quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

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A caminho de umas curtas férias, aproveito para desejar a todos os leitores e a todas as leitoras boas entradas em 2018. Queira a mãe Natureza, cá estarei em Janeiro com as minhas escolhas dos melhores livrinhos em 2017. Até lá, fiquem com a Édith Piaf. Saúde,

ANTOLOGIA DA POESIA ERÓTICA BRASILEIRA

Não vale a pena elaborar teses sobre o assunto, há muito estamos fartos de saber que uma antologia será sempre obra incompleta. Estão uns, não estão outros. Nesta, por razões que se explicam, não está Manuel Bandeira, e, por razões inexplicáveis, não se encontra Manoel de Barros. Sobre para o que serve, remeto o leitor para a mais radical das dúvidas: para que serve a nossa vida? Serve, em última análise, para andarmos por cá a passear orelhas. As antologias como que registam quem andou por cá, seria estúpido exigir-lhes mais do que darem conta dessa passagem segundo critério previamente definido. Outra questão é o princípio a partir do qual damos conta, ou seja, o critério. E nisso, há umas que importam e outras que não importam para nada.
Na Antologia da Poesia Erótica Brasileira organizada por Eliane Robert Morais, com edição portuguesa da Tinta-da-china (Novembro de 2017), o princípio foi o tema anunciado no título. Desde sempre o erotismo foi assunto de poetas, desde Safo na Grécia, desde o Cântico dos Cânticos no Médio Oriente, desde Vatsyayana na Índia, desde Ovídio, Marcial, Omar Khayyam… Para o caso em apreço, desde Gregório de Matos (1623-1696). Ouvimos falar dele, pela primeira vez, num voluminho da colecção Contramargem da &etc. Data de nascimento incerta — 1633? 1636? —, embora no índice do volume que agora nos prende se atribua ao “Boca do Inferno”, assim ficou para sempre conhecido, a data de 1623 como ano de nascimento. Não é relevante, conquanto saibamos ter sido lá pelo século XVII que o bardo deu à lira.
Queremos, pois, perceber como foi tratado o erotismo na poesia brasileira ao longo dos séculos. E esta antologia oferece-nos uma panorâmica generosa, diversificada e extremamente inteligente. Basta ler o posfácio da organizadora para o constatarmos. Entre Gregório de Matos, lá do século XVII, e Claudia Roquette-Pinto (1963), com muitos anónimos pelo meio, são diversas as vozes, percorrendo movimentos que vão dos parnasianos aos modernistas, destes aos concretistas, dos concretistas aos marginais, aos tropicalistas, à poesia popular, de cariz fescenino, e de cordel, sem esquecer movimentos e colectivos menos relevantes para a história da literatura, mas interessantes para uma sociologia literária, como a Sociedade Epicureia de Álvares de Azevedo (1831-1852) e de Bernardo Guimarães (1825-1884), autor de A escrava Isaura.
Como linhas de força da poesia erótica brasileira, Eliane Robert Moraes aponta a alusão escatológica enquanto forma de minar o sentimentalismo, de desconstruir o romantismo, de subverter o tom idealista da lírica amorosa tradicional. Poemas que descem à carne, pondo em xeque o amor enquanto emoção platonicamente idealizada, transgredindo o cânone moralizante e contrariando um lugar comum de poesia amorosa. Neste sentido, parece-me da mais alta relevância citar uma ideia explanada no posfácio: «antes de ser um modo de pensar o sexo, o erotismo literário é um modo de pensar a partir do sexo» (p. 292). O que certamente chocará certos leitores mais pudicos, conservadores ou convencionais, é precisamente esta linha transgressora do erotismo (seja ele brasileiro ou português), eticamente suportada pelos ensinamentos cínicos, pela “sabedoria do carpe diem”, pelo lado satânico do riso. Eis uma outra linha de força consagrada nesta antologia, a do riso, a da comicidade, a do exagero que, aliados à fantasia erótica, potenciam o gozo da vida e espantam a morte. Tudo pouco cristão, como se nota, mesmo quando eivado de certo misticismo (leiam-se Junqueira Freire ou Valdo Motta).
Tendo por referência a célebre Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, organizada por Natália Correia, esta outra do erotismo brasileiro não esquece a dimensão satírica da poesia mais obscena ou pornográfica, da poesia iconoclasta que tantas vezes leva apenas e envergonhadamente o nome de erótica. Aqui, o beijo mistura-se com o peido naquilo que, enfim, podemos definir como matéria de corpo. São ambos pretexto para uma desconstrução da lírica amorosa e, por consequência, de uma imagem idealista do amor. O motivo alimentar, recorrente, é indicador desta carnavalização e carnalização do amor, contra o que mandam religiões, programas morais, sistemas axiológicos. Tome-se de exemplo um soneto do poeta negro Cruz e Souza (1861-1898), que ficou esquecido nas notas biográficas desta antologia, mas a quem Paulo Leminski, caso estejam interessados, dedicou uma belíssima biografia:

ENCARNAÇÃO

Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frêmitos e enleios,
das harpas da emoção tantos arpejos…

Sonhos, que vão, por trémulos adejos,
à noite, ao luar, intumescer os seios
láteos, de finos e azulados veios
de virgindade, de pudor, de pejos…

Sejam carnais todos os sonhos brumos
de estranhos, vagos, estrelados rumos
onde as visões do amor dormem geladas…

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias
formem, com claridades e fragrâncias,
a encarnação das lívidas Amadas!


Dito isto, resta concluir que a Antologia da Poesia Erótica Brasileira é um belíssimo documento. Poderá e deverá ser melhorado em edições futuras, mas coloca-nos em mãos uma perspectiva riquíssima dos diversos modos de tratar poeticamente o erotismo. Sendo o ponto de partida a literatura brasileira, é curioso notar as inevitáveis ligações a Portugal encontradas ao longo do volume. Gregório de Matos, o patrono, formou-se em direito na cidade de Coimbra. Tomás Antônio Gonzaga, nascido no Porto, formou-se igualmente em Direito na Universidade de Coimbra. Gonçalves Dias também estudou em Coimbra. Casimiro de Abreu iniciou actividade literária em Lisboa. Fernando Paixão nasceu em Beselga, freguesia do concelho de Penedono, Distrito de Viseu. Murilo Mendes faleceu em Lisboa. São apenas exemplos de uma ligação a Portugal que uma mesma língua proporciona. Palavra final para as vozes femininas antologiadas, que, dadas as circunstâncias históricas e o tema em causa, acabam por ter uma representação notável. São elas Alexandrina da Silva Couto dos Santos (1859-1934), Francisca Júlia da Silva (1871-1920), Gilka Machado (1893-1980), Hilda Hist (1930-2004), Maria Lúcia Dal Farra (1944), Ana Cristina Cesar (1952-1983), Angela Melim (1952), Josely Vianna Baptista (1957) e a supracitada Claudia Roquette-Pinto (1963).

