sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

BANDA SONORA ESSENCIAL #29


   A origem do povo rohingya é incerta. Milhares de elementos dessa etnia têm vindo a ser chacinados em Myanmar, ex-colónia do Reino Unido outrora chamada de Birmânia. Os rohingya são muçulmanos, uma minoria num país maioritariamente budista. Parece que a vertente budista em vigor na antiga Birmânia tem pouco que ver com o exotismo pacifista por cá geralmente associado a simpáticos monges carecas embriagados de incenso. A chamada comunidade internacional vem abordando mais este genocídio com pinças, como é típico da comunidade internacional (uma coisa algures entre a Casa Branca e o Kremlin). Também sejamos honestos, com um líder de penteado duvidoso a brincar com armas nucleares como quem brinca com a pilinha é quase certo que ninguém vá preocupar-se com minorias étnicas de inspiração islâmica. Talvez no futuro um cineasta de Hollywood pegue no assunto e faça um filme a pensar na gala dos Oscars, ao jeito de “Hotel Rwanda” – que deixou em estado de choque uma horda de néscios, todos a dormir quando tutsi e hútus andaram a matar-se uns aos outros.
   No romance “And the Ass Saw the Angel” há uma personagem que a determinada altura se questiona sobre o sentido da crueldade no mundo. Por que critérios regerá Deus a sua vontade? Terá critérios? Terá vontade? Como é que chegará Ele a uma decisão? Deus toma decisões, certo? Haverá um padrão nas suas decisões? Constatada a crueldade do mundo, a personagem imaginada por Nick Cave conclui que, enquanto humano, não lhe resta senão sorrir de frente para tudo. Tudo significa maldade, dor, medo, morte. O sorriso enquanto expiação é só uma forma de dizer.
   Nick Cave é um dos mais relevantes escritores de canções da sua geração. Nasceu numa cidade australiana, começou por se afirmar ainda na década de 1970 com os The Birthday Party – grupo de inspiração gótica como à época havia muitos. Em 1983 formou os The Bad Seeds, que, apesar das inúmeras metamorfoses ao longo dos anos, ainda hoje o acompanham. Julgo que comecei a ouvir Nick Cave & The Bad Seeds em 1988, quando adquiri o álbum “Tender Prey”. Não sendo eu pessoa religiosa, antes pelo contrário, sempre me agradou imenso o desassossego existencial exposto na obra de Cave. Deus é para ele uma interrogação que o comportamento dos homens levanta. Isto faz-me sentido, como fazem sentido as dores do mundo que o poeta carrega. O que não me faz sentido algum é pessoas de fé inchadas de certezas acerca de Deus.
   "The Boatman’s Call" (1997) talvez seja o meu álbum preferido de Nick Cave, o mais intimista, desnudado, o menos rockeiro de todos. Surgiu na ressaca do mega e inesperado sucesso alcançado com “Murder Ballads” (1996), consolidando a excelência de Cave enquanto escritor de canções. Sentado ao piano, acompanhado por singelos arranjos de cordas, viola, bateria, baixo, "The Boatman’s Call" questiona tanto a religião como o amor, em busca de respostas para uma alma acossada pelo sofrimento, pelo medo, pela dor, pela crueldade do mundo. Faz tanto sentido, tanto.


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