Ouvi a notícia
da morte de Zé Pedro na Antena 1, enquanto ia a conduzir. Encostei para dar
nota a dois amigos. Um deles respondeu-me que “morremos todos um pouco”. E é
verdade. Os Xutos & Pontapés marcaram a minha geração como nenhuma outra
banda portuguesa. Podíamos gostar mais de Trovante, GNR ou Heróis do Mar… Independentemente
das preferências, os Xutos foram durante anos a principal referência do rock
português. A cada álbum novo, ainda no formato LP, a malta juntava-se para
ouvir repetidamente Lado A e Lado B. Decorávamos as letras antes de tentarmos
decifrá-las, julgando escondidos por detrás das palavras significados
ocultos que o tempo se encarregou de desocultar.
Quando os Xutos
foram tocar a Rio Maior pela primeira vez, eu fiquei na varanda do meu quarto a
receber ecos que vinham de longe. Amargo castigo vingado posteriormente em
inúmeras ocasiões. Jamais esquecerei a actuação no velho estádio de Alvalade,
em 1993, durante o “festival” que ficou para a história como “Portugal ao Vivo”.
Aos primeiros acordes de “Sémen”, entraram no palco umas stippers. Se bem me
lembro, Luís Marques Mendes, então no Governo, estava na plateia e apareceu nos
ecrãs gigantes enquanto as moças se desenvencilhavam das últimas peças de roupa.
Vi tantas vezes os Xutos aos vivo que nos últimos tempos, confesso, já não me
sobrava paciência. Ficámos todos estupidamente mais gordos.
Talvez seja
exagerado considerar Zé Pedro a alma dos Xutos & Pontapés. Quem leia “Conta-me
Histórias” (1991), o livro de Ana Cristina Ferrão, poderá encontrar fortes
fundamentos para tais considerações. Nestas horas em que tudo se permite,
podemos pelo menos afirmar sem sermos mal interpretados que o Zé Pedro era a
alma rebelde e inconformada dos Xutos. A imagem de homem dos três acordes cai-lhe
bem, mesmo não sendo exacta. Era aquele entre os quais ainda hoje reconhecíamos
a atitude inspiradora do punk. O Zé Pedro e o Kalú, mais do que qualquer um dos
restantes elementos da banda.
A quem me diz
que não gosta de Xutos & Pontapés sugiro sempre a audição de “Cerco”
(1985), o disco de “Homem do Leme” e “Barcos Gregos”. São seis canções que
provam a excepcionalidade do conjunto, à época com a formação que até hoje se
conhece: Tim, Kalú, Zé Pedro, João Cabeleira, Gui. Não ficando convencidos, os
incrédulos deverão, pelo menos, passar os olhos por um marco da música
portuguesa. O álbum triplo, “Ao Vivo”, gravado nos idos de 1988 no Pavilhão dos
Belenenses. Já lá estão “Contentores” e “Nesta Cidade” (letra do João Gil), os
mega sucessos do “Álbum 88” (1988), a versão de “Minha Casinha”, a voz de Zé
Pedro no obviamente punk “Submissão”.
Zé Pedro assinou
outras canções, como “Carta Certa”, “N’América”, “Gente de Merda”… Esta, num
dos mais polémicos álbuns da banda. Curiosamente, é de “Gritos Mudos” (1990) um
dos meus temas preferidos dos Xutos. Chama-se "Pêndulo", e o último verso sintetiza uma vida: “Estranha
vontade de amar”.

Sem comentários:
Publicar um comentário