BRASIL VERSUS PORTUGAL OU LÍNGUA PORTUGUESA INCULTA E BELA


Vós tendes tetas
nós temos peitos
vós tendes conas
temos bocetas
vós tendes cus
nós temos bundas
e uma profunda
sinonímia
do que é cu
para nós outros:
boga, boscofe
frinfa, ceguinho
lorto, cioba
cibió, foba
abre-e-fecha-sem-cordão
franzido, pisca-pisca
olho-da-goiaba
alvado, fiobó
pevide, viegas
zé-do-ó
zé-das-pregas
zé-do-peido
escurinho
fim de espinhaço
rego, poço
e eticétera.
A nossa língua
tal como a vossa
usa a francesa
faz o minete.
Mas a trombada
da nossa língua
não é trombada
é mais lambida
é mais chupada.
Vós tendes vós
temos vocês
por não sabermos
mais concordar
nossos plurais.
Vós e vossa excelência
sabem a ruibarbosa
ou indecência.

Neil de Castro (n. 30 de Maio de 1940, Caicó, Brasil), in Antologia da Poesia Erótica Brasileira, org. Eliane Robert Moraes, Tinta-da-China, Novembro de 2017, pp. 230-231.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

DOIS SONETOS ERÓTICOS

PROFISSÃO DE FÉ

Odeio as virgens pálidas, cloróticas,
Belezas de missal que o romantismo
Hidrófobo apregoa em peças góticas,
Escritas nuns acessos de histerismo.

Sofismas de mulher, ilusões ópticas,
Raquíticos abortos do lirismo,
Sonhos de carne, compleições exóticas,
Desfazem-se perante o realismo.

Não servem-me esses vagos ideais
Da fina transparência dos cristais,
Almas de santa e corpo de alfenim.

Prefiro a exuberância dos contornos,
As belezas da forma, seus adornos,
A saúde, a matéria, a vida enfim.

Carvalho Junior (1855-1879), in Antologia da Poesia Erótica Brasileira, org. Eliane Robert Moraes, Tinta-da-china, Novembro de 2017, p. 81.


PLENA NUDEZ

Eu amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero um pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nus; as linhas onduladas
Livres: de carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas...

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
De transparente túnica através:

Quero vê-la, sem pejo, sem receios,
Os braços nus, o dorso nu, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!

Raimundo Correia (1859-1911), in Antologia da Poesia Erótica Brasileira, org. Eliane Robert Moraes, Tinta-da-china, Novembro de 2017, p. 94.

OTIMISMO E NÃO DESESPERO

A filosofia política de Noam Chomsky (n. 1928) define-se pela conjugação do anarquismo, enquanto promotor do instinto humano para a liberdade, com o socialismo libertário, termo que apesar de gasto e muito mal-entendido continua a servir uma ideia de solidariedade mútua entre os homens. Em síntese, o seu pensamento reflecte com inabalável constância esse esforço de aproximação. As entrevistas coligidas em Otimismo e não Desespero (Elsinore, Novembro de 2017) são exemplo disso mesmo, quer quando tenta responder a questões genéricas sobre a essência da humanidade, quer quando se concentra nos problemas da actualidade.
Chomsky é inspirador, como Gramsci o conseguiu ser, quando a um muito apreciável pessimismo da inteligência contrapõe o vigoroso optimismo da vontade. Nisso nada acrescenta de especialmente novo. O interesse renovado por esta fórmula tem hoje outras implicações. Chomsky ultrapassa as fronteiras de um mero pessimismo metódico, sugerindo cenários de catástrofe no diagnóstico levado a cabo: «Acredito que a sobrevivência humana decente está em jogo. As primeiras vítimas serão, como sempre, os mais fracos e vulneráveis» (p. 87); «A destruição da espécie está ao nível de há 65 milhões de anos, a Quinta Extinção, que acabou com a era dos dinossauros» (p. 128); «Há boas razões para crer que já entrámos na Sexta Extinção, um período de destruição de espécies a uma escala monumental» (p. 148).
Se o diagnóstico é catastrofista, as conclusões revelam-se apocalípticas. Que espaço resta, então, para o optimismo? O espaço para o optimismo da vontade num cenário como o traçado é o da fina linha do horizonte para o qual pretendemos caminhar. Entre nada fazer e tentar alguma coisa, são poucas as opções. E manda a inteligência, mesmo a mais pessimista, que se tente alguma coisa. Os dois fundamentos deste discurso são as duas grandes questões que se colocam à humanidade nos nossos dias: o problema do aquecimento global e a eminência de uma guerra nuclear, que Noam Chomsky considera milagre ainda não ter acontecido.
Sobre o segundo problema, não podia ser mais explícito: «As armas nucleares já estão nas mãos de grupos terroristas: terroristas estatais, com os Estados Unidos na liderança» (p. 96). O que fazer? Organizar as massas no sentido de gerar movimentos de pressão que forcem os governos a verem-se livres desse tipo de armamento como outrora nos libertámos da varíola. O primeiro dos problemas, porventura mais complexo nas soluções a que obriga, aparenta uma irreversibilidade desanimadora. Há muito que pode ser feito, assim queira quem o pode fazer. Sucede que, como bem aponta o filósofo, será sempre muito difícil avançar nesta matéria das alterações climáticas quando na maior potência mundial «40% da população não o considera um problema, pois Cristo regressará nas próximas décadas» (p. 186).
Não são poucas as ocasiões em que nestas entrevistas se sublinha o fundamentalismo religioso da sociedade norte-americana, em muitos aspectos semelhante a outras formas de fundamentalismo religioso, como um dos maiores entraves à razão e, por consequência, ao progresso social. A crença é inimiga da razão, logo o é também do progresso. De resto, este fundamentalismo tem as suas implicações directas na economia e, por consequência, na sangria democrática do sistema político: «Os Estados Unido dizem-se uma democracia, mas já claramente se tornaram numa plutocracia, embora ainda sejam, comparativamente, uma sociedade aberta e livre» (p. 171); «A sociedade americana é, assim, e até um ponto atípico, gerida pelas empresas, com uma comunidade empresarial altamente ciente das classes» (p. 180). Campanhas eleitorais geridas pela indústria publicitária são apenas a máquina ao serviço do sistema.
Publicadas originalmente na revista Truthout, estas entrevistas, cedidas entre 2013 e 2017, servem de indicador acerca do estado do mundo. O efeito devastador das parcerias público-privadas, o aumento das desigualdades, a subversão de velhos conceitos ideológicos naquilo a que Chomsky apelida de “socialismo para os ricos, capitalismo para os pobres”, o monstro terrorista criado em larga medida pelas políticas externas dos EUA — «a invasão do Iraque, o pior crime do século» (p. 62) —, a campanha global de assassinatos por drone (herança do Nobel da Paz Obama), um historial de provocações e agressões no currículo de uma potência mundial que tem «oitocentas bases militares espalhadas pelo mundo», séculos de subjugação e de humilhação dos mais pobres e desfavorecidos, levam a que os EUA sejam hoje considerados uma das maiores ameaças à paz mundial. Não é apenas Chomsky quem o diz, rematando os exemplos que fundamentam o discurso com um axioma inabalável: «andamos todos às aranhas».

