Passaram 50 anos sobre o primeiro álbum dos
The Doors. Assim começámos 2017, a celebrar a efeméride. E assim fomos
continuando com raríssimas excepções, interrompendo o exercício continuado da
revisitação com meia dúzia de novidades. Compro cada vez menos discos. O tipo
que me os vende chama-me alienígena, diz que já ninguém compra discos. Mas eu
insisto nesta estúpida missão. Não é só o prazer de ter o objecto, é mesmo o
prazer de o comprar como se nesse gesto estivesse implicado um acto de
resistência.
O que seria de mim sem a música? Por certo já teria ido desta para
melhor. Nada há no mundo, nem mesmo a poesia, que mais me disfarce o mundo, que
mais me faça viajar, que mais me ajude a esquecer. Talvez a pintura. Também viajo muito a folhear livros de
arte, a descobrir como outros fintaram os espinhos da existência.
Confesso a
face difícil do ano que ora finda. Frank Zappa foi, sem dúvida, o músico que
mais ouvi. Reencontrei na sua obra a expurgação ideal dos demónios que
deformam esta coisa chamada planeta Terra. Os demónios, certos homens. Não
admira que Zappa tenha dado início a uma ceita.
De pendor satânico, os Black
Sabbath penduraram as botas. Nunca fui fã de heavy metal, o que não me
impediu de apreciar Vol. 4 (1972) e outros congéneres enquanto
exemplares esconjurações musicais. Fique o registo.
Em 2017, além dos acima
ilustrados, fizeram-me companhia Car Seat Headrest, Suzanne Veja, Savages, Bon Iver,
Kate Tempest e, claro, o nosso Salvador Sobral. Não me cansei de Amar Pelos
Dois, que a minha Matilde continua a ensaiar ao piano vezes sem conta. Não é a
banda sonora dos meus sonhos, mas sabe-me bem sonhar ao som desse romantismo pueril.
Seja como for, em termos de música portuguesa a grande descoberta do ano, para
mim, foi o acordeonista João Barradas. Vi-o na Festa do Avante e fiquei
estupefacto. Nasceu no ano em que eu entrei para a universidade, toca como um
mestre. Um músico do outro mundo, ora escutem:
Dito isto, ficam links para os 6 magníficos acima
representados e + 1. Grato pela companhia:
Thurston Moore, Rock N Roll Consciousness (aqui)
Dan Auerbach, Waiting on a Song (aqui)
Fleet Foxes, Crack-Up (aqui)
Benjamin Clementine, I Tell a Fly (aqui)
WPC, Ogilala (aqui)
Micah P. Hinson, The Holy Strangers (aqui)Tricky, Ununiform (aqui)

4 comentários:
Também não dispenso os discos, e a informação que eles contêm (ou deveriam conter). Mais logo, vou ouvir.
Já há muito tempo que me abstia de dizer o que vem de seguida: Então e musica portuguesa?
Finalmente!... Esse Directions já há uns meses que toca cá por casa, e há mais recente: Home, An End As A New Beginning. Admirável.
Ainda assim, devo confessar que por aqui já conheci muita boa música. Estrangeira, sim, mas boa música.
Ricardo, a música também é feita de histórias, cruzamentos, e até daquela estética que o design de capas, booklets e afins se encarrega de definir.
Ivo, tenho uma relação algo estúpida com a música portuguesa. Acho que nunca como hoje houve tanta e tão boa música em Portugal. Por outro lado, raramente compro música portuguesa. Prefiro ouvir ao vivo.
Em relação aos booklets e afins, há uns tempos tive uma troca de mails engraçada com o agenciamento do Slow J. Para eles, o digital é que é. E explicar-lhes o que dizes de forma a compreenderem?? Não consegui.
Fiquei satisfeito quando há uns dois meses me apercebi que de toda a última tralha de cds que tinha comprado e ainda estava por arrumar, pouco mais de 100, mais de metade era portuguesa.
A cena ao vivo é sempre diferente, seja para pior ou para melhor é só aquele momento. Mas já fico com outra ideia se assim é, pensava que só ligavas mesmo à"estrangeirada" :)
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