Nascido em 1981, Micah P. Hinson mal tinha entrado na
adolescência quando Will Oldham, Kurt Wagner, Bill Callahan ou Mark Eitzel
voltaram a colocar a música country no centro das atenções. Mark Eitzel, de
resto, publicou o primeiro LP com os American Music Club em 1985. Todos estres
escritores de canções contribuíram, cada um à sua maneira, para uma renovação
da folk, com projectos que voltaram a dar à palavra uma importância fulcral na
escrita trovadoresca. Baladas melancólicas, narrando histórias de vidas
despedaçadas entre cenários de ruínas, retrataram o sonho norte-americano com
uma acentuação muito mais pessimista do que era habitual. O discurso já não era
tão impelido por uma vontade de mudar o mundo, como parecia ser por um
reconhecimento da derrota (ou de uma hipoteca dos esforços no sentido da
mudança). Todos esses músicos tiveram, como é óbvio, as suas fontes criativas,
fossem elas a lírica esotérica de um Leonard Cohen ou o negrume de um Johnny
Cash, de quem Micah P. Hinson se aproxima indisfarçavelmente em temas como
Lovers Lane ou Micah Book One do seu mais recente The Holy Strangers (2017).
Álbum conceptual, como antigamente se dizia, este The Holy Strangers percorre
uma história familiar marcada pela desgraça e pela desventura. Baladas típicas
em Dó-Fá-Sol surgem separadas por instrumentais com arranjos de cordas
sofisticados e melodias minimalistas, resvalando amiúde para densas paisagens nebulosas
que exigem uma audição concentrada como hoje raramente se usa. Neste sentido,
podemos dizer que The Holy Strangers é um registo do seu tempo contra o seu
tempo, avesso a melodias descartáveis e com um agradável travo a tradição. Algures
entre a redenção e a súplica, eis um dos grandes momentos
musicais deste ano:

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