Ao ler isto, porventura algumas pessoas julgarão as teses de Noam Chomsky pela apropriação que delas poderá ser feita pelos partidários de um certo antiamericanismo primário. Mas estes primários estão ao mesmo nível daqueles que não conseguem admitir, por exemplo, que as maiores violações dos direitos humanos em território cubano acontecem na Prisão de Guantánamo. Violações dos direitos humanos são sempre violações dos direitos humanos, umas não justificam as outras. Por isso mesmo é tão importante colocar tudo em perspectiva. Aquilo a que neste livro se chama “socialismo realmente existente” e “capitalismo realmente existente” tem pouco que ver com teses definidas em teoria. Pode a ex-URSS servir de exemplo quando discutimos o comunismo? Podem os EUA servir de exemplo quando discutimos o capitalismo? Na prática, andamos todos às aranhas. Entre a teoria e a prática há um fosso que exige da razão um pessimismo que só o fervoroso desejo de um mundo melhor poderá ultrapassar. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

HIPOCRISIA

Em que mundo julgarão viver certas pessoas? 
Uma empresa portuguesa volta a ser centro de polémica nas redes sociais por causa de bolos rei deitados para o lixo. Em que mundo viverão as pessoas? 
Lembrei-me do documentário de  Agnés Varda, Os Respigadores e a Respigadora, que os meus formandos viam com espanto. Como era possível tanto desperdício? Não só é possível, como é regra no mundo que abraçámos. Já nesse filme, com 17 anos, se falava de uma produção de batatas desperdiçada em França que daria para minimizar a fome em África. Tudo porque as batatas não tinham as dimensões ideais para captarem a atenção dos consumidores nos hipermercados. 
O mundo em que vivemos é de uma hipocrisia ilimitada, incompreensível. Só mesmo a hipocrisia é incompreensível nesse mundo, pois tudo o resto é facilmente explicável. 
Quando vou vazar o lixo no fim de um dia de trabalho, deparo-me frequentemente com produtos que as lojas do shopping deitam para o lixo. Há dias, uma colega levou para casa um par de sapatos sem atacadores, um saco de boxe ligeiramente rasgado e umas luvas, uma mochila com ligeiro defeito numa asa. 
Circularam por aí imagens do recinto onde foi realizado um festival de música, com sacos cama, mesas, chinelos, tendas, toneladas de adereços de campismo ao abandono. 
Há tempos, eu próprio fiquei estupefacto com o número de paletes carregadas com pães-de-leite e de croissants directamente deitados para o lixo por causa da validade. Validade. 
É assim o dia-a-dia dos grandes negócios alimentados pela nossa sociedade de hipócritas, a horda de consumidores insaciáveis para quem muito é sempre pouco. 
Estavam à espera de quê? Que fosse feito às escondidas para não chocar tanto a sensibilidade de merda das redes sociais?
Grata estará a rede de pastelarias em causa pela publicidade inusitada que lhe fazem. Mesmo sendo negativa, por certo renderá mais visitas para o brioche do dia. 
País de hipócritas. Aposto que tiveram todos um natal austero.

BOCAS


Ah, que saudade dos grandes mestres.

GANIR

Isto de andar pela vida fazendo de tudo uma guerra é como não sair da infância.Houvesse canhões na rua, os mais robustos de língua seriam os primeiros a recolher-se no abrigo. De rabo enfiado entre pernas, como o mais vulgar dos cães cobardes, ladram, ladram, ladram, ladram... até acabarem a ganir sozinhos.

BESTA

Ao ouvir certas criaturas, fica-se na dúvida: como terão paciência para si próprias? Logo a dúvida se desfaz perante a evidência, não é pelo tamanho das orelhas que os burros deixam de ter quatro patas. 

MIKE TYSON ENTRE OS MELHORES

No jornal on-line Observador, Nuno Costa Santos elege Mike Tyson Para Principiantes, de Rui Costa, como um dos melhores livros do ano:

“Mike Tyson para Principiantes”, de Rui Costa (Assírio & Alvim)


Em entrevista a Fernando Esteves Pinto, Rui Costa (1972 – 2012) apresentou o seu programa: “Tratar a metáfora de uma forma metabólica, como se fosse um bicho, e as coisas mais concretas (como os limões e as pataniscas de bacalhau) como se fossem carburadores universais”. A intenção é encontrada, de um modo quase sempre surpreendente, numa antologia poética feita por uma comissão de amigos e cúmplices, apostada numa selecção a partir dos livros editados em vida do autor, de dispersos e de inéditos. Entre a metáfora e a ironia, entre o surrealismo e a reserva face ao sentimentalismo, um poeta que se desenhava assim no cartão do cidadão: “(…) Não são poemas o que eu escrevo/ São casas onde os pássaros esperam (…)”.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

IMAGENS





Há mais aqui. Via Sound + Vision.

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

SEXTA EXTINÇÃO


A destruição da espécie está ao nível de há 65 milhões de anos, a Quinta Extinção, que acabou com a era dos dinossauros. Também abriu caminho para os pequenos mamíferos, em última análise, nós, uma espécie com capacidades únicas, incluindo, infelizmente, a capacidade de destruir fria e selvaticamente.
   O oponente reacionário do século XIX do Iluminismo, Joseph de Maistre, criticou Thomas Hobbes por ter adotado a frase romana «o homem é o lobo do homem», notando que a frase é injusta para os lobos, que não matam por desporto. A capacidade chega à autodestruição, como testemunhamos agora. Presume-se que a Quinta Extinção foi causada por um grande asteroide que colidiu com a Terra. Agora somos nós o asteroide. O impacto nos humanos é já significativo e em breve tornar-se-á incomparavelmente pior, a não ser que sejam tomadas ações decisivas imediatamente. Além disso, o risco de uma guerra nuclear, sempre uma sombra tenebrosa, está a aumentar. 
   Acabaria com qualquer outra discussão. Lembremo-nos da resposta de Einstein a uma pergunta sobre as armas que seriam usadas na guerra seguinte. Disse que não sabia, mas que a guerra depois dessa seria travada com machados de pedra. Uma inspeção a um historial chocante revela que é quase um milagre que tenhamos evitado o desastre até agora. E os milagres não duram para sempre. E o aumento do risco é, infelizmente, por demais evidente.
   Felizmente, estas capacidades destrutivas e suicidas da natureza humana são contrabalançadas por outras. Há boas razões para crer que figuras do Iluminismo como David Hume e Adam Smith, e o pensador ativista anarquista Piotr Kropotkin, estavam corretas acerca da simaptia e entreajuda como propriedades fulcrais da natureza humana. Em breve descobriremos qual destas características estão no seu ascendente.

Noam Chomsky, entrevistado por C. J. Polychroniou, revista Truthout, 9 de Março de 2016, in Otimismo e não Desespero, trad. Paulo Barata, Elsinore, Novembro de 2017, pp. 128-129.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

NICKI MINAJ


Recebo no e-mail um conjunto vasto de fotografias de uma tal Nicki Minaj. Juro que pensei tratar-se de publicidade a um qualquer museu de bonecos em cera. Mas só depois concluí que, na realidade, era uma instalação com bonecas insufláveis. 

