A Argélia é um país especial do norte de África, antigo
porto de piratas onde as terras tocam o Mediterrânio e pórtico privilegiado
para o deserto do Saara. Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura em 1957,
nasceu em Mondovi (actual Dréan) quando a Argélia era uma colónia francesa. No
seu primeiro romance, intitulado “O Estrangeiro”, ofereceu-nos a temperatura de um território permeável à indolência. O mar e o deserto são
nesse livro, o primeiro pela presença física, o segundo pela aparência
filosófica, dois elementos fundadores daquilo a que hoje damos o nome de homem
absurdo: aquele que, confrontado com a sua finitude, não vê senão numa
revolta que sabe à partida fracassada o rumo para o sentido da sua existência.
É
de "O Estrangeiro" que me lembro, também, quando regresso ao imaginário musical de Hector
Zazou. Igualmente nascido na Argélia, Zazou foi um produtor musical prolífico. Trabalhou
com músicos de proveniências diversas promovendo encontros entre a modernidade
e a chamada música tradicional. Foi, à sua maneira, um dos grandes impulsores da
chamada world music. Em nome individual, assinou belíssimos álbuns onde vimos
confluir tradição e modernidade. O deserto e o mar foram duas componentes
essenciais numa obra iniciada na década de 1980, mas será em meados da década
seguinte, com a publicação de dois álbuns magníficos, que melhor perceberemos a
importância da paisagem geográfica no enraizamento cultural desta música.
Em
Sahara Blue (1994) apropriou-se do universo poético de Arthur Rimbaud,
intentando uma jornada pelo deserto em busca do silêncio fundador das palavras.
Ao contrário dos ermitas, fê-lo em boa companhia. John Cale, David Sylvian,
Ryuichi Sakamoto, Brendan Perry & Lisa Gerrard, Bill Laswell foram apenas
alguns dos ilustres “compagnons de route”. No ano seguinte, tendo o mar por
tema, ofereceu-nos uma das mais belas peças musicais de que tenho memória.
Chansons de Mers Froides (1995) reúne sob um mesmo tecto musical vozes tão
diversas como as das finlandesas Värttinä, da islandesa Björk, da
norte-americana Suzanne Vega, da canadiana Jane Siberry, da britânica Siouxsie
Sioux… O resultado repercute uma espécie de itinerário da mente para Deus,
sendo que aqui Deus tem nome e rosto de mar, é contemplável a olho nu e podemos
mergulhar nele esperando que o sal nos expurgue de maus-olhados.
Ao quinto
tema, Vimme Saari, exemplo raro do canto dos povos indígenas da Escandinávia, é
a prova de como entre o Norte da Europa e a pradaria Norte Americana há uma
mesma respiração a saudar a Natureza. Já a japonesa Tokiko Kato, recuperando o
dialecto das ilhas Curilas, envia-nos para esse lugar sempre estrangeiro onde
culturas distintas se cruzam e se encontram. Hector Zazou faleceu em 2008 com
apenas 60 anos, tempo mais do que suficiente para nos lembrar de que na sua
estimável diversidade a humanidade é só uma. E canta, e dança.

Sem comentários:
Publicar um comentário