. Diria que mais bom-senso e empatia,
mais silêncio e menos treta.
UM POEMA DE RUI BAIÃO
Memento mori
O importante é saber se trabalhar cansa.
Só de me rir continuo a morrer. Morto, e bem morto
na morte — esse o teu chip romântico?... Trabalhar cansa,
corrói tudo por dentro, como as ratazanas sabem.
Euseilá, se sou meio cá meio lá, de encontro ao muro,
no chão, ou no sofá. A dívida de tão infra humana, o termo-
-aquecimento, os drones a cert'altura, a geolocalização.
É tudo tão triste, euseilá se um peregrino a fazer químio
faz toda a diferença? Euseilá se faz pena uma cidade
com berças. É só conversa, certos Estados democráticos
idem idem, do wi-fi da tua alma que é tão fraco. Do viral terror,
das doenças terminais. Enfim, morrer, morrer de mais cansa.
Dá trabalho a muita gente, a fechadura romântica!?
Trabalhar, dá vontade d'estar preso, d'abrir os portões ao paiol.
Dar de cabra sem saber, se uma chamada caída,
se um avião desviado. A um não-doente, a comichão política
& exsudativa da nação. O prémio da montanha
é de louvar a descida aos infernos. Dá vontade de bazar
daqui para fora. A correr, a saltar. A pular quando
morro a pedalar. Não trabalhar é imperioso.
Rui Baião, in Barbearia Tiqqun, Frenesi, Setembro de 2017.
terça-feira, 14 de novembro de 2017
VIVA O CAPITALISMO
A família de Mollie estava a atravessar uma ponte entre, não apenas dois séculos, mas também duas civilizações. A aflitiva situação da família piorou ainda mais em fins dos anos 1890, quando o governo americano intensificou a sua investida rumo ao auge da campanha de assimilação: a distribuição de lotes. De acordo com esta política, a reserva osage seria dividida em parcelas de sessenta e quatro hectares, em propriedade imobiliária; cada membro da tribo receberia um lote, e o resto do território seria aberto aos colonos. O sistema de lotes, que já fora imposto a muitas tribos, foi concebido para acabar com o antigo modo de vida comunitário e transformar os índios americanos em proprietários de terra - uma situação que, não por acaso, tornaria mais fácil a compra das suas terras.
Os Osage tinham visto o que acontecera à Cherokee Outlet, uma vasta pradaria perto da fronteira ocidental da reserva osage. Depois de o Governo ter comprado a terra aos Cherokee e esvaziado de gente a região anunciou que, ao meio-dia de 16 de setembro de 1893, um colono poderia reivindicar uma das quarenta e duas mil parcelas de terra - desde que ele ou ela chegasse lá primeiro! Durante dias antes dessa data, dezenas de milhares de homens, mulheres e crianças tinham vindo de locais tão longínquos como a Califórnia ou Nova Iorque, aglomerando-se ao longo da fronteira; a massa andrajosa, imunda, desesperada, de seres humanos, estendia-se até se perder de vista, como um exército pronto a lutar contra si mesmo.
Finalmente, depois de as autoridades terem abatido vários «apressados» que tentaram passar a fronteira antes do tempo, soou o tiro de partida - UMA CORRIDA PELA TERRA COMO NUNCA FOI VISTA NO MUNDO INTEIRO, como intitulava um jornal. Um repórter escreveu: «Homens desatavam ao murro até que os mais fracos ficavam por terra. Mulheres gritavam e caíam desmaiadas, correndo o risco de morrerem sob os pés da multidão.» E acrescentava: «Homens, mulheres e crianças jaziam por terra ao longo de toda a pradaria. Aqui e ali, homens lutavam até à morte, reclamando cada um que tinha chegado primeiro a determinado sítio. Navalhas e espingardas eram empunhadas - uma cena terrível e impressionante; não há nenhuma pena capaz de a descrever. (...) Era uma luta em que, de uma maneira muito clara, o que estava em causa era o salve-se quem puder e que valha a lei do mais forte.» Ao cair da noite, a pradaria cherokee estava já reatalhada em pedaços.
David Grann, in Assassinos da Lua das Flores - A Matança dos Índios Osage e o Nascimento do FBI, trad. José Vieira de Lima, Quetzal Editores, Julho de 2017, pp. 69-72.
FALAR PARA O BONECO
Blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá...
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
WC MAIS SEXY DO MUNDO
“Querem fazer do Panteão sacrossanto? Muito bem. Então
lembrem-se que este é o país cuja Assembleia da República aprovou a trasladação
de Eusébio para o Panteão um ano após o seu falecimento, mas que ainda não
conseguiu para lá levar Aristides de Sousa Mendes quase oitenta anos depois de
ele ter salvado milhares de vidas na IIª Guerra Mundial. Mais: este é o
país no qual, se acontecesse a desventura de falecer Cristiano Ronaldo, a AR
teria em toda a coerência de levar o CR7 para o Panteão ainda antes de lá pôr
um “justo entre as nações” como Aristides. E repetir-se-ia para muitos dos
escandalizados de hoje o aplauso geral com que não falharam ontem.
Querem respeitar o simbolismo dos monumentos nacionais? Muito bem. Reparem
então, de cada vez que passarem pela Praça do Comércio, espaço central da nossa
simbólica de Estado, que a República mais visível que lá encontrarão é a
República… da Cerveja. Reparem que um pedaço da mesma praça está ocupado por
uma coisa chamada o “WC mais sexy do mundo”, concessionado para permanente
propaganda de uma marca de papel higiénico (é ao lado do Ministério das
Finanças; paga-se 50 cêntimos para usar os urinóis e passam fatura com número
de contribuinte, portanto deve estar tudo certo). Isto nunca escandalizou
ninguém em Portugal. Perguntem-se se o mesmo aconteceria na Praça de São Pedro,
no Louvre ou no Kremlin.”