PLANO ESTRATÉGICO


Sendo a natureza humana o que é, e tendo os indivíduos competências, capacidades, motivações e aspirações claramente diferentes, uma sociedade verdadeiramente igualitária será possível e/ou sequer desejável?

A natureza humana tanto engloba santos como pecadores, e cada um de nós possui ambas as capacidades. Não vejo qualquer conflito entre uma visão igualitária e a variedade humana. Poder-se-ia talvez argumentar que aqueles com maiores capacidades e talentos já são recompensados pela sua propensão para os exercer, logo merecem menos recompensas externas — mas não é esse o meu argumento. Quanto à viabilidade de instituições e práticas sociais mais justas e livres, nunca podemos estar certos de antemão; só podemos continuar a tentar testar os seus limites tanto quanto possível, sendo que não vislumbro com clareza razão alguma para antecipar o fracasso.

Noam Chomsky, entrevistado por C. J. Polychroniou, revista Truthout, 19 de Junho de 2016, in Otimismo e não Desespero, trad. Paulo Barata, Elsinore, Novembro de 2017, p. 80.

domingo, 17 de dezembro de 2017

2017, ANO ESQUIZÓIDE


   O ano começou como sempre começa um ano, a contar mortos. Adeus Mário Soares, obrigadinho. E os sonetos de amor da hora triste, de Álvaro Feijó, entraram para sempre no imaginário popular da esquecida poesia portuguesa. Estávamos em Janeiro, ainda se faziam balancetes, promessas, ainda se contava a esperança pelos dedos. A excepção tinha nome de actriz, Meryl Streep com um “powerful speech” sobre Trump fazia adivinhar o que aí vinha: 2017, ano de Trump.
   Para amenizar o nojo, foram chegando às livrarias inúmeras soluções votadas à felicidade dos leitores. Ele era o segredo dinamarquês, dito Hygge, ele era o segredo sueco, dito Lagom, ele era o segredo português, dito Carnaval de Torres Vedras. Algures, um pobre livreiro queixava-se do preço a que está o vinho em esplanadas com vista para o mar. A felicidade sai cara, é o que vos digo.
   Depois perdemos John Hurt, o rosto inesquecível de 1984. Não perdemos o rosto. Somos cada vez mais o rosto de John Hurt em 1984, sem que o notemos enquanto o disfarçamos com uma ida à barber shop da esquina. Um prémio para o barber shopper que consiga fazer alguma coisa com os cabelos de Trump e Kim Jong-un! Talvez uma esfregona.
   Por falar em Kim, morreu Ren Hang. Era chinês, dos bons, tinha apenas 29 anos. Fica a pergunta: por que se mata um conceituado jovem artista plástico chinês? Lá como cá, talvez as formalidades jurídicas o expliquem.
   Vivemos num mundo cada vez mais afogado em formalidades jurídicas. Servem para tudo. Em pleno século XXI, ano da graça ou do demónio de 2017, tivemos em Portugal acesso a acórdãos de juízes que mais parecem ter saído de penas medievais, tivemos lá fora notícias como esta: “Juíza trava deportação de pessoas acabadas de chegar aos Estados Unidos”. Tivemos um eurodeputado polaco para quem as mulheres são menos inteligentes do que os homens. Tivemos Dijsselbloem a acusar-nos de desperdiçarmos dinheiro com copos e gajas. E assim vai o mundo, a discutir a eutanásia. Deste mundo? Duvido.
   Este é o mundo que subitamente se choca com a linguagem nos livros de valter hugo mãe, com cadernos de actividades para meninos e para meninas, com as viagens de finalistas dos nossos adolescentes (todos tão bem criadinhos, Senhor), com imprecações ao balcão das finanças, com coisas assim tipo conferências de Jaime Nogueira Pinto. Não sei se estão recordados, mas a discussão está mais ou menos neste nível: «Se não pedimos para nascer também não temos o direito de determinar quando vamos morrer». E pronto, bem-vindos sejam ao mundo… em 2017.
   Chuck Berry, fazes-nos falta. Nada se compara às tuas noções de rigor. Rock, rock, cada vez mais rock. Abaixo o Putin e o Trump e o Kim e o dia dos namorados e o dia das bruxas e o yoga e o reiki e o feng shui e o mindfulness e o coaching e o parenting e o ho’oponopono e as mil e uma dietas engendradas para um ocidente untuoso que se está nas tintas para 1,4 milhões de crianças subnutridas, à beira de morrerem com fome, para o tráfico de escravos na Líbia, para a exploração de trabalho infantil no Congo, para o genocídio em Myanmar.
   Mais uma vez a excepção tem nome de actriz: «O meu trabalho consiste em estar num ecrã, não em frente.» Catherine Deneuve. Saravá.
   É a vida no Facebook, no Tweet, no Instagram, enquanto por cá ficamos a saber que o país deve muito a um tal de Núncio. Jamais sairemos desta mediocridade. Um arquivo de factos que venha a ser feito de 2017 deixar-nos-á, daqui a 5, a 10, a 15, 20 anos, estupefactos com tamanho infantilismo, com tanta falta de bom senso, com o realismo da desinformação, com a vitória inapelável das fake news (afinal a Svetlana Alexijevich morreu ou não?).
   Morreu Ievguêni Ievtuchenko, a poesia não interessa. Passemos ao próximo. Morreu Maria Helena da Rocha Pereira, parece que foi há anos. Quem lê ainda os clássicos gregos? Morreu Bruce Langhorne. Esqueçam. Morreu o realizador Jonathan Demme, morreu Sam Shepard, Jerry Lewis, Harry Dean Stanton, Tom Petty, o Chris Cornell. Estes, desconfio, não morrerão tão depressa. Morreu Vito Acconci e A. R. Penck, a arte está mais pobre - ainda que poucos dêem por isso.
   Calma. Marcelo abraçar-vos-á a todos, Marcelo reconfortar-vos-á, Marcelo, Marcelo, Marcelo, Marcelo enjoa de tanto Marcelo. Vai uma selfie? Marcelo mistura martelo com marmelada, marmelada martelada. Fazes-nos falta, Baptista-Bastos. E tu também, Manuel de Seabra. E muito tu, Armando Silva Carvalho. E mais tu, Alípio de Freitas. Ao contrário de papas e de Fátima e de intrujices quejandas que não nos fazem falta alguma.
   Com um coração novo no Salvador Sobral, isto vai lá. Teremos autocarros cheios de universitários a cantar o Amar Pelos Dois em noite de queima das fitas, enquanto no banco de trás este filmará aquele a apalpar aquela e alguém virá dizer: violação. E outro replicará: mentira, estavam a ouvir o Amar Pelos Dois. Admirem-se. 
   Estranho, estranho, do mais estranho, é que a palavra "assédio" não tenha sido escolhida pela Porto Editora para palavra do ano. Indignem-se. Trump, Melania e Ivanka escutarão as vossas preces.
   As grandes questões para 2018 serão: durará a geringonça mais um ano? O que é feito de Marinho e Pinto? Os AC/DC continuarão sem o Malcolm Young? E os Xutos sem o Zé Pedro? Entraremos em 2018 com estas e outras dúvidas como estas no ar. Voltaremos a ter autarcas ex-reclusos, muita seca, incêndios, o Prémio Camões, e o terrorismo perdurará mais ou menos assim: 

