quinta-feira, 2 de novembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #22


   Num poema intitulado “L-E-T-R-A-S para Sigur Rós”, Rui Costa, de quem recentemente se publicou a antologia “Mike Tyson para Principiantes” (Assírio & Alvim, Setembro de 2017), refere-se a elementos essenciais como a água e o ar, colocando-os a par do amor. Quando escutamos um álbum como Ágætis Byrjun (1999), o segundo dos islandeses Sigur Rós, é precisamente do fundo do mar que nos lembramos, porque a marcar o ritmo ouvimos logo desde início uma espécie de sonar como aqueles que se ouvem nos filmes com submarinos.
   O belíssimo teledisco realizado para o tema Svefn-g-englar começa por mostrar-nos o ar como é possível mostrá-lo, na imagem de um tecido branco agitado pelo vento. Depois aparecem várias pessoas com síndrome de Down vestidas de anjo, fazem uma espécie de tai chi em câmara lenta. O tai chi chuan é uma arte marcial chinesa que remete para técnicas de meditação em movimento. Podemos interpretar essa técnica como uma forma de dança embalada pelo ar. O teledisco dos Sigur Rós é também ele uma espécie de dança que, como no poema do Rui, nos leva a respirar “rente ao ar, ao amor”.
   Não precisamos perceber a língua islandesa, em que os Sigur Rós se exprimem, para nos encantarmos com a sua música. Da mesma forma, dispensamos lições de gramática poética para que a poesia nos encante. Basta estarmos dispostos ao encantamento. Com a música talvez seja mais fácil, a música convence-nos pela viagem que nos propõe sem qualquer exigência de pensamento. Vai-nos directamente à pele. A poesia também pode ser assim, quando nela vislumbramos arranjos de cordas capazes de abrir à nossa frente imensos espaços de luz. E então respiramos rente ao ar, sentimos o bater do coração a prolongar-se pelo corpo inteiro como o sangue que nos corre nas veias.
   Sobre o que é Starálfur, a terceira canção de Ágætis Byrjun? E Hjartaõ Hamast? Qual o tema destas canções? Qual a mensagem? Falam-nos de quê? Não interessa. Sabemos apenas ao que nos falam, porque isso experimentamos directamente no coração. É uma viagem ao interior de um útero onde assistimos à germinação de um anjo, debaixo de água os pulmões começarão a funcionar como lhes exige a biologia. Por breves instantes, somos todos peixes, subaquáticos, estamos todos envolvidos num líquido que nos alimenta e tem a forma de música. O mais puro dos ares.
   Ao vivo, constatamos que o arco de violino pode produzir efeitos hipnotizantes quando aplicado nas cordas distorcidas de uma guitarra eléctrica. Mas essa constatação é já a do curioso. Melhor será fecharmos os olhos, ganharmos uma espécie de asas brancas e deixarmos o som fluir como um líquido que alimenta. Como o ar. Respira rente ao ar, escreveu o Rui para os Sigur Rós.


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