Rui Tavares, aqui.
PAI
A poesia é não só, mas também, um discurso das emoções.
Mais do que exprimir sentimentos, resvalando por vezes para o sentimental, o
poema, como qualquer outra obra de arte, coloca-nos em contacto com a emoção.
Um filme emociona-nos, uma canção emociona-nos, um quadro emociona-nos, uma
peça teatral emociona-nos. Porque haveria de ser diferente com o poema? Mau
seria que se esgotasse na emoção a razão de ser da obra de arte. Ela instiga a
reflexão, aclara o obscuro, introduz-nos e inicia-nos no esotérico, exercita o
pensamento, mas não podemos esquecer nunca esta ligação da obra de arte às
emoções. Ainda para mais quando se torna evidente a conexão entre as emoções e
o pensamento. Podemos julgar que na raiz deste contacto, no que respeita à obra
de arte, reside uma ideia de beleza, conquanto aceitemos que essa ideia de
beleza não recuse a fealdade enquanto contraponto que reforça o belo. A
fealdade é aliada da beleza, na medida em que a sua exposição leva-nos a ansiar
pelo seu contrário. Sentimentos tais como a raiva e o ódio exigem-nos um
encontro com a solidariedade e com o amor. A tristeza, a alegria, a melancolia,
que é mais um estado de alma do que um sentimento, surgem entre os mais
universais dos estímulos para a concepção do poema: o amor e a morte.
A elegia
será, provavelmente, a forma poética que melhor interliga o amor e a morte. Carlos
Bessa (n. 1967) publicou recentemente "uma elegia" de 33 poemas, em memória de
seu pai, falecido no ano de 2016. O título Pai (do lado esquerdo, Maio de 2017)
vai directo ao assunto, escusando apetrechos líricos que a situação de luto
desvaloriza. Há neste livro poemas arriscados, como os intitulados Mesa
Mediterrânica e Percursos, devedores in extremis de uma necessidade de clareza
que o título do conjunto sugere. Noutros poemas, o autor ocupa-se na
recuperação de memórias remexendo cofres ao abandono, capta as rotinas do pai
falecido, caracteriza-lhe a personalidade e constrói-lhe uma história, expõe as
últimas horas e rememora situações passadas, numa busca de sentido para a vida
que é, ao mesmo tempo, uma tentativa de compreensão d’«O estupor da morte que
nos assalta a razão» (p. 23).
No que de melhor ofereceu à filosofia, Martin
Heidegger desenvolveu a ideia do ser enquanto ser para a morte. Sabemos que não
teremos a experiência da nossa própria morte, mas a experiência da morte dos outros
é, de algum modo, a experiência limite que podemos ter da nossa morte.
Tratando-se da morte de um pai, a relação de proximidade intensifica essa
experiência. Isso mesmo surge sublinhado num pequeno e belíssimo poema intitulado
Espelho: «Dizem que somos parecidos / como quando ao nascer se projectam /
laços e afinidades. Devemos ser, / mau grado as tantas diferenças. / Somos de
tempos distintos. / Na verdade, tu sempre foste melhor, / mais perto dos
outros. Eu hesito, / ainda, como se o nome, o meu, / fosse todo o peso de uma
herança» (p. 35). A herança não é aqui apenas a de um nome, nem a que os elos
filiais determinam, é igualmente uma herança de valores que a perda obriga a
reconhecer com a mesma clareza com que se reconhecem «laços e afinidades».
Os
momentos de tardia declaração de admiração que surgem em alguns destes poemas,
sem nunca se perderem num sentimentalismo inócuo, são testemunhos pungentes de
uma lição para a vida proferida pela experiência prática da morte: «O corpo
está na capela mortuária, / tem de falar com uma funerária. Como / se nos
piores momentos a morada da poesia / fosse o silêncio que rompe a noite num ah,
/ há que agir, que falar, que acordar, que pensar. / É preciso combater a
anestesia e / arrumar a dor» (p. 26). Talvez os versos, na sua inutilidade mais
do que acusada, denunciada, até apregoada, sirvam pelo menos para isto: arrumar
a dor. Assim sendo, é um sinal de arrumação que dos 33 poemas que compõem o
livro, em coincidência com a data de nascimento da personalidade invocada, o
último tenha por tema precisamente o amor. A morte e o amor, os mais universais
dos estímulos para a concepção de um poema, numa elegia ao jeito da síntese que
a poesia permite quando é sinal de beleza:
CARTAS, MAPAS E LIVROS
O amor, mil maneiras de enlouquecer, é um aviso.
O que importa é o arrebatamento e esquecer,
não fazer perguntas ao passado, às histórias tristes
e banais, manchadas de ritmos que afugentam.
O amor, como lâmpadas que se enroscam e raízes
que se infiltram e espalham num labirinto de confronto.
Frases encaixadas umas nas outras e associações que
envolvem o corpo num peso sem peso, sem infâmia,
apenas luz, apenas cor. Como naquela solarenga tarde
de frio em que os livros foram nossos aliados
na longa caminhada que nos levou por um circuito
de árvores, ruínas e ruas esburacadas de Ermesinde.
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