…Londres calou Manila calou Manchester calou Jalalabad calou Cabul calou Paris calou Yahyakhil calou Istambul calou Balkh calou Estocolmo calou Lahore calou Daguestão calou Berlim calou Jacarta calou Madrid calou Peshawar calou Bruxelas calou Ancara calou Nice calou Sousse calou Grand-Bassam calou Orlando calou Shabqadar calou São Petersburgo calou Mohmand calou Diyarbakir calou Mogadíscio calou Damasco calou Dikwa calou Ninive calou Borno calou Charsadda calou Ouagadougou calou Ceel Cadde…

   Fim de citação.
   Não teremos o Pedro Rolo Duarte nem o Medina Carreira nem o Pedro Passos Coelho a declamar discursos (disto não estou tão certo). Teremos o Henrique Raposo e o Quintino Aires. Este país é sempre a subir. Teremos o D. Manuel Clemente a abençoar o Web Summit no Panteão Nacional. Duvidam? Roubam-nos os paióis para depois devolverem tudo com juros. Quem vê isto, acredita em qualquer coisa.
   2017, ano de fogo, ano de mortos, ano de culpas, ano de drones, ano de Tancos. Está a terminar e não vai deixar saudades. Nenhumas. Assim que me lembre, foi dos melhores piores anos que tive. A título pessoal, tudo na mesma como a lesma. Já não é mau. Estamos vivos. Olhando à volta, até parece um luxo. Não tão raríssimo, mas um luxo.

   Viva a Catalunha! 

sábado, 16 de dezembro de 2017

UM POEMA DE EUGENIO MONTALE


PARA CONCLUIR

Recomendo aos meus vindouros
(se os houver) em sede literária,
o que se me afigura improvável, que façam
uma bela fogueira com tudo o que disser respeito
à minha vida, aos meus feitos, aos meus não feitos.
Não sou um Leopardi, deixo pouca coisa para queimar
e é já demasiado viver em percentagem.
Vivi a cinco por cento, não aumentem
a dose. Demasiadas vezes pelo contrário chove
no molhado.

Eugenio Montale (n. 12 de Outubro de 1896, Génova - m. 12 de Setembro de 1981, Milão), in Poesia, tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, Junho de 2004, p. 299.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

ONTEM COMO HOJE



Ainda há pouco estava a ler um artigo sobre a perseguição e o genocídio dos rohingyas por parte das autoridades do Myanmar [atual designação oficial da Birmânia]. As atrocidades descritas já constavam nos livros proféticos deste terceiro volume da Bíblia. Mulheres grávidas que são espancadas e forçadas a abortar... Bebés de colo que são trucidados à frente das mães... Pensa-se que no século VIII a.C. as pessoas eram muito cruéis, pois olhem: em 2017, está a acontecer a mesma coisa! 

Frederico Lourenço, in revista LER, Outono de 2017, pp. 31-32.



A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) estima que o número de vítimas mortais da violência sectária entre agosto e setembro deste ano seja de 6700 pessoas, incluindo 730 crianças. Um número bastante superior aos números oficiais do exército de Myanmar, que reconhece apenas a morte de 400 “terroristas”. (aqui)

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

LEMBRAS-TE COMO FOI?


Outrora com uma vida modesta, como dizem as revistas do coração, Paula Brito e Costa, que não era ministra, mas estava obrigada a participar em diversos encontros diplomáticos, deve ter ouvido Dias Loureiro muitas vezes e seguiu-lhe as boas recomendações, não fosse ser criticada pelas mesmas revistas do coração que tanto espaço ocupam a falar dos vestidos desta e dos fatos daquele. Como diz o senhor Chomsky, que nada sabe destas coisas, «os crimes de terceiros são sempre bem-vindos, oferecendo oportunidades de postularmos grandiloquentemente acerca dos nossos profundos compromissos morais». E disto não sairemos tão depressa.

O DOMÍNIO MATERIAL

«Se há uma frase que cheire mal, não é pondo-lhe perfume que a vamos resolver. O que interessa é perceber porque é que cheira mal». Quem o afirma é Frederico Lourenço, em resposta a uma pergunta de Filipa Melo onde se citava uma tal de frei Herculano Alves. Desconfio que João Paulo de Jesus (n. 1967) subscreva a afirmação de Lourenço, a favor de uma tradução do texto bíblico que permita olhar certo tempo ancestral em função do que nele vigorava e não do que a historiografia foi cristalizando ao longo dos séculos. Nos primeiros parágrafos de O Domínio Material (Companhia das Ilhas, Setembro de 2017) somos enviados para a Jerusalém de Herodes. Maria, uma virgem de quinze anos, é levada do Templo para casa do noivo, de seu nome José. Dez soldados abordam-na, dizendo-lhe que foi escolhida. Por quem? Para quê? Levam-na até Jericó, onde Herodes passaria os meses de Inverno. Aí será violada pelo próprio rei, antes de ser reconduzida a Nazaré. José, o noivo, receberá de um oficial um papiro onde se ordena que case com Maria a troco de vinte denários de prata. Maria estava grávida. Neste romance de estreia, o papiro de Herodes será o leitmotiv a partir do qual a acção se desencadeará. José guardá-lo-á numa arca, «dobrado em quatro e protegido por uma bolsa de pele de cordeiro» (p. 13). Só após a sua morte, a criança parida por Maria, inicialmente dada como morta, terá acesso ao texto. O confronto com as palavras de Herodes abrirá as portas de uma obscura indagação acerca das origens, do eu, da identidade. 
   João Paulo de Jesus é meticuloso na descrição das paisagens, transporta-nos com as personagens pelas montanhas da Judeia, leva-nos a Damasco, mostra-nos a planície de Jizreel, conduz-nos como se fôssemos ao acaso de aldeia em aldeia, percorrendo encostas, no meio de rebanhos, a pernoitar em estábulos. Apesar do referencial bíblico, o cuidado com a linguagem e com certos elementos narrativos resgata a obra desse poço sem fundo que é o das chamadas aproximações literárias, mais ou menos fantásticas, a uma história que estará sempre por contar. O ritmo não é de intriga nem de romance pseudo-histórico, é antes o de um relato sequencial, mas elíptico, do conjunto de acções que inspiram verosimilhança na figura da personagem central: um homem em busca da sua identidade. A esse homem não é dado nome, apenas são atribuídas acções, deslocações, parcas falas: «Tornara-se impenetrável a qualquer questão vinda daqueles com quem partilhava a casa» (p. 86). Vemo-lo entre gente andrajosa, suja, descarnada, ao lado de indigentes como se fosse um deles, e talvez seja. Observamo-lo enquanto vagabundeia no encalço de uma explicação para um destino obscuro. Partilha os pastos e as fogueiras com outros pastores, visita o primo João, aceita a refeição de um leproso, tenta aclarar o que permanece obscuro dormitando de abrigo em abrigo, percorre sozinho e sem montada as estradas do Jordão, perscrutando o mundo em redor. 
   De cada vez que a personagem central deste livro se afasta de um lugar, é como se nos aproximasse da sua essência. Porque este homem é um pastor sem rebanho, é um bastardo, é alguém que conhecerá a fome, a privação material, a indigência e a miséria dos seus semelhantes sem entender o que ele próprio é e representa entre os demais. Certa vez, ao cruzar-se com os soldados da legião: «Teve a certeza de que a vida não seria outra coisa senão aquilo, uma orla esboroada em cujo centro definharia o pouco amor que os poderia resgatar, mas que remotamente os vergava, abreviando a luz e os dias, soprando as candeias para que a escuridão fosse testemunha dos gestos que aí ocultavam» (p. 90). Que fé poderemos nós, leitores, antever em personagem assim pensada? 
   Do encontro com Baptista pouco resultará. Sobre os baptizados, diz a um indigente a seu lado sentado: «Não ficaram mais limpos por ele os mergulhar no rio. O peixe só cheira a peixe depois de sair da água» (p. 118). É duvidoso que quem assim fala transcenda “o domínio material” da sua condição. Parece ser nesse mesmo domínio que João Paulo de Jesus pretende encerrar a sua personagem, da qual nos é dado apenas saber que ao longo da peregrinação vai sendo tomado por mendigo. E é como mendigo que se reconhece entre os outros. Nós sabemos que a sua condição aparentemente mendicante tem pouco que ver com as vestes ostentadas, com o aspecto, com a errância. É a condição de quem busca identidade num mundo de perdidos, um cabrão acagaçado, como lhe dirão os discípulos do Baptista, escondido como um proscrito, talvez, que ao saber por quem foi gerado porventura preferisse manter a verdade dobrada em quatro dentro de uma bolsa feita com pele de cordeiro. No final, a grande questão que se nos coloca é se um homem se define pelos genes? Se assim for, este herdeiro (ainda que bastardo) de Herodes deverá ser considerado Rei dos Judeus.  

