segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

2017, MÚSICA


   Passaram 50 anos sobre o primeiro álbum dos The Doors. Assim começámos 2017, a celebrar a efeméride. E assim fomos continuando com raríssimas excepções, interrompendo o exercício continuado da revisitação com meia dúzia de novidades. Compro cada vez menos discos. O tipo que me os vende chama-me alienígena, diz que já ninguém compra discos. Mas eu insisto nesta estúpida missão. Não é só o prazer de ter o objecto, é mesmo o prazer de o comprar como se nesse gesto estivesse implicado um acto de resistência. 
   O que seria de mim sem a música? Por certo já teria ido desta para melhor. Nada há no mundo, nem mesmo a poesia, que mais me disfarce o mundo, que mais me faça viajar, que mais me ajude a esquecer. Talvez a pintura. Também viajo muito a folhear livros de arte, a descobrir como outros fintaram os espinhos da existência. 
   Confesso a face difícil do ano que ora finda. Frank Zappa foi, sem dúvida, o músico que mais ouvi. Reencontrei na sua obra a expurgação ideal dos demónios que deformam esta coisa chamada planeta Terra. Os demónios, certos homens. Não admira que Zappa tenha dado início a uma ceita. 
   De pendor satânico, os Black Sabbath penduraram as botas. Nunca fui fã de heavy metal, o que não me impediu de apreciar Vol. 4 (1972) e outros congéneres enquanto exemplares esconjurações musicais. Fique o registo. 
   Em 2017, além dos acima ilustrados, fizeram-me companhia Car Seat Headrest, Suzanne Veja, Savages, Bon Iver, Kate Tempest e, claro, o nosso Salvador Sobral. Não me cansei de Amar Pelos Dois, que a minha Matilde continua a ensaiar ao piano vezes sem conta. Não é a banda sonora dos meus sonhos, mas sabe-me bem sonhar ao som desse romantismo pueril. 
   Seja como for, em termos de música portuguesa a grande descoberta do ano, para mim, foi o acordeonista João Barradas. Vi-o na Festa do Avante e fiquei estupefacto. Nasceu no ano em que eu entrei para a universidade, toca como um mestre. Um músico do outro mundo, ora escutem:


   Dito isto, ficam links para os 6 magníficos acima representados e + 1. Grato pela companhia:

Thurston Moore, Rock N Roll Consciousness (aqui)
Dan Auerbach, Waiting on a Song (aqui)
Fleet Foxes, Crack-Up (aqui)
Benjamin Clementine, I Tell a Fly (aqui)
WPC, Ogilala (aqui)
Micah P. Hinson, The Holy Strangers (aqui)
Tricky, Ununiform (aqui)

4 comentários:

R. disse...

Também não dispenso os discos, e a informação que eles contêm (ou deveriam conter). Mais logo, vou ouvir.

Ivo disse...

Já há muito tempo que me abstia de dizer o que vem de seguida: Então e musica portuguesa?
Finalmente!... Esse Directions já há uns meses que toca cá por casa, e há mais recente: Home, An End As A New Beginning. Admirável.
Ainda assim, devo confessar que por aqui já conheci muita boa música. Estrangeira, sim, mas boa música.

hmbf disse...

Ricardo, a música também é feita de histórias, cruzamentos, e até daquela estética que o design de capas, booklets e afins se encarrega de definir.

Ivo, tenho uma relação algo estúpida com a música portuguesa. Acho que nunca como hoje houve tanta e tão boa música em Portugal. Por outro lado, raramente compro música portuguesa. Prefiro ouvir ao vivo.

Ivo disse...

Em relação aos booklets e afins, há uns tempos tive uma troca de mails engraçada com o agenciamento do Slow J. Para eles, o digital é que é. E explicar-lhes o que dizes de forma a compreenderem?? Não consegui.
Fiquei satisfeito quando há uns dois meses me apercebi que de toda a última tralha de cds que tinha comprado e ainda estava por arrumar, pouco mais de 100, mais de metade era portuguesa.
A cena ao vivo é sempre diferente, seja para pior ou para melhor é só aquele momento. Mas já fico com outra ideia se assim é, pensava que só ligavas mesmo à"estrangeirada" :)