segunda-feira, 27 de novembro de 2017

#104


Nascido em 1981, Micah P. Hinson mal tinha entrado na adolescência quando Will Oldham, Kurt Wagner, Bill Callahan ou Mark Eitzel voltaram a colocar a música country no centro das atenções. Mark Eitzel, de resto, publicou o primeiro LP com os American Music Club em 1985. Todos estres escritores de canções contribuíram, cada um à sua maneira, para uma renovação da folk, com projectos que voltaram a dar à palavra uma importância fulcral na escrita trovadoresca. Baladas melancólicas, narrando histórias de vidas despedaçadas entre cenários de ruínas, retrataram o sonho norte-americano com uma acentuação muito mais pessimista do que era habitual. O discurso já não era tão impelido por uma vontade de mudar o mundo, como parecia ser por um reconhecimento da derrota (ou de uma hipoteca dos esforços no sentido da mudança). Todos esses músicos tiveram, como é óbvio, as suas fontes criativas, fossem elas a lírica esotérica de um Leonard Cohen ou o negrume de um Johnny Cash, de quem Micah P. Hinson se aproxima indisfarçavelmente em temas como Lovers Lane ou Micah Book One do seu mais recente The Holy Strangers (2017). Álbum conceptual, como antigamente se dizia, este The Holy Strangers percorre uma história familiar marcada pela desgraça e pela desventura. Baladas típicas em Dó-Fá-Sol surgem separadas por instrumentais com arranjos de cordas sofisticados e melodias minimalistas, resvalando amiúde para densas paisagens nebulosas que exigem uma audição concentrada como hoje raramente se usa. Neste sentido, podemos dizer que The Holy Strangers é um registo do seu tempo contra o seu tempo, avesso a melodias descartáveis e com um agradável travo a tradição. Algures entre a redenção e a súplica, eis um dos grandes momentos musicais deste ano:


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