VIVA O CAPITALISMO


A cantora britânica Daniella Obeng foi encontrada morta num quarto de hotel, no Qatar, para onde havia viajado seis dias antes. Obeng, de 32 anos, assinava com o nome artístico Devi Ka e emigrou para o Qatar após lhe terem sido retirados os subsídios de desemprego no Reino Unido. À cantora, mãe de uma criança, havia sido diagnosticado um tumor cerebral e epilepsia, mas as autoridades britânicas declararam-na "apta para trabalhar".


Toda a notícia: aqui.

NÃO TÃO RARÍSSIMAS ASSIM

Toda a gente a cascar na Raríssimas. Outrora santa, a ex-presidente da instituição surge agora no papel de cortesã. Manuel Delgado, secretário de Estado da Saúde, já deu de frosques. De braço dado com a jornaleira no Brasil, ficou a perceber quão caras podem sair as selfies. Em todo este caso e dentre a vociferação geral só não consigo entender uma coisa. Acabei de ouvir um reputado comentador dos assuntos económicos afirmar que as IPSS cumprem um importantíssimo papel, fazendo o que o Estado não consegue fazer. Mas com que dinheiro? Não é com dinheiros públicos? Por que não consegue o Estado (com o seu dinheiro) fazer o que fazem as IPSS (com dinheiro que não é delas)? Fica a dúvida. 

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

THE CARIBOO TRAIL (1950)

A história podia começar com um homem a construir uma ponte entre dois mundos, o do sonho e o da realidade. Depois da ponte construída, o homem contrataria alguns capangas para cobrarem taxa a quem pretendesse fazer a travessia. Até que um dia, vindos da realidade a caminho do sonho, dois homens com uma manada de gado decidiriam não pagar as taxas. Poderiam atravessar o rio sem passar pela ponte. O caudal ia baixo, não haveria problema. Mas a história da John Rhodes Sturdy, escritor sem história, é diferente. Complica o que poderia ser simples ou simplificado, trabalho que o realizador Edwin L. Marin (n. 1899 – m. 1951) não esteve para fazer. The Younger Brothers (1949), sobre a saga de dois irmãos ao serviço do gangue liderado por Frank e Jesse James, é o seu western com melhor cotação. Não foram poucos os que assinou, sempre com pequenos orçamentos e engenho desigual. Entre os restantes, são de sublinhar aqueles em que dirigiu o actor Randolph Scott. Colt. 45 (1950), por exemplo, ou Fort Worth/Contra o Crime (1951), o derradeiro dos seus filmes. The Cariboo Trail (1950) tem ainda um outro aliciante, foi o último filme do carismático actor George ‘Gabby” Hayes (n. 1885 – m. 1969). 


São inúmeros os westerns em que participou nas décadas de 1930 e 1940. É ele, velho garimpeiro ao deus-dará, quem acolhe nas terras de Cariboo dois temerários amigos com uma manada de gado, avisando-os, desde logo, do perigo que ali corriam: gado e ouro não se misturam
   Cariboo foi durante algum tempo um dos destinos eleitos por aventureiros assaltados pela febre do ouro. A localidade de Carson Creek, no filme, poderá ser entendida como uma referência a Williams Creek, a mais importante mina de ouro no interior da British Columbia. Completamente dominada e controlada por um arrivista da pior espécie, de seu nome Frank Walsh, Carson Creek será o cenário de uma acção onde, como manda a tradição, os sonhadores farão oposição ao establishment. Vindos do Montana, dois jovens amigos transportam gado para Cariboo com os olhos postos também na possibilidade do ouro. Os problemas começam a surgir quando, ao atravessarem a ponte sem pagarem o que lhes estava a ser cobrado, são alvo de uma emboscada e perdem o gado. Além disso, um deles perde também um braço. A partir daqui, os dois prosseguirão separados com um deles a tentar restabelecer a amizade perdida. O que só acontecerá, como é óbvio, na sequência final. Pelo meio há ainda algumas sequências bastante estilizadas que metem confrontos com indígenas da nação Blackfoot (ou Blackfeet, se preferirem), os índios que durante séculos habitaram a British Columbia. Numa das cenas mais apalermadas da história do western, três brancos são salvos da execução por um burro aos coices a uma tribo indígena. A imaginação não tem limites. 
   The Cariboo Trail nada tem que ver com outros westerns que sabiamente enalteceram os esforços dos pioneiros na conquista de rotas comerciais, transportando gado por percursos agrestes e longos, longe de casa durante semanas, meses, dando força e realismo ao mito do velho cowboy. Entre esses, o melhor de todos os westerns é Red River (1948), com realização do enorme Howard Hawks (n. 1896 – m. 1977). Não ficaria bem exigir a Edwin L. Marin o mesmo talento ou até a mesma ambição. Cinematograficamente, o valor de um filme como The Cariboo Trail só pode ser avaliado enquanto peça de entretenimento. A exaltação dos mitos norte-americanos, a estilização do inimigo, o traço épico conferido aos heróis, enquanto conquistadores de uma paisagem selvagem, é inerente a uma narrativa que não estaria tão preocupada com a verdade como estaria em agradar a um público desejoso de se ver engradecido pela maior das suas artes. Os maus também fazem parte desta história, mas acabam sempre mal. Mesmo quando morrem ao lado dos bons e em circunstâncias similares, deles lembrar-nos-emos apenas conquanto sirvam para enaltecer a generosidade do lado bom da história. Não fugindo minimamente aos clichés, Edwin L. Marin deverá ser lembrado como um dos seus mestres. 

