domingo, 10 de dezembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #28


   A relação entre o cinema e a música vem de há muito, quando a sétima arte era uma criança em desenvolvimento. Ainda nos tempos do mudo, a projecção dos filmes era frequentemente acompanhada por uma orquestra instalada na coxia. Alguns compositores ficaram para a história ou afirmaram-se plenamente como autores daquilo a que hoje se dá o nome de bandas sonoras. 
   Dificilmente falaremos de western spaghetti sem que nos ocorra o nome do compositor italiano Ennio Morricone. O ucraniano Dimitri Tiomkin fez praticamente toda a sua carreira em Hollywood, assinando muitas das melodias inesquecíveis que ofereceram ritmo aos filmes aí produzidos. Assim de repente, ocorrem-me igualmente os enormes sucessos das composições de Michael Nyman para o filme “The Piano” ou as peças do francês Yann Tiersen para filmes como “Good Bye Lenin!” e “Amélie”. Não deve imenso o realizador sérvio Emir Kusturica ao talento musical de Goran Bregovic? 
   Ryuichi Sakamoto é outro extraordinário compositor que nos habituámos a ouvir nas salas de cinema. Filmes como “The Last Emperor”, “Merry Christmas Mr. Lawrence”, que contava com David Bowie no elenco, ou o mais recente “The Revenant”, ficarão para sempre associados a melodias concebidas por Sakamoto para cenários cujo efeito visual seria inevitavelmente diferente não fossem os apontamentos musicais que os acompanharam. 
   Em meados da década de 1990, o músico japonês resolveu rever a matéria dada num álbum que levou o título seco do ano em que surgiu: “1996”. Despido de efeitos, Ryuichi Sakamoto sentou-se ao piano e fez-se acompanhar apenas por um violinista e do nosso conhecido violoncelista brasileiro Jaques Morelenbaum. Os temas estão lá e não enganam, são exactamente os mesmos que ilustraram imagens mais ou menos sumptuosas na sala de cinema. Ouvimo-los e vêm-nos à memória, como se fosse inevitável, cenas, rostos, personagens, até diálogos. Mas agora temos apenas a música, e apercebemo-nos de quão visual é também a sua linguagem. 
   No tema "A Tribute to N. J. P." a introdução de Morelenbaum sublinha isso mesmo, a imagética da linguagem musical. Não precisamos de ter visto o filme para o qual o tema foi composto para começarmos a imaginar cenários e a estabelecer relações. Antecede “High Heels”, escrito para “Tacones Lejanos” de Pedro Almodóvar. Aí a experiência já é diferente, a música embala-nos como uma espécie de memória auditiva. Embarcamos numa digressão melancólica por territórios de um imaginário familiar. 
   Tão trágicos quanto introspectivos, na mesma medida épicos e intimistas, os temas de “1996” proporcionam, pelo despojamento dos arranjos, uma viagem ao centro da música. Tal como Júlio Verne outrora nos levou ao centro da Terra.


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