quarta-feira, 15 de novembro de 2017

ESCOLA DE TAGARELAS

   Jean-Paul Sarte introduz “O Estrangeiro”, de Albert Camus, afirmando que a noção de absurdo concebida pelo autor nada tem de original. Já antes, uma «espécie de razão seca, curta e contemplativa», de que Pascal seria exemplo, serviu de lugar-comum ao «pessimismo clássico». É o contexto do homem que aspira à eternidade sabendo-se finito. Tendo a morte por horizonte, a vida adquire o sentido do absurdo. O suicídio seria a solução lógica, não fosse a revolta o recurso mais à mão. O homem absurdo não se suicida, revolta-se. Também podia não se revoltar, acomodando-se. O que será mais próprio do homem absurdo: a revolta ou o conformismo? E neste conformismo não estará o gérmen de toda a transcendência? 
   Além de lhe retirar originalidade, Sartre afirma que «Camus cita textos de Jaspers, de Heidegger, de Kierkgaard, que, aliás, nem sempre parece compreender bem». Talvez não os tenha compreendido como Sartre compreendia, o que não determina que os tenha compreendido menos bem. Compreendeu-os de forma diferente. Um texto não aceita uma única compreensão. A crítica de Sartre é em si mesma absurda, na medida em que compreende «a inutilidade da razão que raciocina» sem lhe reconhecer o dado mais óbvio: o da subjectividade da interpretação. 
   Mais adiante, Sartre acrescenta: «será preciso não ver em “O Estrangeiro” uma obra inteiramente gratuita», como se houvesse nela alguma gratuitidade. O disparate vai ao ponto de lhe imputar uma supostamente perniciosa «familiaridade com o silêncio», para depois acrescentar: «Camus fala muito, em “O Mito de Sísiso” chega a tagarelar». Mas quem cumpre melhor o papel de tagarela senão Sartre com tal introdução? 
   O remate redutor, classificando “O Estrangeiro” como «um curto romance de moralista» ao nível de «um conto de Voltaire», é típico de uma leitura incapaz de olhar para o objecto sem ser em comparação, isto é, tagarelando. Muito do que hoje se produz em termos de crítica literária tem nesta introdução um exemplo antecipador. Sartre foi uma espécie de mensageiro isolado na ilha do pensamento. Críticos vários terão encontrado as garrafas que Sartre largou no mar, lendo-lhe as mensagens sem chegarem a perceber de onde e de quem vinham. Também não é imperioso que o saibam, pois mensagens tais enraízam-se sempre onde medra o ressentimento. Já nem sei se pior que isto é fingir que se ignora, fazer de conta que não se sabe ou omitir por calculismo.

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