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

NÓS, OS NÓRDICOS

   Só agora fiquei a saber dos deslumbramentos de Marcelo, que, questionado pelo El País sobre a eleição de Mário Centeno para o Eurogrupo, saiu-se com esta: “Somos os nórdicos do século XXI”. Aparentemente, temos aqui apenas mais uma frase engraçada coleccionável para futuras antologias das coisas que os políticos dizem. Mas Marcelo é Presidente da República, nada do que ele diga pode ser interpretado como um faits divers. O problema é que ele tagarela imenso, construindo à sua volta uma capa protectora de “deixa lá, é só mais uma gracinha à Marcelo”. O que quereria o homem dizer aquilo? “Somos os nórdicos do século XXI”? 
   Antes de mais, podemos encher-nos de boas intenções e pensar que ele quis apenas dizer “somos muito bons, estamos em forma”. Com isto, Marcelo puxa para cima os portugueses , enleva a alma lusa, faz-nos acreditar em nós próprios. Ou talvez não. Portugal tem ainda uma das maiores taxas de analfabetismo da Europa. Estudos recentes revelam que não vamos no bom caminho, os indicadores de iliteracia são preocupantes. Nada que permita comparações com os do Norte.
   Ora, Marcelo fala ao El País sabendo que só a nós vai chegar, ou seja, a um país de iletrados. Os iletrados não se preocuparão com o que ele diz, desde que ele continue a distribuir abraços e sopas e sorrisos e conforto. O nosso actual Presidente da República está consciente das características da República a que preside. Só isso explica que para nos enlevar ele nos compare com outros, indo sacar os nórdicos para nos atribuir qualidades que nunca foram as nossas. Mas são agora, no século XXI. 
   Ao mesmo tempo, Marcelo legitima com esta frase o preconceito dos nórdicos relativamente ao sul. Para se ser bom, é-se nórdico. Não se é mediterrânico. Os portugueses são os nórdicos do século XXI quer dizer que os nórdicos tinham razão quando nos chama(va)m porcos, os pigs, mas agora nós estamos cada vez mais limpos e perfumados, saímos das pocilgas e ficamos mais louros, estamos mais redondamente nórdicos. Presidimos a essa coisa monumental que dá pelo nome de Eurogrupo. 
   Ninguém vai preocupar-se com a frase de Marcelo porque na metamorfose anunciada não cabem preocupações. Marcelo pode continuar a dizer o que bem entender. Ninguém irá parar para, por um segundo que seja, o observar e o interpretar. Ele é uma barata tonta com o poder de nos entontecer. Estaremos todos ocupados a cumprir o nosso papel de nórdicos. Tivesse sido Cavaco a afirmá-lo, talvez o orgulho nacional fosse posto em causa. Ao simpático Marcelo tudo se perdoa.
   Pela boca do nosso Presidente da República ficámos então esclarecidos, nós não somos o que somos nem quem somos, não fazemos o que fazemos. Se agora somos excelentes e até presidimos a essa coisa monumental que é o Eurogrupo, isso só foi possível porque abdicámos de ser quem somos. Temos mais frio, ainda que rodeados de chamas. Substituímos o barrete pelo capacete viking, deixámos de enfiar o barrete para exibirmos uma parelha de cornos. Traídos já fomos, há muito. Nórdicos ou atlânticos ou mediterrânicos ou sulistas ou coisa nenhuma. Talvez apenas analfabetos, iletrados, disfuncionais, amarcelados. 

domingo, 10 de dezembro de 2017

A PALAVRA ASSÉDIO


A palavra assédio aparecerá muito nos balanços que hão-de ser feitos de 2017, por culpa dos escândalos de assédio sexual envolvendo nomes importantes de Hollywood. É como se o assédio fosse coisa de gente fina, actores, produtores, actrizes, músicos, artistas. Por cá, o assédio não existe. Não temos gente fina. Somos um país de brandos costumes povoado por saloios e singelíssimas elites, paraíso plantado à beira da Europa. Não há portugueses nos Panama Papers, a WikiLeaks é para gente do topo. Estará Portugal no mapa? Nós somos da base, isto é, somos do buraco onde há muito nos enfiámos. O turista gosta de Portugal porque Portugal não tem dessas coisas ruins que se vêem lá fora, tem a Madonna à procura de casa. Chega. E baladas comoventes que conquistam festivais, e a luva branca do Éderzito. Certo, temos incêndios. Mas que é isso comparado com Allahu Akbar? Eucaliptos em chamas não gritam Allahu Akbar! Se o maior defeito de Portugal é esbanjar dinheiro em copos e gajas, aí estamos nós presidindo à instituição que inda agora nos acusava de esbanjarmos dinheiro com copos e gajas. Como se fosse defeito. Os estupradores portugueses não assediam nem violam, fazem festinhas. Ninguém leva mal. Entretanto, um poema da brasileira Nina Rizzi para balanço de 2017:

e danço um tango com você

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas
acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando
assim facim facim
e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca
porque elas exageram no kajal e rímel
eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca
vai chegar.
não sai nos jornais, inúmeras gentes — essas mulherzinhas também —
se jogam ali todos os dias.
eu não vomito. Hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo
de flores, de cheiros e uivos.

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.
eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo
do ggm.
eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.
você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.
não engulo a sua arte e te mataria por isso,
sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

penso nas normalidades desses senhores

ela se insinua
é pelo cinema, é por amor
por deus, deixe — viver a vida
ora, uma maria assim tão dada
uma maria assim tão nua
uma maria assim com virgindade tão apertada

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.
sei que não sei dar amor a quem me estende a mão
eu amo o feio e a deformação
mas olha, você me olha
e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

eu te amo maria
seu território também é meu
seu silêncio também é meu
amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,
anônimas.



Nina Rizzi, in geografia dos ossos, Douda Correria, Fevereiro de 2015, s/p. 

sábado, 9 de dezembro de 2017

UMA IMAGEM PARA O DIA


UM POEMA DE JOÃO ALEXANDRE LOPES

POST-DOMINICAL

Domingos de bola, rádio no carro,
crochê delicado da mãe.
Do seminário vinham rapazes
arejar a alma pastoral.
Corava-se muito.

Depois veio o shopping
aumentar as possibilidades:
um sorriso pequeno,
uma coxa bem modelada,
um peito farto.

Hoje ataca-nos a modorra
de uma final do Grand Slam,
fazem-se McAlmoços divertidos
e vamos todos de braço dado
passear pelo Face.

