quarta-feira, 29 de novembro de 2017

UM PAR DE PERSONAGENS


   Reli recentemente “O Estrangeiro”, impelido pelo esmero profissional. Enquanto relia, lembrei-me muito de duas personagens de Mishima que também voltaram a fazer-me companhia durante as férias de Verão. Há entre “O Estrangeiro”, de Albert Camus, e o conto “Morte em Pleno Verão”, de Yukio Mishima, a coincidência da paisagem bela, dos momentos de lazer nas estâncias balneares, da «fúria nos raios de Sol» e, por fim, da tragédia humana sob o tecto de uma Natureza opressora de tão bela. Em ambos os textos, o homem é o elemento distorcido da paisagem. A morte, o suicídio, paira sobre as personagens, mas mais nítido do que aquilo que paira são as marcas que as definem e determinam. Meursault perdeu a mãe, a indolência com que aceita o facto será motivo de julgamento depois do crime cometido. O árabe que ele assassinará em plena praia, debaixo de um sol incandescente, pouco contará nos deves e haveres da sua monótona existência. Já a mãe que perde dois filhos no conto de Mishima pensa suicidar-se, mas abandona tal ideia. Ela e o marido como que aprenderam a habituar-se à morte. A morte é, de facto, uma banalidade no percurso das nossas vidas. Mas a cena final é especialmente marcante. Masaru regressa com a mulher à praia onde perderam os filhos, segura pela mão a criança sobrevivente enquanto a mulher, Tomoko, se aproxima de uma falésia com o novo rebento nos braços. Ela observa o mar. Em que pensará Masaru quando as observa e diz de si para si: «De que estás à espera?» Desejaria que a mulher se matasse? Será que Masaru culpava a mulher pela morte dos filhos? 
   O sentimento de culpa desvia Masaru de Meursault. Enquanto este afasta de si a culpa, deixando para os outros o ónus do julgamento, aquele parece estar no lugar do júri face à mulher. Tomoko é o réu sobre o qual pesa a culpa. Será que Meursault quis mesmo matar o árabe? Tomoko, cujo crime foi estar a dormir enquanto os filhos se afogavam na praia, não pode ser acusada de qualquer desejo de morte. E Masaru? Não desejará ele a morte da mulher como forma de vingança pela perda dos filhos? Se a expressão de Tomoko é a de quem parece ter esquecido a sua própria existência, podemos presumir que a expressão de Masaru seja a de quem não esquece. Quem não esquece, traz no rosto carregados os vincos da tragédia. Qual será a expressão de Meursault? A sua indolência, a sua apatia, aparentam uma inexpressividade que talvez seja ilusória. O que ele nos diz é mais ou menos o que dizia Dostoiévski — somos todos culpados de tudo e de todos (cito de cor, segundo a leitura de Levinas) —, embora o russo acrescentasse algo que nos parece improvável nestas personagens: e eu mais do que os outros. Esta “sobreculpa” do indivíduo relativiza a culpa do colectivo. Mais do que os outros justifica o julgamento, oferece aquela percentagem de inocência que legitima o julgamento. 
   Não deixa de ser terrível verificar como cada vez mais nos orientamos em função de tão falso preconceito. A tendência é para desculpabilizar o todo, colocando o ónus da culpa no indivíduo que expiará os pecados colectivos. Ao mesmo tempo, o indivíduo tende a subsumir-se no todo, esvazia-se de individualidade como quem se livra de responsabilidades. O “carneirismo” tem na sua origem este sentimento: quanto mais eu me confundir com o todo, quanto menos singular eu for, mais protegido me sinto, menos terei de responder pelas minhas próprias acções, pois elas não advêm tanto de uma decisão individual, como se fundamentam nas tendências colectivas. Aquilo a que chamamos redes sociais é, em certa medida, o mais vivo termómetro na actualidade deste esvaziamento da individualidade (como outrora foram as grandes estruturas partidárias). As pessoas permitem que um algoritmo gira a percepção que lhes é permitido terem da realidade, esvaziam-se no exibicionismo de uma vida fragmentada, exposta aos frangalhos, perante tudo e todos, como se mais nada houvesse dentro de si senão a aparência com que surgem no espaço virtual. Esta máquina de falsificação não olha a meios nem a quem, atravessa classes e géneros, junta toda a gente num mesmo saco e, ao fazê-lo, desumaniza.
   Filósofos como Chomsky, Žižek  ou Onfray, cada qual com a sua sensibilidade, vêm alertando para este novo modus operandi. Ele tem significações crudelíssimas. Numa entrevista recente, o editor Luís Oliveira, da Antígona, revelava que um dos livros que mais o surpreendeu nos últimos tempos foi o livro Drones – Guerra por Controlo Remoto, de Hugh Gusterson: «Imagine o que é uns tantos fulanos que vivem numa rulote no deserto, com fortes computadores, enviarem um drone para vigiar uma família árabe, e matarem o chefe de família enquanto as crianças brincam. E fazem isso a 13 mil quilómetros de distância, com uma precisão impressionante». Não precisamos imaginar porque já não estamos no âmbito da ficção científica, é a nossa realidade. O mais grave de tudo isto é ter deixado de haver em cada um de nós, cada vez mais subsumidos que nos encontramos no todo e esvaziados num colectivo aparente, é ter deixado de haver, dizia, ou pelo menos haver de um modo menos actuante, a tal consciência individual que leva à responsabilização. Essa consciência tinha-a ainda Meursault, anúncio do homem contemporâneo, quando no final reconhece a cólera que o esvaziou de esperança e o fez abrir-se à terna indiferença do Mundo. Para que se sentisse menos só… É uma possibilidade. E tinha-a Tomoko, que ao visitar o cemitério espanta-se com a organização da cidade dos mortos, tão mais limpa que a cidade dos vivos. Seria outra possibilidade, não andasse cada vez menos a dor a par com a morte.

4 comentários:

maria disse...

mais um grande texto, gracias.

hmbf disse...

Obrigado Maria.

InfinitoZero disse...

Muito bom. Obrigado por partilhar reflexões e textos tão interessantes. Há muito que sigo o blogue com atenção e prazer e estes agradecimentos são mais que merecidos, pecando por tardios. Parabéns.

Pela pertinência do tema e a forma como o abordou, sublinho a referência às duas obras literárias, não resisti e publiquei no meu facebook com o respectivo link ao texto original.

hmbf disse...

Agradecido.