João Alexandre Lopes, in Hora Zero, Medula, Outubro de 2017, p. 30. 

JERUSALÉM

Ontem adormeci a ver "Silêncio". Foi a primeira vez que adormeci a ver um filme de Martin Scorsese, o que me leva a concluir que o filme deve ser muito melhor do que todos os outros. Talvez estivesse cansado. Acordei a meio da noite e fui para a cama. Ainda delirei com algumas cenas do filme, mas julguei-me na Jerusalém actual. Não compreendo aquela fé. Não a aceito. Se esses são homens de Deus, prefiro dormir.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

LEVIATÃ / ESPELHOS NEGROS

Qualquer boa surpresa guardada para final de ano arrisca-se a passar despercebida, arrastada pela voragem de lixo instalada nas livrarias durante o período da quadra natalícia. É uma injustiça que não pretendemos para Leviatã ou O Melhor dos Mundos seguido de Espelhos Negros (Abysmo, Outubro de 2017), de Arno Schmidt (n. 1914 – m. 1979), com tradução aplicada de Mário Gomes. Acontecimento literário, desde logo, por nunca o autor alemão ter sido traduzido para língua portuguesa. Ele próprio tradutor, arquitecto de uma prosa altamente experimental, surge amiúde comparado aos irlandeses Laurence Sterne e James Joyce. A nível de experimentação, poderíamos ainda referir o francês Georges Perec ou o Leminski de “Catatau”. Não estamos a falar de influências literárias. Essas, o próprio Arno Schmidt encarregou-se de sublinhar exaustivamente no corpo dos seus textos. Em Leviatã, por exemplo, «Kant limitou-se a demonstrar que as provas da existência de um Deus «bom» eram piadas mal contadas» (p. 19). O autor das três críticas surge ainda referido a par de Schopenhauer, Bernhard Riemann, Goethe, Darwin, naquela que se apresenta como uma escola inspiradora da heterodoxia abraçada por Schmidt. 
   Sublinhe-se, de igual modo, a irónica alusão a Leibniz no subtítulo do livro de estreia. Leviatã ou O Melhor dos Mundos foi publicado em 1949, na ressaca de uma devastadora guerra em que Schmidt serviu. O texto sugere qualquer coisa de catártico no tom furioso e sarcástico das reflexões propostas. Leviatã, que tanto pode ser aqui entendido como o Criador ou como a Natureza (vide p. 39), gerou um monstro chamado humanidade. A ideia de vivermos no melhor dos mundos possíveis não pode senão ser uma patranha desmentida quer pela razão, quer pela mera observação. Do leque germânico, Nietzsche é quem sai mais mal tratado. Acusado de inspirar o nazismo, foi, e passo a citar, um simplório, o idólatra do poder, patife de focinho loquaz… «Ele e Platão foram dois grandes parasitas (para além de ignorantes: veja-se nas ciências da natureza)» (p. 25). 
   Destacado para a Noruega em 1940, já depois de ter casado, Arno Schmidt acabou como prisioneiro de guerra durante oito meses. Perdeu tudo durante esse período, instalando-se posteriormente com a mulher em Cordingen. Aí iniciou a sua carreira literária com Leviatã. A ideia de fuga, associada à de sobrevivência, marcam o texto. Ainda num estilo não tão complexo como o de Espelhos Negros, o livro de estreia é uma narrativa «pautada por uma acção com forte carga alegórica e laivos de estudo social» (Mário Gomes, no prefácio). Algo semelhante pode ser dito de Espelhos Negros, prosa desenvolvida já num estilo elíptico que se caracteriza pela fragmentação do discurso. Cada fragmento como que corresponde a um parágrafo, desenvolvido a partir de uma ideia ou tema colocados em itálico no início do texto. 
   Espelhos Negros data de 1951 e corresponde, em termos biográficos, a uma espécie de prenúncio do isolamento a que Schmidt se dedicou, a partir de 1958, na aldeia de Bargfeld. A narrativa inicia-se no dia 1/5/1960, formando uma espécie de diário com forte componente autobiográfica a que o autor não se furta. «No fim hei-de ficar sozinho com o Leviatã (ou até transformar-me eu nele)», diz-se a páginas 50. Esta metamorfose surge de um voluntário isolamento no seio da Natureza, que Arno Schmidt descreve em belíssimos fotogramas ao mesmo tempo que afirma a humanidade como uma personificação do mal: «Isto é o mais bonito na vida: profundidade nocturna e lua, orlas de florestas, águas resplandecentes e silenciosas, ao longe, na modesta solidão de um prado fiquei acocorado durante algum tempo, ocioso, com a cabeça inclinada para a direita; de quando em quando uma estrela lançava uma chispa muito para lá de Stellichte; por vezes uma ventania desengonçada surpreendia-me e despenteava-me, como uma amante adolescente e malcriada; mesmo quando tive de ir atrás de um arbusto, foi atrás de mim» (p. 52).
   Dividido em duas partes, Espelhos Negros narra no primeiro tempo a fixação de um homem no seio da natureza, a construção de um abrigo, os momentos de total isolamento, a busca de mantimentos, instantes de auto-reflexão, por vezes assaz autocríticos, o elogio do trabalho braçal e dos esforços físicos, com espaço, sempre e de forma contundente, para a desmistificação dos mitos alemães: «finalmente um livro: Rilke, Histórias do Bom Deus, vens mesmo a calhar; e arranquei logo as páginas necessárias àquela prosa de ourives: só o título já me revoltou: palavreado finório; este é mais um pneumatómaco: vai mas é prós guácharos!» (p. 63). Categorias como as de pessimismo e optimismo não são para aqui chamadas. Arno Schmidt manifesta uma profunda desconfiança da humanidade, mas não se pode dizer que seja um pessimista. A segunda parte de Espelhos Negros, pautada pelo encontro amoroso com «uma cigana daquelas de verdade», recoloca-o com extrema evidência num espaço de contradição que é o seu. 
   Já antes, este literato que passou a vida a remexer no sem-sentido declarara: «Ai do homem que não se tenha arrependido pelo menos 10 vezes na vida de não ter escolhido o ofício de carpinteiro!» (p. 73). O que os dois textos reunidos neste volume manifestam é um total desprezo pela maldade, a qual não pode senão ser imputada à ignorância dos homens cuja vida se faz em função dos interesses de grupo. Schmidt viu até onde o homem pode ir no ofício da maldade, não está minimamente interessado em desculpar-se ou em mergulhar num exercício de auto-negação. Porque espertos são os eremitas, depreendemos que a burrice seja o social. Lisa, a cigana de verdade, personifica também ela a beleza do anti-social ou, se preferirem, do solipsismo. Com ela, o protagonista de Espelhos Negros partilhará as memórias. E nisto há também uma noção do que é esse impulso de escrever sem qualquer perspectiva de chegar a uma massa de leitores, ou seja, a possibilidade de um encontro isolado dos ruídos do mundo, a contradição de um encontro entre duas solidões que não se esvaziam de identidade por se verem ao espelho. A um espelho negro.